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Curso busca mudar a realidade de quem não sabe ler nem escrever na região

Por aqui, há mais de 40 mil moradores analfabetos, segundo o Censo de 2010


reportagem e fotos KARINA SGARBI

vídeo EDUARDO CRUZ

A liberdade de poder pegar um ônibus sem pedir ajuda – e sem ser enganado. Ter um emprego melhor, subir de cargo, ler uma história para o neto na cama antes de dormir. Ir ao banco e conseguir sacar o próprio salário, saber o que significam aqueles símbolos nas placas, nos livros, em todo o lugar. O sonho que não teve tempo antes e só agora vira verdade vem carregado de uma importância que, talvez para quem lê estas letras pretas grafadas, aqui no papel de jornal, possa parecer pequeno, simplório. Ledo engano: é tudo imenso, do tamanho do sorriso que se abre quando cada um consegue, de próprio punho, escrever o seu nome numa folha de papel, depois de décadas sem traçar uma única linha que não fosse por meio de outras mãos.

A tarefa fácil para 96,55% dos moradores da região é o grande desejo da vida dos 3,45% restantes, que segundo o Censo de 2010 correspondem aos não alfabetizados. Ainda. Em Igrejinha, nas noites de terça a quinta-feira, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Machado de Assis tem um curso que está mudando essa realidade. A cada dois semestres, se formam lá mais e mais alunos capazes de ler e escrever as suas próprias histórias. Prestes a completar 72 anos – o aniversário é nesta sexta, dia 28 – o aposentado Serafim Silveira Lopes é um dos alunos da turma de alfabetização que ocupa a sala 8. “Eu nunca fui no colégio, trabalhei desde piá na roça. O estudo é tudo na vida de uma pessoa, digo isso para os meus filhos e também para os mais novos. É o nosso dever, dos mais velhos, de aconselhar os jovens”, diz.

O curso é gratuito, equivale ao ensino regular de 1º a 5º ano do nível fundamental, tem duração de 250 horas em dois semestres e, para se inscrever, basta levar um comprovante de residência até a escola. “A maioria dos alunos relata que não teve oportunidade no seu tempo de criança. Alguns se sentem inferiores, acham que não têm o direito de aprender. Mas dar aula para deles é muito gratificante, porque são estudantes que realmente querem ser ensinados”, comenta a professora Larissa Bordon.

A escrita da própria história


Entre idas e vindas, José Cristiano Mota de Mota, 33 anos, garante que agora vai concluir o curso e, finalmente, não depender de mais ninguém para ler ou escrever. Chefe de almoxarifado, foi quase que obrigado pelo seu gerente a retomar os estudos. “Eu sou chefe lá, preciso saber as coisas. Hoje, quando chega um e-mail eu já consigo ler, é difícil às vezes, mas eu consigo. Antes eu sempre tinha que chamar algum dos colegas para ler para mim”, conta.

Pai de três filhos, estudou quando criança somente até a 3ª série, hoje equivalente ao 4º ano. Aos 12 anos, largou a escola e começou a trabalhar. Nunca mais parou, mas agora concilia isso ao curso três noites por semana. “Eu voltei a estudar no ano passado, mas acabei parando. Só que agora, se não estudar, posso perder o emprego. Então voltei esse ano e vou até o final”, relata.

Alessandro, Tales e Saymon, de 17, 13 e três anos, respectivamente, são motivadores na vida de José Cristiano. Os filhos, todos na escola – o menor ainda na creche -, cobram o pai quanto à presença nas aulas. “Para mim é muito difícil não poder acompanhar o estudo deles. Eu não sabia nem ler e às vezes eles pediam ajuda no tema, eu nunca conseguia participar disso”, afirma.

Brincalhão, é ele quem dá o tom animado e divertido da turma da sala oito, sem perder uma única oportunidade de fazer piada com os colegas, tudo de forma saudável. Até mesmo quando ele é o motivo das risadas: “Ai, vou apanhar da esposa porque não falei dela na entrevista”, diz, enquanto ri com os colegas, amigos e igualmente vencedores, que descobrem nas palavras um jeito de escrever, sozinhos, as suas próprias histórias.

Karina Sgarbi/GES-Especial
A turma exibe, orgulhosa, os nomes que escreveram em folhas de papel

Ensino diferenciado

Professora há 21 anos, Larissa trabalha há três com as turmas de alfabetização e pós-alfabetização na escola de Igrejinha. Ela explica que, nestes casos, a perspectiva de aprendizagem é menor, quando comparada à do ensino regular, com as crianças. “O adulto demora mais para aprender. Muitos chegam aqui com uma carga de baixa estima, por toda uma vida sem saber ler ou escrever e tem também o trabalho, alguns vêm cansados, outros acabam faltando quando precisam fazer serão nas fábricas”, comenta.

As dificuldades em sala de aula são as mais variadas. Há alguns que já conseguem identificar as letras e seus sons, outros formam palavras mas acabam esquecendo algumas letras. Mas a maioria só sabe, por enquanto, escrever o próprio nome. A professora utiliza um plano de ensino que contempla todas as áreas de conhecimento, mas que é focado em Português e Matemática. “Nem todos conseguem saber a tonicidade das letras e, mesmo que saibam fazer cálculos de cabeça, na hora de colocar no papel, acabam se perdendo. Eu me sinto muito feliz em ser professora deles. No semestre passado, tive três alunos que foram aprovados nos exames do ensino fundamental. É um orgulho imenso”, destaca.

Analfabetismo em números

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Evasão é problema

Na lista de presença, são 25 alunos que constam como integrantes da turma de alfabetização. Porém, na hora de entrar na sala de aula, é nítida a evasão. Na terça-feira da semana passada, por exemplo, apenas 12 compareceram à aula. No ano passado, eram 29 inscritos mas somente nove terminaram o ano letivo. “Eles vêm com muito medo, vergonha, com a expectativa de descobrir o mundo, fazer carteira de motorista, poder pegar ônibus sozinhos. Mas alguns acabam desistindo, são muitos fatores que influenciam isso”, comenta o coordenador pedagógico do turno da noite da escola, André Luis Conforti. Para integrá-los à comunidade escolar, todos são convidados a participar dos variados eventos promovidos pelo colégio, além de também serem incentivados a chamar amigos para o curso. “Temos muitos alunos que começaram aqui porque algum conhecido indicou, ou mesmo casais que estudam juntos”, relata o coordenador.

Onde estão os 40 mil analfabetos da região


População alfabetizada  X População analfabeta na região

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CLIQUE AQUI para ler a primeira matéria da série, que destaca a boa colocação da educação na região em um ranking nacional, especialmente a cidade de Picada Café.

Nesta quinta-feira: Para além da alfabetização, a conclusão do Ensino Médio também é fundamental para que se tenha mais oportunidades. Conheça a escola que formou, em Novo Hamburgo, mais de 2,3 mil jovens e adultos em 18 anos.

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