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Vidas marcadas pelo abuso

Conheça quatro histórias que mostram a difícil realidade de conviver com algo tão doloroso e por tanto tempo

reportagem CAROLINA ZENI

fotos CAROLINA ZENI e PIXABAY

Ter a sensação de não ter para onde ir, muito menos que existe um porto seguro. Sofrer a vida toda, fugir de qualquer sentimento bom que ainda possa existir dentro de si. Todas as escolhas de vida das mulheres que relatam os casos de violência sexual infantil abaixo foram pautadas pelo trauma, até que, um dia, dividir o sofrimento trouxe certo alívio. Infelizmente, não é à toa que muitas crianças se fecham depois de sofrer o abuso.

Entre o abusado e o abusador, existe uma certa cumplicidade, como destaca a psicóloga Tânia Pimentel. Ele vai conquistá-la e assustá-la de alguma forma. Ingênua, inocente e amedrontada, não é surpresa que a criança deixe de falar. Mas os sintomas acusam. Mais cedo ou mais tarde. Aqui, mostramos quatro histórias de vidas marcadas pelo abuso. Mulheres que sofreram durante boa parte da sua infância e carregaram o trauma para a vida adulta. 

Orgulho das origens

Praticamente durante toda a adolescência, olhar-se no espelho não era uma opção. Ela mesmo atesta a infância como uma fase de embasamento, um momento durante o qual as primeiras emoções serão resguardadas. Para sempre. Tanto suas palavras quanto o olhar inexpressivo de angústia revelam a lembrança mais triste da infância que uma criança pode carregar: o abuso. No caso dela, em todas as suas faces. 

Pequenina, aos 7 anos, Isabel* precisou processar o luto de perder alguém querido. Traumatizada e de família pobre, foi morar com a mãe. Na casa, onde a proteção deveria prevalecer, foi abusada pela primeira vez. De mão em mão e colo em colo, os toques na inofensiva menina não eram praticados apenas por uma pessoa, mas sim por vários tios. Desta forma, viveu sua infância. Na época, Isabel não entendia as situações como um abuso. Mesmo assim, mais tarde, conheceria os efeitos psicológicos desta violação. 

Aos 11 anos, pré-adolescente e com o corpo já em desenvolvimento, os toques e carícias foram se acentuando e o ato sexual, pela primeira vez, foi consumado. Desta vez, pelo padrasto. De acordo com Isabel, ele era uma pessoa atenciosa e conseguiu conquistar sua confiança. “Foi uma decepção tão grande, porque eu confiava muito nele. E fui abusada justamente onde eu me sentia protegida.”

O início dos abusos

Isabel lembra muito bem do quanto ele forçava uma situação para poder ficar sozinho com ela. Seus irmãos iam brincar na rua e, intimidada, era obrigada a ter relações sexuais com o homem. “Ele se sentia dono do meu corpo. Me tocava, tirava a minha roupa e eu ficava que nem uma estátua, não tinha reação pra nada”, relembra. O desespero em sua voz é vivo, pulsante e terrível.

Depois do ato, enojada, a menina ficava horas no banho tentando se limpar. O padrasto fazia sua higiene e ia trabalhar. Na frente dos outros, agia como se nada tivesse acontecido. Era uma situação velada, mas lembrar que os estupros aconteciam até em cima da cama da mãe não permitia que ela conseguisse esquecer a cena. Os abusos aconteceram durante dois anos. Pararam quando ela tinha 14.

O meio de sobrevivência encontrado pela menina foi, justamente, não contar a ninguém o que havia acontecido. “Eu não tinha coragem de falar”, lamentou. Isto fez com que Isabel deixasse de ser a menina arteira que sempre fora para se transformar em uma pessoa extremamente rebelde e revoltada.

Retração

Isabel explica que sentia uma culpa muito grande e acabava renegando a si mesma, acreditando ser ela a pessoa causadora da situação. Levou anos para que ela entendesse que era a vítima da história desde que o primeiro abuso aconteceu, aos 7 anos. Na escola, as mudanças foram radicais. Diferentemente das meninas da sua idade, Isabel tentava, ao máximo, esconder seu corpo. Roupas largas, um agir masculinizado e vaidade zero. A autoestima baixa fez com que ela começasse a se anular como pessoa e, também, afastar quem pudesse querer sua amizade. Não se interessava mais pelos estudos, tanto que repetiu de ano uma vez. “Quanto menos me visse, menos falassem, para mim era melhor”. Infelizmente, a troca de escola, na época, não possibilitou uma visão mais detalhada da personalidade da menina por parte de professores e gestores. 

Acreditar que era responsável por tudo que lhe aconteceu também lhe tirou a capacidade de confiar e acreditar em alguém. Aliás, na época, adolescente e com os hormônios a mil, não teve nenhum tipo de contato com homens desde que fora estuprada.

No fundo do poço, a esperança

No intervalo de tempo em que os abusos cessaram e a menina tentava recomeçar, uma pessoa de bom coração ajudou-a a se reerguer. Isabel se refere a uma “amiga muito querida”, que lhe ajudou a redescobrir a autoestima e vaidade. Aos poucos, foi aprendendo a se gostar novamente. Com isso, a sorte parecia estar cada vez mais presente em sua vida. Finalmente, depois de tanto sofrimento, conseguia ver uma luz no fim do túnel. Conheceu o seu atual marido e único namorado. Antes de namorarem, foram grandes e bons amigos. Foi o único homem, inclusive, que conseguiu conquistar a confiança de Isabel, que se sentia cuidada e protegida, coisa que nunca havia acontecido desde a infância.

O carinho e o respeito do namorado foram quebrando sua resistência e um relacionamento saudável a fez entender que ele não faria nada que ela não quisesse. Ainda assim, o fantasma do abuso não a abandonava. Isabel conta que, mais tarde, já casada e com dois filhos, sexo, para ela, era algo que não precisava existir. E isso estava atrapalhando o seu casamento. “Ele não se sentia desejado, mas não era nada disso que eu queria demonstrar. Era só um mecanismo de defesa, pois eu voltava a lembrar de tudo o que o meu padrasto fez comigo.”

Até que, um dia, resolveu abrir o jogo e contou tudo para o marido. Mas o aperto em seu peito continuava, talvez ainda mais forte. Isabel, hoje com 49 anos, viveu boa parte do tempo atormentada. Mais do que tudo, ela desejava esquecer todas aquelas lembranças ruins, mas não trabalhava para elaborá-las. Tinha pesadelos, nos quais inconscientemente culpava sua mãe, que aparecia em forma de monstro. Mais do que um sono ruim, teve diversos episódios de depressão, os quais mascarava muito bem, para que seus filhos e marido não desconfiassem.

A mulher compreendeu que o seu sofrimento excessivo e velado não estava lhe fazendo bem - nem para ela, nem para a família. Previa seu casamento acabado. E, se não mudasse, ela entendia que isso poderia ser real num futuro próximo.

A busca por amparo psicológico

Maior do que os danos físicos são os psicológicos. É uma das características do que o abuso sexual infantil faz com um indivíduo quando ele se torna adulto. A decisão que Isabel evitava ao longo dos anos, de repente, lhe pareceu clara. Não podia mais ficar evitando o passado. Precisava abrir o jogo e só lhe restava torcer para que, depois de todos aqueles anos, o amor fosse capaz de vencer tudo.

Seu esposo e seus filhos eram a sua vida e ela precisava fazer de tudo para que família não fosse apenas uma palavra, mas a representação da união e do amor dentro de casa. Então ela procurou ajuda psicológica. O bloqueio era tão grande que demorou cerca de seis meses para revelar tudo o que sofreu para o profissional que a atendeu. Até ali, onde ela sabia ser um espaço para ajuda, ela mascarou sua história de vida. Com mais de 30 anos, era a primeira vez que ela relatava o estupro a alguém. Durante quatro anos, passou por um longo tratamento para recuperar confiança, autoestima e aceitação.

Entendimento

Durante seu tratamento, a vida lhe trouxe ainda mais esclarecimentos. Conheceu pessoas que também enfrentaram situações de abuso sexual e isso lhe deu forças para que ingressasse na área social. Trabalhar as dores dos outros e identificá-las também lhe ajudou a superar o trauma. “Meu momento de libertação foi quando me dei conta de que eu era vítima”, declara, com a voz falhada.

Quando questionada sobre superação, longos 60 segundos se estendem até que consiga concluir que sim. Que tem gana pela vida. Que tem orgulho de ser quem é e que, acima de tudo, pode ajudar outras pessoas. Que é grata por sua trajetória de vida. Tudo o que não teve em sua infância - principalmente a devida proteção - ela ofereceu para os seus filhos. Superprotetora, sempre procurou educá-los como pessoas íntegras, honestas e batalhadoras.

“Eu não tive uma referência, mas são os filhos que nos ensinam a ser mães. Tudo o que eu não tive eu dei para eles, principalmente amor. Sempre ensinei que o corpo era deles e ninguém teria o direito de botar a mão. Tenho orgulho dessa família que eu construí e do que eles se tornaram”, declarou, sorrindo radiante. 

De personalidade irrefutável, Isabel não abaixa mais a cabeça, nem nunca desiste de buscar por seus ideias. Se reinventou como mulher, que busca, tem ideias e objetivos. “Não é mais tão doído”, resume, aliviada.

Quem perdoa não esquece

Os medos, as angústias e todo o nojo que sentia acabaram sendo carregados em subterfúgios não tão sutis. Isto porque hoje, aos 41 anos, Bianca* revela as consequências que o abuso sexual na infância lhe causou na vida adulta. Nas suas lembranças mais profundas, só resta a dor por ter sofrido violações em um período onde sua rotina deveria ser repleta de brinquedos, aprendizado e zelo familiar. “Minha infância foi horrível”, confessa, com um olhar triste.

Nascida em Estância Velha, a artesã e dona de casa morou com os pais até seus 16 anos. Desde pequena, via a violência de perto, dentro de casa. Seu pai, alcoolista, frequentemente agredia a mãe - física e psicologicamente - e quebrava todos os móveis da casa. Com ela, não foi diferente: sofreu o primeiro abuso aos 5 anos de idade. A violência se estendeu por uma década. Os beijos, abraços e carícias eram diferentes do que Bianca via nas outras famílias. O pai aproveitava o silêncio da noite para ir ao seu quarto. O coração sufocava de angústia e pavor. A única reação eram as lágrimas.

Era tudo intenso demais e, segundo relata, o abuso vinha acompanhado de ameaças. “Ele ameaçava matar minha mãe e meu irmão se eu contasse qualquer coisa”, conta. Membros da família, na época, desconfiavam, mas ninguém tinha coragem de tomar uma atitude mais contundente. Bianca tentou contar para a mãe, que não lhe deu ouvidos: “Tu só pode estar sonhando!”.

Vida em preto e branco

Bianca ressalta que o abuso é algo extremamente real, está em muitas casas e, diferentemente do que se pensa, as crianças dão muitos sinais. Basta prestar atenção. No caso dela, a primeira pessoa que percebeu também tentou ajudá-la: foi sua professora do primeiro ano do ensino fundamental. A educadora questionava os motivos da menina não querer desenhar imagens da família, cores e amores. “Eu não tenho vontade, minha vida não é colorida”, respondia. Seus pais foram chamados na escola, mas conseguiram se desvencilhar da desconfiança da professora. “Eu apanhei muito naquele dia”, lamentou, cabisbaixa. Sua única porta de ajuda, que esteve aberta por poucos segundos, foi trancada e lacrada a sete chaves.

Desamparada, cortou o cabelo aos 9 anos para se parecer com um menino. Suas roupas eram largas. Quanto menos mostrasse seu corpo e mais invisível estivesse, melhor. Afinal, na sua mente, era culpada por todo o abuso que sofria. Pouco cuidou de sua aparência e, atualmente, diz ainda ter dificuldades em conseguir se olhar no espelho e gostar do que vê. Mais tarde, o sentimento de repreensão se transformou em ódio e Bianca decidiu reagir. Além dos abusos, a menina apanhou e foi queimada com um cigarro pelo próprio pai. Com 12 anos, os abusos eram mais esporádicos, mas ainda aconteciam.

Beirando a condescendência, sua mãe, com intenção de “proteger o esposo” das acusações, expulsou a menina de casa. Não durou muito. O pai, perverso, a trouxe de volta pra casa e os abusos recomeçaram. A rebeldia da adolescência era mais intensa a cada ano que passava e, aos 15 anos, ela reagiu novamente. Em mais um episódio de abuso, ela gritou e disse que aquele homem nunca mais iria encostar nela. E foi o que aconteceu.

A mãe, conivente com as barbáries, foi uma grande decepção na vida de Bianca. Sozinha, ela decidiu sair de casa. Fazia faxinas e, como ela mesmo ralata, "trabalhava com o que tinha". Com o pouco que ganhava, pagava pensão e encontrou um pouco de alívio na rua. Com 15 anos, começou a beber e entendeu ali que a menina que havia dentro dela havia sumido há muito tempo. “Quem é molestado carrega isso para o resto da vida”, pontua.

Um recomeço

Quatro anos depois de sair de casa, com 19 anos, Bianca achava muito difícil se relacionar com outros meninos. Porém, conheceu um rapaz e acabou engravidando. Revoltado, ele não quis assumir a criança. Desacreditada, mais uma vez, conheceu outro jovem, seu primeiro marido. “Ele assumiu o meu menino”, disse, e, pela primeira vez, um sorriso brincou com sua boca. Durou pouco. “Eu era muito explosiva e, há 13 anos, nos separamos”, justifica, dizendo que seu temperamento não colaborou para que construísse uma família feliz.

Bianca entendeu, no fim do relacionamento, que precisava de ajuda. A dor que sentia não passava em momento algum. Na época, com cerca de 30 anos, fez terapia e tomou remédios. Por três anos, sentiu um alívio, por menor que fosse. “Me ajudou muito. Melhorei como pessoa e mãe. Eu sei que é uma dor para o resto da vida, mas pelo menos hoje eu consigo falar”, desabafa. Há 10 anos, casou novamente. Segundo Bianca, seu esposo a compreende e respeita a sua história, fazendo o possível para vê-la e fazê-la feliz.

A redenção

Seu pai, responsável pelo maior trauma de sua vida, morreu há aproximadamente 10 anos. A partir dali, a verdade começou a vir à tona. Poucos dias depois, em uma conversa informal com sua tia, descobriu que o mesmo homem que tirou sua inocência também havia molestado as próprias irmãs. Chocada com a descoberta, retomou o assunto com a mãe que, mais uma vez, não acreditou na história da menina. “Nós nunca conseguimos restabelecer um vínculo afetivo de mãe e filha. Ela nunca me protegeu e esse amor nunca existiu entre nós”, conta. Aos poucos, a pouca luz que entra na sala humilde de sua casa reflete em seus olhos. Eles estão marejados. Ela desaba.

A morte do pai a deixou revoltada. Depois de ter uma pneumonia, segundo ela, ele morreu sem sentir dor. No começo, Bianca, que na adolescência tinha sede de vingança, queria que ele tivesse sofrido para pagar por tudo o que fez. Apesar da revolta, foi uma das únicas pessoas que cuidou dele no hospital. “Eu nunca fui como ele”. Hoje, relata, encontrou no espiritismo uma forma de amadurecer seu lado espiritual. “Consigo até mandar luz para ele, onde quer que esteja. A conta dele é ele quem vai pagar”.

Bianca conseguiu compreender que o que aconteceu no passado não é sua culpa. Pelo contrário: entende que foi vítima de um crime silencioso e que não teve o apoio que precisava da família. “Só quem sofreu sabe o quanto dói, o quanto incomoda. Hoje, depois de tantos anos, eu ainda me abalo quando falo, mas graças a Deus tenho o livre arbítrio de ser uma pessoa livre, uma pessoa boa, com uma família linda”, conclui.

Antes de lastimar qualquer uma das suas sombrias vivências, pensa nos filhos. “Eu estou livre e só peço a Deus que nunca aconteça nada parecido com meus filhos e qualquer pessoa. Eu tenho a minha casa, meu canto, eu sou feliz e realizada”, complementou. Agora, o sorriso é um símbolo de alívio e não de disfarce.

Infância de duras batalhas

Nascida no interior de Feliz, município com pouco mais de 12 mil habitantes, Marta* teve uma infância radiante, mesmo com todas as necessidades que muitas famílias humildes tinham há quatro décadas no interior. Seu pai sempre foi uma pessoa muito enérgica no que se refere a educação dos filhos. “Mas nos educou muito bem”, diz ela, orgulhosa. Quando lembra, todas as recordações a fazem sorrir. Um sorriso tímido de quem conseguiu superar uma dura batalha na época. Por um momento, seu olhar fica distante e uma lembrança que ela tenta manter afastada da sua mente vem à tona: os dias que antecederam os episódios de abuso sexual.

A casa do seu avô era próxima ao trabalho da família e tinha espaço para acomodar muitas pessoas. Como era um homem bom, conforme Marta relata, ele alojava colegas que vinham de longe para trabalhar. Isso, claro, facilitava o acesso delas ao trabalho. Porém, ao mesmo tempo, abriu a porta para um caminho sombrio. Na época, Marta tinha quatro anos e conheceu as primeiras faces de um abuso. Várias vezes. Por quanto tempo, ela não sabe dimensionar. Talvez dois ou três anos.

Resiliência depois do abuso

Com voz embargada, hoje aos 44 anos, Marta revela o crime. Ela era obrigada a masturbar alguns daqueles homens, que eventualmente tentavam fazer o mesmo com ela. “Eu não tinha escolha. Estava ali, no mesmo ambiente e não havia ninguém que pudesse me proteger e impedir que isso acontecesse. Eu fechava meus olhos e obedecia”, lamenta, ainda assombrada pela cena que jamais se apaga da memória.

Eles, ao contrário, praticavam o ato como se fosse habitual. Os anos passaram. A menina cresceu. Marta jamais compartilhou o trauma com outra pessoa, muito menos com seu pai. Ela justifica alegando os costumes da época. “A gente não tinha essa liberdade em casa como nos dias de hoje, em que podemos conversar com o pai e a mãe”. Com apenas 13 anos, saiu de casa para aliviar a situação financeira da sua família. Adolescente e com uma longa bagagem nas costas, convivia com um sentimento de inferioridade. Teve seu primeiro namorado aos 16 anos. O medo de se relacionar e tudo o que viveu na sua infância ressurgia. Foi violentada sexualmente pelo então parceiro. E pior do que não ter com quem contar, era suportar um sentimento de culpa.

Mesmo com todos os traumas, a capacidade de resiliência de Marta foi tão grande que ela conseguiu colocar em segundo plano as más lembranças. “Eu fazia de conta que não existia. Tentava não pensar no que acontecia, tanto que nunca precisei de terapia. Me considero muito resiliente. Foram histórias horríveis, mas o resto foi maravilhoso. E tem coisas que a gente supera”, simplifica.

Hoje, Marta se considera uma pessoa feliz e realizada. É mãe de duas lindas filhas, das quais cuida com todo zelo possível. “Poupei elas de algumas situações de risco em que elas pudessem estar, fui mais cuidadosa com pessoas e ambientes”, explica. Como mãe, toda a atenção que lhe faltou na infância ela ofereceu em dobro para as suas meninas. À medida que foi construindo uma família, guardou as más lembranças em um canto que não pretende revisitar. Relembrar o passado e conseguir sobrepor os períodos mais felizes da sua infância talvez fosse mais reconfortante, já que, por motivos óbvios, suas memórias jamais serão esquecidas ou modificadas. “Mas podia ter sido pior”, avalia.

Abuso e opressão

Assim como a maioria das crianças e adolescentes vítimas de abuso, Michele* também acreditava ser a culpada por ter sido violentada. No caso dela, a situação era um pouco diferente. Segundo ela, vivia em um submundo de violência, com um irmão diagnosticado com psicopatia. Nascida em Porto Alegre, veio para Novo Hamburgo com seis meses e foi adotada por uma família de classe média. 

Ela praticava esportes e aulas de música. A relação com a mãe sempre foi muito boa, porém, com o pai, classifica como tensa. Diz que a família paterna era extremamente preconceituosa pelo fato da menina ter sido adotada. Sente que nunca a consideraram parte da família. E neste ambiente tumultuado, ela cresceu. Aos 6 anos, começou a ser violentada. Seu irmão, então com apenas 9 anos, já demonstrava manifestações de desejo sexual e brincadeiras do tipo. Apesar da pouca idade, ele oprimia a menina de uma forma exaustiva. Os abusos eram sexuais e psicológicos.

Violência dentro de casa

Segundo Michele, os abusos tinham dia e hora para acontecer. Cerca de três vezes por semana, sempre no início da tarde, quando não havia ninguém em casa - apenas os dois. Ele passava a mão nela e a obrigava a deitar com ele. Depois, fingia que nada havia acontecido. Michele declara que ele foi diagnosticado com psicopatia. Na frente dos outros, segundo ela, o irmão era um anjo e, dentro de casa, um monstro. Por quase sete anos, a menina sofreu os abusos até que foi determinado judicialmente que ele não chegasse mais perto da família. Conforme Michele, ele foi condenado a 40 anos de prisão e é considerado uma pessoa muito perigosa.

Com a morte do pai, aos 18 anos, finalmente os sete anos de abusos foram revelados a sua mãe. Ela entendia, então, que sua mãe não conseguiu lhe dar a atenção necessária na infância por outras questões vividas com seu irmão, tanto pela dependência química como pela doença mental.

Hoje com 30 anos, Michele diz que vivia em um um submundo envolto por diversos conflitos, violência, roubos e perdas. Assim, ela não reconhecia as situações que vivia como abusos. Precisou, desde pequena, fazer terapia e, atualmente, continua buscando atendimentos esporádicos. De início, não conseguia relatar as violações e, mais tarde, estudando sobre o assunto - hoje ela é assistente social - entendeu que os sintomas de síndrome do pânico e depressão na sua vida surgiram por causa do seu silenciamento. “Busquei ajuda e precisei encarar.”

Para ela, se ela não tivesse guardado tantas angústias para si, teria uma outra perspectiva de vida. “O abuso foi o que mais me prejudicou, porém vale afirmar que eu tive uma rede de amigos e pais de amigos que mesmo não sabendo de fato do que estavam acontecendo na época, me acolheram”, disse, sorrindo. Alguns mecanismos ela precisou desenvolver para que conseguisse esquecer algumas coisas. E foi o que fez ao longo dos anos, apesar de entender que o abuso que sofreu deixou uma grande cicatriz no seu coração.

Buscar ajuda é opção, mas nem sempre a única alternativa

As consequências do abuso sexual infantil, com o passar do tempo, ficam mais severas. Além da dor gritante ser um ponto em comum nas histórias, ainda há a coincidência - ou talvez nem tanta - de que nenhuma foi afastada dos abusadores. Pelo contrário: muitas mães foram condescendentes ou não acreditaram em suas filhas. Por causa disso, muitas silenciaram suas dores, o que resultou em complicações severas decorrentes da prática do abuso sexual e que poderiam ter sido minimizadas através de atendimento psicológico.

Buscar ajuda foi uma opção em comum para todas elas, mas nem sempre é a única alternativa. Caminhos para as drogas, a prostituição e a bebida podem ser rumos sem volta. Por isso, o apoio familiar é fundamentalmente imprescindível. Calar não pode ser uma escolha. Quando o papel da família falha, é preciso cobrar a rede de proteção por uma situação a que a criança jamais deveria estar exposta: a violação.

*As vítimas foram apresentadas com nomes fictícios para preservar suas identidades reais.

Confira a primeira matéria da série, que mostra a complexidade dos casos de abuso.

A segunda reportagem mostrou o perfil do abusador.

Nesta quinta-feira, mostramos as falhas na rede de atendimento e as formas de buscar ajuda

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