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Mais Mundo

Coréia do Norte: Dialogar com o vilão asiático é mais do que nunca necessário.

Nas últimas semanas, a Coréia do Norte esteve presente nas manchetes dos grandes jornais no mundo todo: lançamento de mísseis capazes de carregar ogivas nucleares, troca de afrontas verbais com os Estados Unidos e suspeita de apoio aos hackers por trás do programa Wannacry, que afetou 150 países. Caricatura do eterno vilão internacional, a Coréia do Norte está cada vez mais isolada. No entanto, se não quisermos abandonar sua população à miséria provocada por este isolamento, um contato diplomático sério e respeitoso com este país é urgente. .

Rua de Pyongyang, 2016Na semana passada, a Coréia do Norte foi acusada por especialistas de segurança informática tais como as empresas Symantec e Kapersky de estar por trás do maior ataque cibernético jamais cometido no mundo : a infecção de mais de 300 mil computadores em 150 países pelo programa Wannacry. Este programa bloqueia o computador do usuário e pede um resgate em troca da sua « liberdade ». Estes especialistas afirmam que várias linhas de programação utilizadas para a escritura do Wannacry são cópias das utilizadas pelos hackers do grupo « Lazarus », suspeitos de trabalhar para a Coréia do Norte. Lazarus estava por trás do ataque aos computadores dos estúdios da empresa Sony Pictures em 2014, uma represália ao filme que ridicularizava Kim jong-il, pai do atual presidente da Coréia do Norte.

Também na semana passada, a Coréia do Norte testou um novo modelo de míssil capaz de transportar uma ogiva nuclear de grande dimensão. Segundo a agência de informação oficial do Estado, a KCNA, o míssil percorreu 787 km de distância, um recorde até hoje. Uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU foi convocada pelos Estados Unidos com o apoio do Japão, que teme um ataque. O Conselho da ONU condenou os testes com o apoio da China, principal aliado da Coréia do Norte. Esta condenação soma-se às sanções econômicas já impostas pelas nações unidas ao país desde 2016. Sem parecer preocupar-se com a reação do Conselho da ONU, Kim Jong-un, atual presidente, repetiu o lançamente neste domingo, em grande pompa.

Durante todo o ano de 2016, 20 mísseis haviam sido testados pela Coréia do Norte. Mas os testes haviam parado em outubro, duas semanas antes da eleição presidencial americana. No entanto, com o anúncio, em março deste ano, da intensão americana de « terminar com a política da paciência estratégica», e com a instalação pelos EUA de um escudo de proteção antinuclear sobre o território da Coréia do Sul, os testes foram retomados.

Desde que assumiu o poder após a morte do seu pai, o atual presidente Kim jong-un vem desenvolvendo rapidamente o arsenal nuclear da Coréia do Norte. No entanto, grande parte dos especialistas da região não acredita que este arsenal seria utilizado contra a Coréia do Sul (Seul está apenas à 60 km da área desmilitarizada na fronteira das duas Coreias) ou contra o Japão. « A Coréia do Norte utiliza seu arsenal nuclear como dissuasão, assim como fazem os Estados Unidos, a Franca ou a Índia » acredita o redator-chefe da Ásia no jornal Le Monde. « A Coréia do Norte precisa deste tipo de ameaça se quiser existir na cena internacional ».

Um pouco de história

Os leitores lembram-se certamente da história da separação das duas Coreias: em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial e com a derrota do Japão cujo Império incluía as Coreias, o norte ficou sob influência da União Soviética e o Sul sob influência dos Estados Unidos. Cinco anos mais tarde o norte invadiu o sul iniciando a Guerra da Coréia que durou três anos e terminou com um armistício. Kim il-sung, avo do atual presidente, tomou então as rédeas da República Popular Democrática da Coréia (RPDC ou Coréia do Norte), adotando um socialismo de autosuficiência nacional chamado “Juche” e dando prioridade à defesa e à militarização (“Sogun”). Desde então, o Estado controla os meios de produção e a agricultura é coletivista. O culto dos líderes da família Kim é praticado ao extremo até hoje, e o país não tem nenhum órgão de imprensa livre ou sociedade civil organizada.

Fome

Mas nos anos 1990, com a queda da União Soviética e sem mais poder contar com seus subsídios, a economia do país foi profundamente abalada, assim como foi a sua posição política no mundo. Entre 1994 e 1998, a Coréia do Norte conheceu uma crise extrema de produção alimentar que resultou na grande fome que matou quase 1 milhão de pessoas e deixou 40% das crianças com menos de 5 anos malnutridas.

Durante este período, seu líder Kim jong-il assinou um acordo de contenção nuclear com os Estados Unidos (Agreed Framework) e aceitou a ajuda alimentar da comunidade internacional em troca de abertura.

Então vieram os anos Gearge W Bush na Casa Branca. Segundo Mike Chinoy, autor do livro « Meltdown : The Inside Story of the North Korean Nuclear Crisis » (2009, St Martin`s Press) que Mais Mundo teve a oportunidade de conhecer, ao incluir a Coréia do Norte na sua lista de “rogue States” (Estados vilões) e ao recusar-se a dar continuidade às negociações iniciadas pela administração Clinton, G.W. Bush semeou a situação atual: um país com um arsenal nuclear importante e totalmente opaco.

Direitos humanos

Chinoy, que foi correspondente da CNN na Ásia e também o jornalista ocidental que efetuou o maior número de visitas à Coréia do Norte, inclusive entrevistando Kim jong-il, pleidoa por uma retomada do diálogo e por uma visão menos caricatural deste país. Tarefa nada fácil quando trata-se de um Estado fechado ao mundo exterior.

Observadores e desertores dizem que na última década o mercado negro que havia se desenvolvido nos anos de penúria que seguiram a década de 90 foi oficializado pelo atual líder Kim jong-un. Este novo dinamismo econômico estaria por trás de uma nova classe média, ávida de consumo. As exportações de minério de cobre e prata assim como de carvão, principalmente para a China, também ajudam a economia, embora não sejam suficientes.

Ainda em 2012 o Programa Alimentar Mundial da ONU anunciava que uma ajuda alimentar seria enviada à Coreia do Norte naquele ano para evitar uma nova fome. Em 2013 o jornal japonês Tokyo Shimbum denunciava a morte por fome de quase 10 mil pessoas na província de Hunghae.

Segundo Thae Yong-ho, ex-diplomata da Embaixada Norte-Coreana em Londres que desertou em 2016, o país enfrenta um problema crônico de falta de divisas estrangeiras e o Estado utiliza meios ilegítimos e ilegais para obtê-las. Casos de trabalho escravo no campo são bem conhecidos. Assim como o trabalho ilegal de crianças nas indústrias do Estado.

Pior, segundo o relatório 2017 da ONG Human Rights Watch, o governo norte-coreano manda 100 mil trabalhadores para o exterior anualmente com o objetivo de ganhar divisa estrangeira, e recolhe uma parte do salário de cada um. Mulheres fugindo o regime são vendidas para o comércio sexual na China ou para casamentos forçados. A ONG acusa a RPDC de tortura, assassinatos e extermínio.

A Coréia do Norte é sem sombra de dúvidas um dos maiores infratores de direitos humanos do mundo. No entanto, se observarmos a evolução do Iran, o segundo « rogue State » da lista de GW Bush, compreende-se que o isolamento diplomático e as sanções econômicas nem sempre resultam em melhora no quesito direitos humanos.

O Iran, que vive eleições presidenciais nesta sexta-feira, beneficiou-se de uma aproximação diplomática com a comunidade internacional e com a administração Obama que resultou na assinatura de uma acordo nuclear no ano passado assim como no fim das sansões econômicas, beneficiando a maioria da população e possibilitando as eleições parlamentares da semana passada. E, por que não a Coréia do Norte?

O fotógrafo Michal Huniewicz fotografou cenas da vida cotidiana na Coréia do Norte em 2016. Seu trabalho chama-se "Road to North Korea" e "Ostentably Ordinary: Pyongyang". Vale a pena dar uma olhada. https://twitter.com/m_huniewicz

França: Macron eleito, Europa salva, e agora?

Emmanuel Macron, 39 anos, foi eleito ontem o 25º presidente da Repúplica francesa e o mais jovem de toda a sua história, com 66,1% dos votos. Mais do que uma festa nacional, sua eleição foi um suspiro de alívio. .

Emmanuel Macron comemora sua vitória ontem, em Paris.Pelo menos pelos próximos cinco anos, a ameaça do rancor racista e anti-europeu encarnada pela candidata Marine Le Pen, do partido de extrema-direita Front Nacional, foi afastada.

A Europa toda comemora. Editorialistas e governantes de todo o continente aclamam os francêses e a vitória dos valores humanistas herdados do século das luzes, " l`héritage des Lumières".

No entanto, se quiser governar sem entraves, o novo presidente deverá lutar para obter uma maioria na Assembléia Nacional, em eleições que acontecerão dentro de um mês.

Manobra difícil para o movimento En Marche ! do qual é fundador, e que não conta por enquanto nenhum deputado eleito.

Mas os tempos mudaram e a falta de assentos na Assembléia não parece preocupar Macron. Ele entende que o velho sistema de partidos parece implodir rapidamente. Por exemplo : O segundo partido da França hoje, o Front National de Marine Le Pen, que obteve um resultado histórico com 33,9% dos votos no segundo turno, só tem 3 deputados eleitos. E o movimento France Insoumise, de extrema-esquerda, quarto lugar no primeiro turno com 20% dos votos, não tem nenhum.

Enquanto isso, os dois maiores partidos representados na Assembléia Nacional francêsa hoje - os Les Republicains e os Socialistes, só receberam no total 26,5%, dos votos no primeiro turno da presidencial e não passaram ao segundo turno.

Isto significa que a campanha não para por aqui e que o próximo mês definirá os contornos da política na França nos cinco próximos anos.

Candidatos e eleitores deverão escolher entre continuar fiéis aos seus partidos de origem e defender seus programas na última instância ainda possível : a Assembléia Nacional, mesmo que isto implique entravar a ação do novo presidente. Ou dar crédito ao presidente e o apoiar nas lesgislativas, apostando na sua capacidade de reformar o país e de tirá-lo da profunda crise social em que se encontra.

Se quizer receber este cheque em branco da nação, Emmanuel Macron vai ter que mostrar o mais rápido possível o quê e quem está por trás de En Marche !, um movimento que se diz « nem de esquerda nem de direita », pró-europeu mas por uma Europa reformada, em favor de gastos sociais e ao mesmo tempo de cortes no orçamento o Estado.

Esta posicão indefinívil no ABC da política atual (alguns dizem tratar-se da social-democracia de Tony Blair, mas Macron não aceita o rótulo), é vista por alguns como sinal de falta de substância e de demagogia. E por outros como sinal de um pensamento complexo e sutil que não deixa espaço para ideologia.

Um mês é também o tempo que sobrou para Macron tentar seduzir os 25% dos eleitores que não foram votar (um recorde de abstencão) e para tentar acalmar a « cólera » dos 4 milhões de eleitores que votaram branco ou anularam seu voto.

Tarefa mais difícil ainda, ele deverá mostrar um pouco mais de empatia do que tem feito até agora com os quase 11 milhões de eleitores da extrema-direita do Front Nacional, em sua grande maioria operários e desempregados, que desde ontem sentem-se totalmente órfãos diante da vitória de um candidato pró-europeu e pró-globalização.

“Todos diziam que seria impossível [ganhar esta eleição], mas eles não conheciam a França ! », disse Macron ontem em seu discurso de vitória na frente da pirâmide do Louvre. Apenas o resultado das legislativas poderá dizer se a nova França de Emmanuel Macron realmente existe.

Imigração: Austrália acusada de crime contra humanidade

Pela primeira vez na sua história, a Corte Penal Internacional (CPI) recebeu uma acusação de crime contra a humanidade fora do contexto de guerra. Trata-se de abusos cometidos nos centros « offshore » de detenção de refugiados mantidos pelo Estado Australiano e gerenciados por empresas privadas multinacionais nas ilhas Nauru e Manus, no Oceano Pacífico. Se a CPI decidir abrir o inquérito, ela apode colocar a União Europeia em grande dificuldade..

Refugiados chegam de barco na costa australianaHá anos a Austrália ignora as acusações de várias instâncias da ONU sobre a ilegalidade dos seus centros de processamento e encaminhamento de imigrantes (Regional Processing Centres), assim como os maus tratos cometidos ali. Estes centros são verdadeiras prisões offshore, cuja gestão é terceirizada a empresas especializadas na segurança e não na gestão de imigrantes.

Já em 2013, o mundo havia se emocionado com as imagens da rebelião no centro de detenção da ilha de Manus (Papua-Nova Guiné), que levou à morte de Reza Berati, jovem iraniano de 23 anos, morto de traumatismo craniano após ser agredido na cabeça com paus e pedras pelos guardas.

Em fevereiro deste ano, juristas da Faculdade de Direito de Stanford com o apoio da ONG Glan (Global Legal Action Network) depuseram junto à Corte Penal Internacional (CPI) um pedido formal de investigação de crime contra a humanidade.

Eles acusam o Estado australiano e a multinacional espanhola Ferrocial, contratada pela Austrália para gerenciar seus centros de detenção de imigrantes, de cometerem graves abusos físicos e sexuais contra os detidos, inclusive crianças. Segundo eles, as péssimas condições de vida nos centros aliadas à violência cotidiana provocaram ondas de automutilação e de suicídios de massa.

Além disso, eles acusam o Estado de manter em silêncio estes abusos via uma legislação específica que pune com pena de prisão a divulgação de qualquer imagem e informação sem autorização prévia.

Neste contexto, o documentário « Chasing Asylum », da cineasta australiana Eva Orner, é uma pérola rara. Ele utiliza imagens inéditas filmadas por agentes locais chocados com os maus tratos que presenciam e dispostos a tudo para denunciá-los: dormitórios sem janelas, mofados pela humidade e pelo calor. Banheiros imundos. Crianças apáticas sem escola nem brinquedos sendo vigiadas por guardas entediados e impunes, sem formação outra que a de garantir a segurança do local.

O sistema que o Estado australiano chama de «solução do Pacífico » (Pacific Solution) foi adotado em 2001 e vem sendo mantido pelos governos sucessivos, de direita e de esquerda. Ele consiste em enviar todo e qualquer imigrante ou refugiado chegando à Austrália de barco, para centros offshore (distantes da costa), situados na República Independente de Nauru e na ilha de Manus, em Papua-Nova Guiné, onde eles ficam detidos até que seus pedidos de visto sejam processados e julgados. Em ambos os centros, a maioria dos detidos está ali há mais de três anos sem nenhuma notícia sobre o andamento do seu processo.

Europa

Na Europa, onde a detenção e a terceirização são formas de controle da imigração cada vez mais utilizadas, a decisão da Corte Penal Internacional sobre o caso australiano pode ter um impacto importante.

Para lutar contra o que chama de « crise migratória », a União Europeia adotou três medidas importantes:

- Reforçar o orçamento e as prerrogativas da sua Agência de controle das fronteiras (antiga Frontex transformada em outubro de 2016 em EBCG – European Border and Coast Guard).

- Criar centros de acolhida e processamento de imigrantes na Itália e na Grécia, chamados « hotspots ».

- Assinar acordos de « terceirização » da gestão dos imigrantes com países como a Turquia e a Líbia.

Na pratica, no entanto, estas medidas nem sempre são conforme a diretiva europeia sobre pedidos de asilo. A EBCG, por exemplo, vem sendo criticada por falta de accountability. E a lentidão no processamento de casos nos centros « hotspots » faz com que imigrantes tenham que esperar até dezoito meses antes de obter uma resposta aos seus pedidos, transformando-os em, de fato, centros de detenção.

Mas a medida mais controversa são os acordos de terceirização, em particular o dito acordo « one-to-one » assinado com a Turquia. Ele estipula que para cada imigrante chegando à Europa e reenviado para a Turquia, a UE acolhe um refugiado sírio na Turquia. Além disso, a UE paga seis bilhões de euros de compensação para a Turquia, como ajuda de custo para a gestão dos centros de acolhimento para imigrantes no seu território. E promete suspender o visto obrigatório para turcos em toda a Europa. Este acordo é criticado pelas instâncias da ONU e por ONGs especializadas nos direitos humanos.

E mais. O modelo australiano de detenção e terceirização de imigrantes parece seduzir um número crescente de países europeus. Segundo o jornal inglês Daily Telegraph, pelo menos seis países, entre os quais a Hungria, a Polônia e a Áustria, pediram conselho aos australianos sobre como reduzir o numero de imigrantes chegando de barco na Europa pelo Mar Mediterrâneo.

Quando assumiu o poder na Casa Branca, Donald Trump soube que seu predecessor, Barak Obama, havia prometido ao governo australiano acolher 1250 refugiados dos centros de Nauru e Manus, todos da minoria rohingya, de confissão muçulmana, fugindo à persecução na Birmânia. Sua reação foi tweetar que « Obama havia fechado um negócio estúpido ». Negócio, terceirização, offshore. Palavras que outrora pertenciam ao campo lexical do mundo do comércio e das finanças, e que agora são utilizadas para tratar de seres humanos.

Terrorismo em Estocolmo: o fim de um sonho

O atentado que matou quatro pessoas e feriu dezoito na sexta-feira passada no centro de Estocolmo traumatizou profundamente a população. Um novo tipo de jihadismo pós-Estado Islâmico parece confirmar-se na Europa..

Marine Letort/Divulgação
Estocolmo: Homenagem às vítimas do atentado.
O método já havia sido testado nas cidades europeias de Nice (14 de julho de 2016), Berlim (19 de dezembro de 2016) e Londres (22 de março último). Um caminhão em alta velocidade lançado contra uma multidão desprevenida com o objetivo de matar o maior número de pessoas possível. Um ataque terrorista “barato e eficaz” conhecido nas redes sociais como “caminhão-touro”. 

Na sexta-feira última, às 14h53, foi a vez de Estocolmo. Rahkmat Akilov, 39 anos, de nacionalidade uzbeque, confessou ter roubado um caminhão que fazia entregas e tê-lo conduzido em alta velocidade contra uma multidão de passantes no calçadão da rua Drottninggatan, no centro da cidade, deixando quatro mortos e dezoito feridos no seu caminho. Seu objetivo era « matar infiéis ».

Akilov residia ilegalmente no país desde dezembro passado, quando seu pedido de asilo na Suécia foi negado e ele foi convidado a deixar o país. A consulta da sua página no Facebook pela polícia indica que Akilov era simpatizante de grupos islamistas, inclusive do suposto Estado Islâmico, mas também de grupos budistas e mórmons. Até o dia de hoje, no entanto, o atentado não foi reivindicado.

Os suecos, até então acostumados a viver em um ambiente completamente seguro e moralmente liberal, foram despertados bruscamente de um belo sonho. Subitamente, a população compreendeu que a sociedade sueca já não é mais tão uniforme e egalitária. E que apesar de considerar-se aberta, democrática e respeituosa dos direitos humanos (a Suécia é o país europeu que acolheu o maior número de imigrantes nos últimos três anos), a realidade é mais nuançada.

“A Suécia sempre foi e vai continuar sendo um país pacifista e seguro”, afirmou o Rei Carl XVI Gustaf no domingo, quando mais de 20 mil pessoas reuniram-se no lugar do atentado para prestar homenagem às vítimas e « mostrar que a vida continua como antes ».

No entanto, a poucos metros dali, policiais altamente armados mantinham a segurança do bairro. Uma aparição completamente nova em uma cidade onde a polícia é mais conhecida pelas multas de trânsito.

Ao mesmo tempo, líderes dos partidos de oposição moderada exigiam a criação de uma comissão de reavaliação da seguranca nacional. E o partido de extrema-direita, os Democratas da Suécia, acusavam na mídia o atual governo de « negligência securitária ».

Nas ruas, os habitantes diziam-se chocados e com medo. « Nunca pensei que isto poderia acontecer aqui », disse uma mãe de 32 anos, nascida em Estocolmo. « A cidade que vamos deixar para os nossos filhos não será a mesma, em termos de seguranca. E isto é triste ».

“O objetivo dos terroristas é atacar a democracia. Mas a Suécia não cederá nunca. Vocês não podem controlar as nossas vidas. Vocês não ganharão jamais”, declarou emocionado na sexta-feira o primeiro-ministro sueco, Stefan Löfven, resumindo em poucas palavras o novo tom da política securitária no país.

Novo jihadismo europeu

O perfil de Rahkmat Akilov é, sob vários aspectos, parecido com o de Mohamed Lahouaiej-Bouhlel (matador de Nice), com o de Anis Amri (Berlin) e o de Khalid Masood (nascido Adrian Ajao, matador de Londres).

Trata-se de pessoas isoladas socialmente, sem perspectiva econômica, instáveis psicologicamente, expostas ao discurso radical do Estado Islâmico através das redes sociais, e aderindo à violência dos apelos jihadistas, mais do que à sua mensagem religiosa.

Segundo o cientista político francês Olivier Roy, estes delinquentes demonstram um grande amadorismo na forma como conduzem seus ataques terroristas, e são a prova de que a teoria da « doutrinação salafista » (segundo a qual os terroristas convertem-se ao salafismo radical que é praticado ilegalmente nas periferias europeias), não se aplica.

« Trata-se de uma declaração de guerra contra as sociedades nas quais eles vivem e onde eles se sentem oprimidos e rejeitados », afirmava nas páginas do jornal Le Monde o sociólogo Farhad Khosrokhavar. Segundo ele, com o declínio do EI em suas zonas de combate na Síria e no Iraque, um novo tipo de jihadismo « pós-Estado Islâmico » está nascendo na Europa. Este novo jihadismo toma a forma de um movimento sócio-político capaz de mobilizar as minorias de origem islâmica e os convertidos.

A sexta-feira passada foi um marco para os suecos. Foi o dia em que eles deixaram de ser exceção, e passaram a fazer parte da nova realidade europeia, com suas formas evolutivas de terrorismo e medo. Para muitos, o fim do sonho sueco é também o fim do sonho europeu.

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