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Compreender: nunca é tarde para buscar conhecimento

Cursos da modalidade EJA oferecem de forma mais rápida a conclusão dos ensinos fundamental e médio


reportagem e fotos KARINA SGARBI

vídeo EDUARDO CRUZ

Para a doméstica Loreni Ribas, 53 anos, a palavra mais bonita é “fraternidade”. O colega Daniel Gitz, 40, escolheu “comprometer”, enquanto o empacotador Samuel Atlneter, 16, citou “amizade”. Patrícia Lacerda, 39, acha “sucesso” o verbete de melhor significado. Já para Marisa Cardoso, 71, e Ana Paula Kinast, 34, “família” e “educação” são o que há de mais importante. Alunos do curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Marista São Marcelino Champagnat, de Novo Hamburgo, eles buscam agora a formação que, por uma série de razões, não pôde ser feita no modo regular. Mais do que entender o sentido das palavras, eles compreendem que estudar, ainda que tardiamente se comparados à maioria, é algo fundamental para suas vidas.

Assim ocorre com outros mais de 600 estudantes com idades entre 15 e até mais de 70 anos que buscam na escola o certificado de conclusão dos ensinos fundamental e médio. Com um programa de estudos mais sucinto, eles conseguem, a cada seis meses, encerrar o equivalente a um ano do programa regular. No caso do colégio hamburguense, entre 1998 e o ano passado, 2.395 alunos se formaram no Ensino Médio, no curso oferecido gratuitamente. “Concedemos bolsas de 100% aos alunos do EJA, que são principalmente de Novo Hamburgo, mas também de cidades vizinhas. Aqui, eles podem utilizar toda a estrutura de um colégio particular sem que tenham qualquer custo”, relata a coordenadora pedagógica da instituição, Marisa Ramos Machado.

Na região, conforme o Censo Escolar, em 2015, 16.338 pessoas estavam matriculadas no EJA para os níveis fundamental e médio, o equivalente a 11,7% do total de alunos desta modalidade no Estado. “É uma forma de possibilitar que as pessoas que não estudaram na época certa retomem o aprendizado e ganhem tempo. O mercado é competitivo e exige que a pessoa tenha estudo. Quando se percebe isso, o EJA é procurado como solução”, comenta o diretor do colégio, Antônio Mores.

Quem pode fazer o EJA

Conforme a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul, a modalidade de ensino EJA é destinada a todos aqueles que querem voltar a estudar. Os pré-requisitos são ter no mínimo 15 anos completos para o ensino fundamental e 18 anos completos para o Ensino Médio. As matrículas ocorrem no início do ano, diretamente nas escolas que ofertam a modalidade, tudo de forma gratuita. Para se inscrever, basta levar documento de identidade do responsável ou do aluno maior de 18 anos, RG ou certidão de nascimento do aluno menor de 18 anos, comprovante de residência (conta de água, luz ou telefone) e o comprovante de escolaridade.

Ensino diferenciado


Por contar com a estrutura de uma instituição particular, o curso de EJA no Colégio Marista São Marcelino Champagnat oferece recursos diferentes dos encontrados nas escolas públicas. Problemas comuns, como a falta de professores e o mau estado de conservação das classes, por exemplo, não ocorrem ali. Além disso, cerca de 230 estudantes são transportados para a escola no turno da noite, também sem custo. “Nosso lema é reescrever histórias de vida a partir da escola. Mas mais importante do que passar muitos conteúdos é possibilitar que eles desenvolvam suas habilidades e competências”, afirma Mores.

Karina Sgarbi/GES-Especial
Alunos do EJA estudam no Colégio Marista Marcelino Champagnat

A seleção para as bolsas de estudo ocorre sempre antes do início do semestre letivo. O próximo processo de inscrição será realizado em maio. Desde 1997, passaram pela escola 7.830 estudantes do EJA em nível fundamental e médio. “Aqui recebemos alunos que já têm uma trajetória, em geral trabalham e têm outras cargas além dos estudos. São alunos diferentes, que trazem a sua experiência de vida para a sala de aula”, comenta o professor de História Otávio Forneck. 

"A gente está velho mas não morreu"

Karina Sgarbi/GES-Especial
Dilce Soares de Lima, 62, cursa o 1º ano do Ensino Médio, pelo EJA

Foi quando se viu perdida em meio a tanta informação, a tudo acontecendo tão rápido, que ela resolveu pegar de novo os cadernos, abandonados na 5ª série, há quase cinco décadas. Hoje a industriária aposentada Dilce Soares de Lima, 62, cursa o 1º ano do Ensino Médio, pelo EJA, e no próximo ano vai realizar o sonho de estar formada. “A gente está velho mas não morreu. Já que tem a chance, tem que estudar. Eu perdi muitas oportunidades, por isso que digo para os jovens agarrarem tudo com as duas mãos, porque só mais tarde a gente vê a falta que o estudo faz”, comenta. Moradora do bairro Guarani, ela relata ainda que um dos aprendizados mais marcantes foi conhecer a tabela periódica. “Eu nem sabia que isso existia, eram tantas letras que me assustei quando vi pela primeira vez. Mas agora já conheço tudo”, afirma.

Karina Sgarbi/GES-Especial
O matrizeiro aposentado Daltro Daniel Diogo, 64, conclui o Ensino Médio até o final deste primeiro semestre

Depois de formar os cinco filhos, o matrizeiro aposentado Daltro Daniel Diogo, 64, vê chegar agora a sua vez de concluir os estudos. Ao final do primeiro semestre deste ano, ele terá em mãos o tão sonhado certificado do Ensino Médio. “Eram outros tempos, sou de Gravataí e vim para Novo Hamburgo trabalhar em fábrica de calçado. Acabei largando a escola na 5ª série. Podemos estudar para buscar novas oportunidades e por prazer. Eu estou aqui pelos dois”, diz.

Acompanhe as próximas palavras


Confira as três reportagens restantes da série quatro palavras, clicando sobre elas: APRENDER, ESCREVER e ENSINAR.

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