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Sétima das Artes

Crítica: Liga da Justiça

Problemas na produção e medo de arriscar levam a filme divertido, porém esquecível.

Liga da Justiça O aguardado filme da Liga da Justiça teve uma produção conturbada. Além da desconfiança, levando em conta alguns filmes deste universo DC no cinema (Batman Vs. Superman e Esquadrão Suicida), Liga da Justiça ainda teve uma traumática troca de diretores. Zack Snyder, o comandante original, saiu ao final das filmagens por conta de uma tragédia familiar. O substituto, Joss Whedon, dirigiu algumas refilmagens, reestruturou o roteiro (único crédito que ele recebeu) e coordenou a finalização.    

Quando isso ocorre, é comum ver os problemas na tela. Acabou sendo o caso: Liga da Justiça é um filme divertido, que entretêm sem aborrecer seu espectador. Porém, é raso e esquecível. Não é um defeito; mas para uma união tão esperada de heróis, talvez seja pouco.

O medo de que acontecesse uma má recepção talvez tenha influenciado muito, também. É um orçamento colossal e parece que existe uma vontade geral perpassando a película de fazer algo bem palatável. Há muitas cenas de ação para distrair o público, por exemplo. Mas o vilão Lobo da Estepe é genérico e raramente ameaçador. O que não deixa de ser curioso, porque os quadrinhos da DC são exatamente conhecidos pela sua magnífica carta de antagonistas. 

A força do filme acaba residindo nos seus personagens principais. Não só a construção individual de cada um dos heróis, mas as interações criadas entre eles. Há sempre alguma cena em dupla para estabelecer vínculos e diferenças: Mulher-Maravilha com Ciborgue, Ciborgue com Flash, Flash com Batman, Batman com Aquaman. As cenas de ação (especialmente a final) mostra o trabalho de equipe funcionando muito bem.

Se pensarmos que Snyder é um diretor de ação esteta (como vemos em seu trabalho em 300 ou Watchmen) e Whedon como um fã de quadrinhos muito afeito às relações de personagens (como visto em Vingadores), é possível notar as diferentes mãos de um e de outro. O filme tem uma unidade visual, claro; mas são notáveis as cenas que Whedon acrescentou à trama. Há um pequeno monólogo de Aquaman no início do terceiro ato, por exemplo, que só pode ter sido feito por ele. 

Os atores estão todos bem abraçados aos seus personagens. Gal Gadot não precisa provar mais que entendeu a Mulher-Maravilha como ninguém; Ben Affleck como Batman, idem. Os demais fazem bem suas estreias (gostei da gravidade com que Ray Fischer faz o Ciborgue). 

Mas essa leveza, mesmo com cenas de ação bem feitas, não levam ao sentimento épico que um filme da Liga deveria ter. É a união dos heróis mais famosos do que podemos chamar de "mitologia moderna". É divertido, mas não consegue ser eletrizante. É bacana, mas nada dele marca o espectador.

O mais próximo de um sentimento épico é um plano das legiões das amazonas cavalgando (parece que virou regra: cenas com as amazonas estão sempre entre as melhores), e o tenso momento em que surge um herói que todos esperam. 

Liga da Justiça tem ainda uma cena no meio dos créditos e uma ao final. Essa última indica talvez um caminho novo que não aquele ensaiado anteriormente neste universo. 

Para quem é fã, há muitos easter eggs. Há dois na trilha sonora: em momentos muito sutis, ouvimos o tema clássico do Batman de 1989 e do Superman de 1978. Fiquem ligados. 

Curta Pelos Velhos Tempos é rodado em São Leopoldo

Sexto filme do diretor Ulisses Da Motta é uma experiência de linguagem.

Pelos Velhos TemposEstá sendo rodado em São Leopoldo o curta-metragem Pelos Velhos Tempos, novo trabalho do cineasta radicado na cidade Ulisses Da Motta. As filmagens aconteceram no último domingo, dia 10. A locação escolhida foi o Funny Feelings Cupcake Rock Café. 

O curta, que tem roteiro de Roger Monteiro, conta a história de dois bandidos conversando em um bar após um assalto que dá errado. A proposta é nunca mostrar o rosto dos personagens, mas contar a história através dos detalhes do cenário e da ação. No elenco estão Leandro Lefa e o músico Maia D'Oxum, em sua estreia como ator. 

É o sexto curta dirigido por Ulisses, e o quinto a ter São Leopoldo como cenário. Anteriormente, O Gritador (2006), Kassandra (2013) e Luz Natural (2015) tiveram algumas cenas feitas na cidade. Já mais recente Venatio (2016) foi inteiramente rodado no município, assim como Pelos Velhos Tempos. A estreia está prevista para o ano que vem.  

Ficha Técnica: 

Direção: Ulisses Da Motta
Roteiro e Codireção: Roger Monteiro
Produção: Freddy Paz
Fotografia: Tiemy Saito
Direção de Arte: Gianna Soccol
Música: Chico Pereira 
Som Direto: Raysa Fisch
Elenco: Maia D'Oxum, Leandro Lefa, Fabiano Chaves

O sucesso de Mulher-Maravilha

Filme da heroína quebra tabus com sua arrecadação surpreendente.

Mulher MaravilhaRecentemente, Mulher-Maravilha ultrapassou a marca de US$ 813 milhões nas bilheterias mundiais. É um marco por ser a maior arrecadação de um filme dirigido por uma mulher -- no caso, Patty Jenkins. Põe abaixo o tabu de que, para ser rentável, um blockbuster precisa ser dirigido por um homem. 

A maior parte do sucesso deste que é o quarto título do universo DC (chamado oficialmente de DC Extended Universe, ou DCEU) vem dos Estados Unidos. Lá, o filme bateu diversas marcas e sua bilheteria está hoje em US$ 409 milhões. É a maior entre filmes de origem de super-heróis de todos os tempos (posto ocupado até então pelo primeiro Homem-Aranha), por exemplo. Está na 14a semana de exibição e não quer saber de sair do Top 15 semanal. 

Para a crítica de cinema e jornalista Júlia Manzano, a importância desse sucesso reside numa maior representatividade das mulheres nas telas. "Ver que mulheres são fortes, que mulheres sabem lutar, que mulheres enfrentam os vilões sozinhas - papel que era sempre reservado aos homens - abre diversas portas no imaginário das pessoas", argumenta. "A imagem do corpo feminino era sempre objetificada como algo ora desejável, ora proibido, ora ignorado. Já em Mulher-Maravilha nós vemos que o corpo dela é uma arma. A ideia de empoderamento através da luta é maravilhosa". 

É o que pensa também a cineasta Cíntia Domit Bittar, uma das mais respeitadas da nova geração de realizadores da Região Sul. "A importância cultural de se ter mulheres em blockbusters se dá devido à grande inserção que esses filmes têm em vários e distintos mercados, chegando a garotinhas de vários lugares do mundo que, de repente, podem se enxergar no lugar da Mulher-Maravilha, podem ter uma heroína para chamar de sua, podem descobrir que quem está atrás da câmera é uma mulher, podem desejar fazer filmes, contar histórias", avalia. 

O êxito de uma obra protagonizada por uma mulher (a atriz israelense Gal Gadot) e dirigida por outra (Patty Jenkins) ganha ganha mais relevo se analisarmos a franquia na qual está inserida. Apesar dos bons números, o DCEU ainda não tinha emplacado com a crítica com suas fitas anteriores (a saber: Homem de Aço, Batman Vs. Superman e Esquadrão Suicida). Mulher-Maravilha consertou isso e fez público e crítica acreditar neste universo cinematográfico. Vale ressaltar também que o projeto recebeu orçamento menor entre seus pares, US$ 149 milhões - os demais custaram, respectivamente, US$ 225, US$ 250 e US$ 175 milhões).

"Se não há mulheres como protagonistas e mulheres realizadoras em filmes de grande orçamento, isso se dá apenas por vivermos em uma sociedade patriarcal machista e misógina, pois filmes de médio orçamento escritos e dirigidos por mulheres, com protagonistas mulheres, via de regra, se pagam e dão lucro", defende Cíntia. "Portanto, não há desculpa atrelada a fatores econômicos que sirva". A cineasta também traça um paralelo com a situação do Brasil, onde "há muitas diretoras mulheres e também boas protagonistas". "Mas esse número ainda é muito baixo se levarmos em conta os últimos indicadores da Ancine (Agência Nacional de Cinema) e compararmos com a realidade brasileira, na qual somos maioria em número de habitantes".

Tanto Júlia quanto Cíntia chamam a atenção que a obra não é perfeita. "Em questões de ideais feministas o filme ainda é muito simples. Parece que ele introduziu questões mais leves de representatividade pra não desagradar uma audiência que é conhecida por ser muito machista", pondera a crítica e jornalista. E exemplifica: "eu não entendo porque Hollywood não vê que pode existir mais de uma mulher no mesmo ambiente e elas podem se amar, se ajudar, cooperar. Dois terços do filme é Diana e aquele macharedo todo (risos) andando de um lado pro outro". Para Júlia, as melhores cenas são as do primeiro ato em Temiscira, onde a heroína vive com as demais Amazonas.

Já a cineasta chama a atenção para a questão de modelos de beleza. "Essa Mulher-Maravilha ainda é branca, magra, alta, sexy, de cabelos longos e sedosos, ainda representa um padrão comercial", ressalta Cíntia. "Por isso é importante ter cada vez mais filmes de grande bilheteria feito por mulheres, com mulheres - de todas as formas, tamanhos, nacionalidades, tons de pele". 

O sucesso de Mulher-Maravilha, portanto, não é definitivo. É mais um passo num longo caminho por um cinema mais igualitário. Onde quem ganha são todos: artistas, público e a sétima arte em si. 

Crítica: Os Guardiões

Filme russo de super-heróis dói de tão ruim.

Os GuardiõesAno passado, surgiu o trailer de uma produção russa que chamou a atenção nas redes sociais. Chamava-se Os Guardiões e seria uma fita de super-heróis criados durante a Guerra Fria. Prometia ser muito divertido. Talvez também pudesse ser bem bom; afinal, a atual produção de filmes de fantasia na Rússia é interessante e traz algumas coisas novas.

Lançado em sua terra natal no início do ano, Os Guardiões chega agora ao Brasil. Antes não tivesse chegado. A promessa de entretenimento irresponsável é, em realidade, um filme muito do ruim. Sério candidato a pior do ano.

O maior pecado de Os Guardiões é que a sua ruindade não é transcendente. Há filmes que são tão ruins que, por suas falhas, ultrapassam uma barreia e ficam divertidos. É o famoso "tão ruim que é bom". Os Guardiões é só ruim.

A premissa é interessante, mas no fundo é batida: na antiga União Soviética, experiências criam super-humanos com poderes especiais, assim como um super-vilão.

Não precisa ser um especialista para ver que é tudo um arremedo de Quarteto Fantástico. E o único filme bom que o Quarteto Fantástico inspirou nem é da franquia, mas sim a animação da Pixar Os Incríveis (uma clara homenagem -- e melhoria -- dos quadrinhos).

Se não, vejamos. Os Guardiões em si são quatro: uma mulher capaz de ficar invisível, Ksenya; um guerreiro que anda em altas velocidades (com o acréscimo de espadas circulares), Khan; um sujeito que manipula e se recobre de pedras, Ler; e um cientista que muda de forma -- no caso, se metamorfoseia num urso--, Arsus. Que, aliás, tem um crush em Ksenya. O vilão também cai no lugar-comum: Kuratov é um deformado que dispara raios das mãos, o que o faz controlar equipamentos mecânicos e eletrônicos. 

Sim, eu sei: ainda parece divertido. Tinha tudo para ser.

Mas o fato que, mesmo para ser descompromissado, um filme precisa ter algumas coisas básicas. Como consistência de personagens e história. A quantidade de furos é inaceitável e é até difícil enumerá-los. Parece que o roteiro foi sendo escrito sem a preocupação do que aconteceria na cena adiante. 

Não ajuda a dramaturgia pior que novela brasileira ruim, em que cada heróis expõe seus dramas -- em diálogos vexatórios de ruins. São informações que nunca fazem a menor diferença na história e que nunca são resolvidas. Parecem estar ali para aumentar o tempo de projeção. A trilha sonora aparece de maneira tão invasiva para mostrar as emoções dos personagens que arranca risadas.  

As sequências de ação poderiam ser bacanas, ao menos. Mas elas são truncadas e mal-feitas. Há momentos em que os capangas avançam apontando armas e "esperam" ser atingidos, quando poderiam facilmente terem derrubado os heróis. Até mesmo os poderes dos heróis são esquecidos (a partir de certo ponto, Ler parece esquecer seu poder de manipular rochas e fica movendo um chicote energético bem ridículo).  

Embale tudo isso com efeitos visuais que transitam entre o eficiente e o medonho -- Arsus, em sua forma de urso, só não é mais falso que a maquiagem do vilão. Fuja. Só para ilustrar, ele foi um fracasso na Rússia. 

Parece que cogitam uma sequência (há uma cena durante os créditos), que seria coproduzida com a China. Quem sabe um pouco de know-how chinês de ação não ajuda? 

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