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Modos de ser e estar

Compassos da vida

Após um período de férias merecidas, retorno ao compasso (ou seria descompasso?) do mundo..

Após um período de férias merecidas, retorno ao compasso (ou seria descompasso?) do mundo. Mas isto sempre leva um tempo, às vezes maior do que gostaria ou precisaria. No princípio, se desconectar da aceleração e das angústias cotidianas tem a duração da possibilidade de ir relaxando e se permitindo viajar por lugares, ideias, mudanças ou diferenças. No final, quando tudo já se ajeitou, tal como as melancias, as novas alterações fazem com que o arranque para ligar o motor possa demorar um pouco mais novamente. Com o carro que ficou na garagem é assim. Com a gente também. Só que não ficamos parados necessariamente. Vivemos e alteramos as rotinas, modificamos hábitos, paisagens geográficas e existenciais.
Dançamos com o tempo que nos sacode ora impedindo, ora permitindo que reparemos no que se passa conosco e ao nosso redor. Estar atento a estes movimentos do corpo, dos pensamentos, dos cenários e dos horizontes amarra com mais sentido tudo o que se vive nesta contemporaneidade líquida que costuma escorrer entre os dedos.
Quando as férias iniciam ou terminam a velocidade para sintonizar os ritmos, os balanços, a pulsação do corpo se altera. Permitir-se a desacomodação destes câmbios faz bem à saúde física e mental. Pode ter certeza! Conseguir alterar a cadência dos dias, acelerando (sempre com muita prudência) ou reduzindo a marcha traz um vigor necessário à plasticidade da vida. Se mexer, se modificar, outrar-se, pode fazer com que os modos de ser, de sentir e de se comportar sejam revigorados, tonificando e fortalecendo os bailados que escolhemos realizar.
Dançar diferentes músicas promove um corpo flexível o suficiente para os desafios atuais em que nos permitimos muito pouco reduzir a carga de trabalho e compromissos para usufruir do que conquistamos com sabedoria, sensibilidade e poesia.

Resistir e não desistir

Falo de uma exaustão que beira o esgotamento. E de uma condição que pode sim, sugerir uma fragilidade (que difere da fraqueza) interessante e imprescindível. Uma possibilidade talvez, da vulnerabilidade se transformar em suavidade, em delicadeza ou em um outro regime de forças..

Não há quem não esteja cansado nesta época do ano. Principalmente neste 2017, tão avassalador, tão tirano, tão degradante. Desestrutura-dor, este ano ficará registrado como um dos desafios de sobrevivência da população mundial, não somente a brasileira. Talvez um pouco mais do que alguns outros períodos, este calendário que daqui a pouco será colocado no lixo de uma vez por todas (ou quem sabe a ser reciclado?) vai ficar marcado em nossos corpos como a cicatriz de uma ferida ainda aberta e que talvez demore ainda para fechar.
Mas o que fazer a respeito? Resistir e não desistir é imprescindível. E ter saúde para isto não é necessariamente não adoecer, mas tolerar, digerir. Quem sabe reagir? Sem se empanturrar ou sufocar, criar e estabelecer critérios para uma ética de vida podem fazer muita diferença. Permite inventar uma possibilidade de outros modos de viver mais fortalecidos e menos tristes e enfraquecidos. Tal como escreveu Kafka, com alguns de seus personagens instigantes por demais, é uma recusa a gorda saúde dominante, ao empanturramento, a plenitude incansável e inalcançável. Aquela famosa felicidade absoluta que engorda a cada novo comportamento vendido e consumido e que nunca fragiliza como uma outra forma de invenção de novas estratégias, novos jeitos ou, quem sabe, gestos.
Falo de uma exaustão que beira o esgotamento. E de uma condição que pode sim, sugerir uma fragilidade (que difere da fraqueza) interessante e imprescindível. Uma possibilidade talvez, da vulnerabilidade se transformar em suavidade, em delicadeza ou em um outro regime de forças. Como nos remete Kafka, no que para ele é a condição mesma da literatura e onde a vida reside e resiste: no seu estado mais embrionário. Quem sabe, mais potente. É através de um certo esvaziamento que a vida e os sujeitos podem ser menos categóricos e mais sensíveis ou artistas.

Mortos e vivos

Busco compreender o que em mim está morto e qual parte vive. E assim, tento não esquecer que a vida precisa ser vivida a cada dia e que a morte lembra isto o tempo todo..

É no dia de finados que escrevo, enquanto penso nos meus que já morreram. Procuro entender se eles estão mais mortos ou mais vivos ou o quanto vivem em mim. Pretendo perceber, também, o quanto eu já morri ou quantas vezes senti a morte apagando um bocado de vida que não voltou mais. Ao menos, não daquele jeito, não daquele modo. Busco compreender o que em mim está morto e qual parte vive. E assim, tento não esquecer que a vida precisa ser vivida a cada dia e que a morte lembra isto o tempo todo.
A vida é passível de pequenas (ou grandes) mortes durante sua jornada no mundo. Quando penso na morte é automático, penso na vida. A morte é tão difícil de ser vivida, de ser pensada, de ser imaginada que cada vez mais ela é jogada para longe em uma tentativa de fugir de tanto assombro e fazer de tudo para ficar distante dela. Assim, é esquecido que morre-se muitas vezes durante a vida e aprender a renascer é realizar o próprio parto para não seguir abreviado ou com o fim antecipado. O viver é finito, mas ilimitado. E terminar é preciso. Assim como navegar.
Morei por um tempo, ao lado de uma funerária e essa experiência, que fez muitas pessoas torcerem o nariz quando dava o ponto de referência para me visitarem, lembrou-me todos os dias, durante alguns anos, que a vida é breve, é incerta, pode ser injusta, cruel ou dolorosa. Porém, como diz Adélia Prado “a graça da morte, seu desastrado encanto, é por causa da vida”. Viver é reviver, é se reinventar. E a morte pode ser, talvez, nosso maior acontecimento. Para isto é preciso estar à altura dela. E é vivendo uma vida bem vivida, não necessariamente sempre acertada, que será possível realizar uma experiência que, ao final, passa-se o bastão para que se continue a acreditar que viver é incrível.

Já fez seu pedido?

Lembra do gênio da lâmpada e da possibilidade dele realizar desejos?.

Foi nas conversas, eu prefiro chamar assim, ou nas palestras do escritor Márcio Vassallo, quando ele esteve em Novo Hamburgo no mês passado, que uma das suas provocações me fisgou e me deixou no contrapé desde então. Sabe quando, ao caminhar, uma pedrinha entra no sapato e a gente fica assim meio aos tropeços? Pois é, foi parecido. Isso não foi ruim e não deixa de ser um modo de seguir em frente quando se questiona com intensidade as certezas tão bem instaladas dentro e fora da gente. É uma maneira que permite compor com os vacilos da vida e que suscita questionamentos interessantes para produzir novas maneiras de pensar, de se pensar. Ali onde o sapato calça bem, onde está confortável é que a pedra acha um lugar que desassossega. Eita pedrinha danada que desafia a vida, o vivente e seus movimentos. Pode-se dizer que é um jeito dançante, para ser mais elegante, de seguir a vida. Fiquei pensando que talvez Vassallo, carioca que é, repara nos trejeitos do seu povo que samba muito no sobe e desce das favelas para garantir a sobrevivência. Só com esta plasticidade toda, corporal e subjetiva, é possível resistir e continuar vivendo.
Foi quando o autor contou sua história da lâmpada, aquela do gênio mesmo, numa narrativa divertida e impactante como tudo aquilo que nos surpreende e encanta no ordinário da vida. E acaba se transformando em extraordinário, em poesia. Vassallo sugeriu: quais são os desejos que você quer pedir ao gênio? Já fez sua lista de pedidos? Pode parecer simples, mas não é. Um tanto embargada, resolvi me lançar a pensar e experimentar quais seriam os meus, aqueles realmente mais vigorosos. E num silêncio que muito fala, grande parte da plateia riu com certo desconforto de quem sentiu a pua pegar. Como uma flecha que acerta o alvo, a interrogação do artista provocou tanto que segue ressoando no meu cotidiano e, como me contaram, no de quem se dispôs a ouvi-lo verdadeiramente.

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