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A dor que só eu sinto

Causa de uma morte a cada 40 segundos no mundo, o suicídio começa a perder o status de tabu e passa a ser discutido como questão de saúde pública


reportagem KARINA SGARBI E MISAEL LIMA

arte ALAN MACHADO

A primeira vez foi em 2012. Remédios, muitos deles, hospital, mentiras para esconder – foi apenas um comprimido a mais, confusão na hora de tomar. A vida segue, mas é como se não fizesse diferença, continua a doer. Três anos se passam e tudo volta. Mais forte, mas agora nem mesmo as justificativas que já tinham alcançado sucesso anteriormente são capazes de esconder a verdade.

Fica claro como a luz do dia: trata-se de tentativa de suicídio, pela segunda vez. E não há garantia de que isso deixe de se repetir, conforme a escritora de 41 anos, moradora da região, que conta como é a vida de quem não tem vontade de viver. “Quando tu tá mal, não quer encontrar tratamento. Hoje eu estou OK, tomando medicamentos, mas sinto que eu não mereço mais estar viva”, relata.

Conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é responsável por uma morte a cada 40 segundos no mundo. No Brasil, em 2013, esta foi a causa de 69.783 óbitos, sendo 3.850 deles no Estado. O tema é tabu na sociedade, na mídia, nas escolas, nas famílias, e ganhou espaço desde o início do mês, com a série 13 Reasons Why, da Netflix, e com o jogo Blue Whale, ou Baleia Azul, que desafia jovens a cumprirem tarefas, sendo que a última delas é tirar a própria vida.

“Não digo que a série foi perfeita ao abordar o assunto, mas isso não exclui o impacto que iniciou uma boa discussão sobre suicídio. Ela trouxe luz ao assunto e isso sim é importante”, afirma a psicóloga Éllen Martins, que trabalha com a prevenção de suicídio. O vazio, a dor, um sofrimento sem fim que nem mesmo quem sente consegue explicar. Para quem sobreviveu a duas tentativas, nem sempre há uma razão que motive o suicídio. “Quando eu tentei, as duas vezes, nunca deixei carta porque achava que não precisava, porque eu não tinha uma razão para fazer aquilo. Era porque eu não queria mais existir e eu não tinha que explicar isso a alguém”, conta a escritora. Diagnosticada com depressão desde 2009, ela relata que há dias em que não passa uma hora sem que pense no assunto, já que, como escreveu num de seus livros, “a infelicidade não tem cura”. “Tu não querer viver não é o mesmo que querer morrer. Não é algo fácil chegar e dizer que vou acabar com a minha vida. Cada um carrega o seu sofrimento”, afirma.

Ouça o podcast gravado pelos repórteres Karina Sgarbi e Misael Lima:

Que série e que jogo são esses?

Lançada em 31 de março pela Netflix, a produção 13 Reasons Why é baseada em um livro de mesmo nome. Na história, o adolescente Clay Jensen volta da escola e encontra uma caixa com fitas gravadas pela amiga Hannah Baker, que cometeu suicídio duas semanas antes. Nas gravações ela explica as 13 razões pelas quais decidiu tirar a própria vida. Blue Whale ou Baleia Azul é um suposto jogo do qual se tem pouca informação ainda. Teria surgido na Rússia, com 50 desafios repassados em grupos do Facebook e WhatsApp, onde o último consiste em se jogar de um prédio. Em todo o mundo, diversos casos – tanto de suicídio quanto de tentativas – estão sendo investigados por possível relação com o desafio, mas ainda não há confirmações.

Mestre em disfarce


Nem sempre a dor é aparente. “A gente se torna mestre em disfarce, porque na verdade quando as pessoas perguntam se tá tudo bem, elas não querem saber se tá bem ou não realmente”, comenta a escritora. Seu diagnóstico foi feito ao consultar um psiquiatra antes de uma cirurgia. “Começa por aí, tu nem sabe que tem a doença. A pessoa com depressão tem momentos bons, momentos felizes, mas na maior parte do tempo é uma angústia, um sofrimento que não dá pra explicar”, relata. A primeira tentativa de tirar a vida ocorreu em 2012. “Quando eu tentei, não deu certo, eu me apavorei e fui para o médico. Disse para a minha mãe que tinha tomado medicamento para dor, uma dose a mais, e ela não soube que era uma tentativa de suicídio”, conta.

Depois disso, no mesmo ano, ela foi ficou internada em uma clínica por 29 dias, recebendo atenção adequada e cumprindo o tratamento. Em 2015, houve nova tentativa, desta vez no trabalho. “O sentimento que eu tinha era de desesperança, de que nada ia melhorar e que, se é pra ser assim, não tem razão continuar aqui.”

Ela chegou a ser xingada por um psiquiatra durante o atendimento. “Ele perguntou por que eu não tinha me jogado de um prédio, se queria morrer”, lembra. Hoje, mesmo recebendo ajuda, sente a questão do suicídio presente, mas afirma que poder compartilhar o que sente tem trazido um alívio. “Eu vejo que hoje eu consigo falar muito sobre isso, porque percebi que quando começo a falar e a pessoa ouve sem julgar, eu me sinto amparada”, diz.

"O sofrimento é muito particular"


Mediadora do grupo de estudos sobre Suicídio do Núcleo de Atendimento Psicológico (NAP), que começará as atividades em 31 de maio, a psicóloga Janete Maria Ritter destaca que os sinais que indicam a tendência ao suicídio variam de pessoa para pessoa. “A manifestação do sofrimento é muito particular. Pode-se observar se há mudança de comportamento muito brusca, isso independente da idade. Quando tem alguém que muda o comportamento muito bruscamente é um sinal de alerta”, comenta.

Ela destaca ainda que essa dor pode não ter uma explicação. “Acho que é preciso falar cada vez mais sobre suicídio. Se eu percebo que alguém falou, numa roda de amigos, que não tem vontade de viver, por exemplo, é importante perguntar o que quer dizer com isso. Não perguntamos porque não queremos saber a resposta. E isso tem que ser feito num tom de ouvir, não de julgar, e com interesse”, orienta.

A psicóloga Éllen Martins critica o tabu que envolve o tema. “O mito mais comum é de que falar de suicídio induz ao suicídio, o que não é verdade. Quanto mais informação houver sobre os meios de prevenção, mais pessoas podem ser ajudadas”, afirma.

Uma capivara para enfrentar a baleia

Com o rápido crescimento dos desafios da Baleia Azul, o blog Capinaremos criou um desafio para valorizar a vida. O grupo Capivara Amarela no Facebook, criado pelo gaúcho Sandro Sanfelice, já reúne mais de 5 mil pessoas com desafios e curadores que auxiliam aqueles que sofrem com males como depressão e ansiedade e que já cogitaram a possibilidade de tirar a própria vida. “Ela é basicamente o oposto da Baleia Azul, um jogo do bem, também composto por 50 desafios diários, mas com o objetivo de fazer com que a pessoa tenha outra perspectiva da vida. Temos desafios iniciais dentro da zona de conforto do participante, os intermediários que buscam criar laços sociais com outras pessoas, como passeios e jantares e os finais, que são de introspecção e empatia com o outro, ver que o mundo é um coletivo”, comenta. Ele afirma que o grupo tem o apoio de profissionais da área e se utiliza de materiais do CVV, e que, de forma alguma, substitui a busca por um profissional especializado. “O curador não trata ninguém, ele está mais para um ombro amigo, alguém para ser empático”, explica. “Atualmente, já temos mais de 500 curadores cadastrados. E cerca de 700 desafiantes. Com a ajuda de profissionais da área, elegemos 100 desafios ‘oficiais’”, detalha.

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