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Títulos Catástrofe: o mercado financeiro e as mudanças climáticas

Investidores acompanham a previsão do tempo no mundo em vez da evolução das bolsas de valores

MARTIN BUREAU/AFP
Foto mostra destruição na ilha francesa de Grand-Case, no Caribe

Nos últimos três meses, a natureza rebelou-se.

Os números são todos elevadíssimos e sem precedentes. O furacão Irma foi o mais forte furacão jamais registrado, 295 Km por hora durante 33 horas seguidas, causou a destruição de 90% da infraestrutura na ilha de Saint-Martin e fez estragos enormes em outras ilhas do Caribe, em Cuba e na Flórida (EUA).

Algumas semanas antes, o furacão Harvey causou estragos históricos no Texas (EUA). E, no México, um terremoto de 8,2 pontos na escala Richter, o mais forte do ultimo século, causou a morte de quase cem pessoas. E as fatalidades não param por aí.

Durante os meses de julho e agosto, monções fortíssimas inundaram mais de um terço do território total do Bangladesh e causaram a morte de 1400 pessoas no sudeste da Ásia e na Índia. No Níger, em junho e julho, chuvas com uma intensidade jamais vista (o país é propício às secas) inundaram as principais cidades, obrigando milhares de pessoas a deixar suas casas. No Canadá, em maio, mais de 90 mil pessoas foram evacuadas em Fort McMurray, cidade completamente destruída por um incêndio florestal que queimou 10 mil hectares.

Cientistas concordam em dizer que fenômenos meteorológicos extremos sempre existiram, mas que as mudanças climáticas acentuam a quantidade e a intensidade dos mesmos.

Segundo o Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres (CRED), ligado à Universidade Católica de Louvain (Bélgica), o número de catástrofes naturais ocorridas entre 2005 e 2014 foi quatro vezes maior do que entre o período entre 1970 e 1979.

Com tamanho nível de destruição, os custos de evacuação, socorro e reconstrução das regiões atingidas alcançam níveis recordes.

Segundo o Swiss Re Institute, empresa privada especializada em investimentos climáticos, o custo total do furacão Harvey (seguro + perdas econômicas) está calculado em torno de 100 bilhões de dólares.

E a Caisse Centrale de Reassurance (CCR-França), banco estatal especializado em resseguro, estima que o prejuízo com seguro nas ilhas francêsas do Caribe – Saint-Martin e Saint-Barthélemy, será de 1,2 bilhões de euro.

“Irma é a catástrofe natural mais cara da história da França”, afirma Laurent Montador, diretor geral adjunto da CCR. Segundo ele, apenas 40% dos estragos em Saint-Martin e 60% dos estragos em Saint-Barthélemy estavam cobertos por um seguro contra catástrofes naturais, o que significa que o prejuízo real será muito mais elevado.

Quem vai pagar a conta?

Até os anos 1990, quem pagava a conta dos estragos provocados pelas catástrofes naturais eram exclusivamente os Estados e as companhias de seguro. Mas com a falência de centenas de companhias de seguro americanas após a passagem do furacão Andrew, na Flórida, em 1992, causando 46 bilhões de dólares de perdas, surgiu a ideia de transformar contratos de seguro e resseguro em títulos financeiros, os chamados "catastrophes bonds" (títulos catástrofe), ou "cat bonds".

Os cat bonds são contratos de seguro transformados em títulos da bolsa. O emissor, (uma companhia de seguro, de resseguro ou mesmo um Estado) cria uma estrutura jurídica que vende os títulos e investe o ganho desta venda em produtos financeiros de baixo risco, pagando aos investidores uma taxa de juros.

Tratando-se de uma operação de risco elevado, pois o cálculo de probabilidade ligado aos fenômenos naturais em um determinado período contém um fator de imprevisibilidade, os juros pagos são elevadíssimos.

O investidor por outro lado, aposta que nenhuma catástrofe natural acontecerá em um determinado local e período. Se a catástrofe acontece, ele perde todo o seu investimento, capital e juros.

Segundo Reporterre.net, jornal especializado no meio-ambiente, além da remuneração em juros altos, o que atrai os investidores em cat bonds é a possibilidade de diversificar o portfolio : o investidor compra títulos cuja evolução está desconectada dos altos e baixos da economia mundial, do CAC40 ou do Dow Jones por exemplo.

Para seguir a evolução do seu investimento, o investidor acompanha de perto a previsão do tempo no mundo todo, ao invés de acompanhar a evolução das bolsas de valores. « Trata-se de especulação climática », estima o jornalista do Reporterre.net.

O que não impede o negócio de prosperar. Segundo Artemis, empresa especializada em produtos de seguro climático, mais de 10 bilhões de dólares de cat bonds foram emitidos este ano, dez vezes mais do que há 20 anos atrás.

E se até o início dos anos 2000 grande parte deste tipo de títulos eram emitidos pelo setor privado, com o aumento da dívida pública, os Estados também começaram a lançar mão desta solução.

A começar pelo Banco Mundial. Em junho de 2014, o BIRD – Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, ligado ao Banco Mundial, anunciava a criação de seu primeiro Cat Bond, destinado a cobrir os riscos de terremoto e de tempestades tropicais em 16 países do Caribe. E em agosto deste ano, o Banco Mundial gerou títulos catástrofe no valor de 360 milhões de dólares em favor do México.

Se o Banco Mundial parece poder prever catástrofes, resta saber qual será a reação do mercado financeiro, que deverá financiar as perdas elevadíssimas ligadas às catástrofes naturais dos últimos meses, especulando sobre as catástrofes futuras.





Mais Mundo

por Daniela Barrier
daniela.barrier@gmail.com

Daniela Barrier nasceu em 1969 em Porto Alegre e mudou-se para Novo Hamburgo alguns meses depois. Iniciou sua vida profissional enquanto repórter na Revista Lançamentos, do Grupo Editorial Sinos. Estudou Jornalismo na Unisinos. Fez Mestrado em Ciência Politica na Sorbonne. Morou em Londres, onde lavou pratos. Em Hong Kong, onde trabalhou com exportação e foi produtora de televisão. Em Paris, onde estudou, se casou, teve o primeiro filho. Em Genebra, onde trabalhou na ONU e teve uma filha. No Rio de Janeiro, onde contribuiu para varias ONGs e teve uma terceira filha. Em Paris novamente, onde estudou e trabalhou como mediadora de conflitos. Mora atualmente em Estocolmo, onde escreve. E certamente não vai parar por ai!

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