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#Me too na Suécia: um movimento histórico

Campeã mundial no ranking da igualdade homens-mulheres, a Suécia vive uma verdadeira convulsão social em torno do movimento hashtag #Me too.
06/12/2017 11:19 06/12/2017 11:44

Desde que o movimento hashtag #Me too levou mulheres do mundo todo a denunciarem agressões sexuais sofridas no trabalho*, a Suécia vive uma verdadeira convulsão social. Alguns comparam a amplitude das denúncias ao movimento que levou à obtenção do direito de voto para mulheres no país, em 1919.

Tudo começou há três semanas, quando 450 atrizes (número que vem aumentando desde então), denunciaram em uma carta publicada no jornal Svenska Dagbladet ”a cultura do silêncio” nos bastidores de televisão e de teatros do país, onde segundo elas, as agressões e o assédio sexuais são calados. ”Nós sabemos quem vocês são” ameaçavam elas na carta.

Desde então, 690 cantoras líricas, 5965 juristas e advogadas, 1993 mulheres trabalhando na indústria da música, 1300 políticas mulheres, 4000 jornalistas, 4000 atletas, 8000 estudantes, e muitas, muitas outras professionais, denunciaram em cartas abertas os assédios e as agressões sexuais que elas sofreram no ambiente de trabalho. E o número continua a crescer todos os dias.

Na semana passada, mais de 1300 mulheres que trabalham para a igreja luterana da Suécia (igreja majoritária no país), denunciaram em carta aberta as agressões cometidas ”por pastores e fiéis”. ”A vergonha deve ficar lá onde é o seu lugar, ou seja, do lado deles. Não somos nós que devemos carregá-la”, desabafavam elas.


Este tsunami de denúncias não tem caído em orelhas surdas. Uma onda massiva de expurgos nos escalões mais altos do poder vem fazendo um arrastão no meio político, das empresas e das artes.


Homens ocupando cargos proeminentes foram demitidos, processos estão sendo abertos todos os dias. Personalidades como o porta-voz do Partido Verde (que faz parte do atual governo), acusado de abusos sexuais cometidos nos últimos dez anos; ou Fredik Virtanen, jornalista conhecido em todo o país; ou ainda Martin Timell, apresentador de televisão (que nega as acusações). Todos demitidos. Um inquérito no seio de 40 grandes empresas acaba de ser aberto pelo mediador da República.


Nem a Academia sueca de letras, cujos membros são responsáveis pela escolha do prêmio Nobel de Literatura, escapou intacta. Na última semana, todos os jornais relatam os detalhes funestos de um escândalo denunciado por 18 mulheres.

Elas acusam de estupro, abuso e assédio sexual um homem (cujo nome não foi publicado, mas que o país todo parece conhecer) próximo dos membros da Academia de Letras e detentor de um vínculo financeiro com a mesma (a instituição financia seu café literário). O tal homem teria utilizado sua influência no mundo literário para chantagear mulheres para que mantenham o silêncio.

Segundo um comunicado oficial da Academia, além destas 18 mulheres, ”membros femininos da Academia, esposas de membros, filhas de membros e funcionárias da instituição foram sujeitas a uma intimidade não desejada e objeto de tratamento inapropriado por parte deste mesmo homem”.


Como explicar que o #Me too teve tal repercussão em um país como a Suécia, número um mundial no ranking da igualdade homens-mulheres?

Segundo especialistas, é justamente porque as mulheres suecas sabem que os seus direitos serão garantidos que elas ousam denunciar as agressões. Prova disto é que a Suécia é o país europeu com o maior número de denúncias de estupro.


No entanto, o número de condenações resultantes destas denúncias é ainda muito baixo. Segundo Ida Ostensson, fundadora da ONG Make Equal, entrevistada pelo jornal Le Monde, o sucesso do movimento # Me too na Suécia está ligado a uma frustração das mulheres com os Tribunais, ”que tem uma dificuldade enorme de julgar este tipo de caso”.


Em 2010, quando Julian Assange, o sueco fundador da Wikileaks, foi acusado de estupro e assédio sexual durante uma visita à Estocolmo, ele protestou dizendo que a Suécia é “a Arábia Saudita do feminismo”. No entanto, a acusação foi arquivada e não resultou em condenação.


Domingo passado, durante uma passeata do movimento # Me too na Praça Sergel, no centro de Estocolmo, que reuniu 1500 pessoas, sa Regnér, ministra para a igualdade de gêneros, anunciou que o governo deve propor ainda antes do Natal uma legislação mais restritiva sobre o ”consentimento sexual”.


Críticos deste novo projeto de lei alertam para a dificuldade de elaborar tal lei sem obrigar todo e qualquer casal prestes a ter uma relação sexual a dar seu consentimento verbal e explícito antecipadamente. Segundo eles, uma lei assim poderia ter como efeito colateral a criminalização de toda relação sexual praticada espontaneamente, sem acordo verbal.

Seria este o preço a pagar para que as relações entre homens e mulheres sejam mais equilibradas e respeitosas? Julgando pela aclamação da proposta de sa Regnér domingo passado, as mulheres suecas parecem dispostas a pagá-lo.

*Em outubro passado, dez dias depois que o jornal americano The New York Times tornou públicas as acusações de abuso sexual contra o produtor de cinema Harvey Weinstein, a atriz de Holywood Alyssa Milano escreveu no seu tweet: « se você foi agredida sexualmente, responda a este tweet dizendo: eu também (# Me too) ». Em poucas horas, a mensagem recebeu 37000 respostas. Um dia mais tarde, 12 milhões de mulheres no mundo todo haviam respondido. O movimento Me too (sem o #) no entanto, não foi criado por Milano, mas por Tarana Burka, uma militante afro-americana em Nova Iorque que, em 2006, fez um apelo similar ao de Milano junto à mulheres afro-americanas da sua cidade.



Jornal NH

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por Daniela Barrier
daniela.barrier@gmail.com

Daniela Barrier nasceu em 1969 em Porto Alegre e mudou-se para Novo Hamburgo alguns meses depois. Iniciou sua vida profissional enquanto repórter na Revista Lançamentos, do Grupo Editorial Sinos. Estudou Jornalismo na Unisinos. Fez Mestrado em Ciência Politica na Sorbonne. Morou em Londres, onde lavou pratos. Em Hong Kong, onde trabalhou com exportação e foi produtora de televisão. Em Paris, onde estudou, se casou, teve o primeiro filho. Em Genebra, onde trabalhou na ONU e teve uma filha. No Rio de Janeiro, onde contribuiu para varias ONGs e teve uma terceira filha. Em Paris novamente, onde estudou e trabalhou como mediadora de conflitos. Mora atualmente em Estocolmo, onde escreve. E certamente não vai parar por ai!

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