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A última das "Quatro Palavras", um dos pilares da educação: ensinar

Professor de Geografia há 19 anos, Jéferson Nunes é apaixonado pelo ofício e acumula, mais do que alunos formados, grandes amigos. Com a história dele, o Jornal NH encerra hoje a série Quatro Palavras


reportagem e fotos KARINA SGARBI

vídeo EDUARDO CRUZ

Era 1986, Copa do Mundo. O guri magrelo de oito anos folheava o atlas no intervalo dos jogos. Onde é que fica a Escócia? Em sua casa em Sapucaia do Sul, com o mapa nas mãos, ele acabava de descobrir: o país estava ali, na Europa. Virava a página e buscava então o paradeiro de mais uma das nações que disputavam a competição. Assim, aprendeu a identificar rapidamente não só os territórios, mas também as capitais, os continentes, os povos.

Carregou esse mundo nas mãos por mais alguns anos até que, finalmente, decidiu: iria ser professor de Geografia. Foi assim que Jéferson Nunes, 39 anos, entrou no ofício que segue há quase duas décadas na Escola Técnica Estadual 31 de Janeiro, em Campo Bom. Lá ele assumiu, pela primeira vez, o posto principal em sala de aula, e jamais o deixou. “Eu nunca pensei em largar a minha profissão. Nem salário baixo, parcelado, alunos difíceis, nada me faria deixar de ser professor”, afirma.

Pai do pequeno Valentim, de 1 ano e 5 meses, e casado com a também professora Adriane Cavagnolli, Jéferson acumula amigos entre os alunos. “Se eu sair do Centro e for até outro ponto da cidade, eu vou cumprimentar no mínimo umas 20 pessoas. Eu sou sapucaiense, mas Campo Bom me acolheu e é muito bom ver meus alunos por aí. Me sinto com 1%, 2% de responsabilidade do que eles são hoje”, comenta.

A popularidade do professor é tanta que até se acumulam convites para ser paraninfo das turmas de 3º ano do Ensino Médio na época das formaturas. Há vezes em que apadrinha os alunos das três escolas em que dá aula. Além do 31 de Janeiro, ele também leciona na Escola de Educação Básica Feevale – Escola de Aplicação e no Instituto Rio Branco, em São Leopoldo – estas duas últimas, da rede particular. “O privado me dá um conforto, é a maior parte da minha renda. Mas eu quero me aposentar aqui no 31 de Janeiro, mesmo com todas as dificuldades de uma escola estadual”, destaca.

A história dele se repete em muitas salas de aulas, de todo o país, onde os mestres carregam, mais do que o giz branco e os livros didáticos, a missão e a paixão por ensinar. “O meu aluno tem que sair daqui melhor do que ele entrou. Se eu não puder fazer, se a minha Geografia não ajudar ele, então tem algo errado”, pondera o professor.

O "sôr" vai embora?


A turma 206 do 1º ano do Ensino Médio da escola 31 de Janeiro estranhou a presença da reportagem quando entrou na sala de aula, na segunda-feira da semana passada. E o professor, que não perde nem amigos e nem a piada, aproveitou a chance e fez uma pegadinha com os alunos. “Gurizada, é o seguinte: esse pessoal está aqui porque hoje é o meu último dia e eu não vou mais dar aula para vocês”, brincou. Rapidamente, reclamações tomaram conta do espaço. “Tu é o melhor, 'sôr', não pode ir”, dizia uma aluna, enquanto outro colega questionava: “Nem pensar, não podem fazer isso, quem é que vai ensinar Geografia então?”. A maioria apenas balançava a cabeça em tom de desaprovação e decepção.

Sorrindo, ele revelou a brincadeira, para alívio da turma. Conhecido por ser um professor “diferentão”, Jéferson faz das aulas um grande espetáculo, capaz de deixar em segundo plano o vidro quebrado da janela, a classe enferrujada, o buraco na parede da sala de aula. “Às vezes eu desenho um mapa do Brasil aqui no chão, no meio da sala, para explicar o clima, a vegetação. Todos param e prestam atenção. Tenho também várias figuras em palitinhos que vou colocando num pedaço de isopor durante a explicação de vários temas. Assim consigo prender a atenção deles”, explica.

Muito amor e desvalorização

Talvez um dos maiores requisitos para ser professor, ao menos nos dias de hoje, seja carregar no peito a paixão por ensinar. Ainda mais quando se considera a desvalorização da profissão, com pouca estrutura, baixos salários e ainda o parcelamento dos vencimentos no caso da rede estadual. “Ser professor hoje continua sendo um momento de amor, de paixão. Mas o que atrapalha essa nossa vivência com os alunos são as condições que não são dadas para que possamos desenvolver melhor o trabalho. Não basta pagar pouco, ainda tem que parcelar”, afirma a presidente do Cpers/Sindicato, Helenir Aguiar Schürer.

Jéferson também é crítico do Estado. Em sua opinião, o governo apenas parcela tudo, não paga nada e sempre tem alguma desculpa, desvalorizando o funcionalismo. “O meu sonho é que o Estado seja tão forte quanto o privado. Queria chegar aqui um dia e ter a mesma estrutura que encontro nas escolas particulares em que dou aula, porque o nosso ensino não é valorizado”, comenta.

Educação é parte da solução, não do problema


Em diversos momentos, a educação é citada como responsável pelos altos índices de violência de hoje. Muito se fala que, se estivessem na escola, recebendo ensino adequado, os jovens não penderiam para o crime. A questão é polêmica e, conforme a pedagoga e supervisora escolar do Ensino Fundamental Escola de Educação Básica Feevale – Escola de Aplicação, Aline Silveira de Lima Schnorr, não se pode colocar a responsabilidade apenas na escola. “É uma combinação de fatores que vai levar alguém para o crime. Posso ter uma escola com acesso a tudo, mas não tenho acesso a saúde, transporte, isso limita a minha vida. É uma visão simplista dizer que cabe à educação a solução dos problemas todos”, destaca.

Para a doutora em Sociologia e professora da Feevale Sueli Cabral a educação é uma das instituições responsáveis pela coesão social. “Quando você coloca toda essa responsabilidade numa única instituição, que não recebe nem os apoios necessários para as atividades básicas, é algo muito errado. Os educadores de hoje são grandes heróis, estão quase se afogando, lutando para permanecer com a cabeça fora da água para poder respirar, porque estão lutando contra a maré. A nossa escola talvez não esteja cumprindo sua função, mas não está isolada nisso, também é reflexo de um país desestruturado”, avalia.

Os professores da região

Conforme o Censo Escolar, o Rio Grande do Sul contava, em 2015, com 48.758 professores na rede estadual, 2.469 na federal, 55.591 na municipal e 28.067 na rede particular. Segundo estudo feito pelo Observatório da Realidade e das Políticas Públicas do Vale do Rio dos Sinos (ObservaSinos) no ano passado, a maioria dos professores de 5° e 9° ano da região do Sinos é do sexo feminino.

Tendo como fonte dados da Prova Brasil realizada em 2011, a pesquisa constatou que 89,6% são mulheres e 10,40% são homens. São 2.065 professores na região para estes anos. Além disso, foi constatado pelo ObservaSinos que 55% dos docentes de 5º e 9º anos têm atuação de 40 horas-aula ou mais semanalmente e 14% de mais de 40 horas-aulas semanais. Ou seja, a cada 7, aproximadamente 1 trabalha mais de 40 horas-aula semanais.

Quanto à idade, 35,68% dos professores destas categorias estavam na faixa etária de 30 a 39 anos em 2011, enquanto outros 33,61% na faixa de 40 a 49 anos. Quase 3% tinham até 24 anos e 6,72% tinham 55 anos ou mais. A maioria dos docentes, 56%, trabalha em apenas uma escola, sendo que quase 39% atuam em duas instituições de ensino.

Clique aqui para conferir a primeira, a segunda e a terceira matéria da série. 

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