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Davos: o fórum da 'desmundialização'?

Começa hoje nos Alpes suíços o 47º Fórum Econômico Mundial de Davos, que reúne chefes de Estado, PDGs, funcionários e empresários do mundo todo. Presentes oficialmente para debater em torno do tema « Liderança reativa e responsável », a nata do poder e do dinheiro no mundo não poderá ignorar o instável contexto mundial. Populismo, desigualdades, protecionismo. Seria este o ano do tão esperado mea culpa em Davos ? .

Xi JinpingMais de cinco mil militares foram colocados à disposição dos organizadores deste 47º Fórum Econômico Mundial de Davos pelo Estado Suíço. Eles devem garantir a segurança dos três mil participantes, um número recorde de inscritos.
Desfilando pela minúscula rua principal desta charmosa estação de ski estarão 1200 PDGs, 50 chefes de Estado e de Governo e dirigentes das maiores organizações internacionais como Christine Lagarde, chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), Roberto Azevedo, da OIC (Organização Internacional do Comércio), Jim Yong Kim, do Banco Mundial, e Antônio Guterrez, secretário geral da ONU. 
A vedete do Fórum, no entanto, será sem dúvidas o presidente chinês Xi Jinping. Presente pela primeira vez este ano, Xinping foi convidado para fazer o discurso de abertura.
Em visita oficial à Suíça desde domingo passado, ele se diz pronto para fazer da China o primeiro guardião da mundialização e do livre-comércio, preenchendo o vazio deixado pela troca de administração nos Estados Unidos e pela crise política na Europa (nem Angela Merkel nem François Hollande estarão presentes em Davos). « Este será o encontro de um mundo ao contrário », dizia ontem o jornal francês Le Monde, referindo-se à posição chinesa.
A concomitância do Fórum de Davos com uma semana política internacional particularmente conturbada, pode também contribuir para reforçar esta sensação vertiginosa de um mundo fora do lugar. E dar o que falar em Davos. Semana esta que começou com as declarações de antipatia e desprezo de Donald Trump pela União Europeia e seu apoio ao Brexit, passando pelo anúncio da primeira-ministra britânica Theresa May sobre a adoção da opção « hard-Brexit » (saída dura, sem exceções, do Mercado Comum Europeu), e que vai terminar com a posse de Donald Trump na Casa Banca.
Mas o assunto mais comentado em Davos talvez não venha necessariamente das manchetes políticas, mas dos números e estatísticas. Com o intuito de influenciar as discussões no Fórum, a ONG inglesa Oxfam publicou ontem o relatório-bomba « Uma Economia à Serviço dos 99% », revelando entre outras coisas que as oitos pessoas mais ricas do mundo detém um patrimônio igual ao da metade mais pobre da população mundial.
A ONG acusa as grandes empresas multinacionais e as maiores fortunas do planeta de contribuir voluntariamente à exacerbar este nível « indecente » e « politicamente insuportável »de desigualdade por meio da isenção e não pagamento de impostos, da redução de salários e da maximização da renda dos acionistas. « A evasão fiscal das grandes empresas custa 100 bilhões de dólares ao países pobres cada ano », denuncia a ONG, que acusa os Estados de conivência.
O relatório da Oxfam é o alarme máximo, mas esta tendência já vem sendo estudada e denunciada há décadas. Estudos elaborados por organizações internacionais, ONGs e até mesmo governos, vêm mostrando que desigualdades, protecionismo e populismo são três fenômenos intimamente ligados. E que são efeitos colaterais da mundializacão tal como ela vem sendo praticada pelos nossos dirigentes e defendida pelas grandes empresas.
A fórmula é simples : Se nada for feito para reduzir as desigualdades sociais e econômicas, o populismo vai se espalhar, e com ele o protecionismo.
Esperemos que os 1% que se beneficiam do status quo, e que reservaram um quarto de hotel em Davos esta semana, consigam desta vez enxergar a realidade descrita pelos números da Oxfam e pelas notícias internacionais. Sob o risco de que o próximo Fórum tenha como tema a « desmundialização ».
Para ler o relatório da Oxfam completo, clique aqui. 

Eleições na Europa: alvo fácil em cyber-guerra

Os contornos de uma primeira cyber-guerra mundial são cada vez mais visíveis. Neste novo tipo de conflito, a piratagem e a desinformação são as principais armas. E as eleições democráticas tornam-se uma presa fácil. Em 2017, ano de eleições importantes na Europa, os combates prometem ser violentos e decisivos. E os russos são os principais suspeitos..

Concepção artística para o bloqueio ou controle da InternetA maior parte das grandes potências mundiais pratica já há algum tempo a cyber-espionagem. Quem não se lembra do escândalo revelado em 2013 por Edward Snowden sobre a espionagem dos computadores e telefones do Elysée (presidência francesa) pela NSA americana (National Security Agency). Segundo o jornal Washington Post, a NSA, que conta com um orçamento anual de 10 bilhões de dólares, espiona em média 1.7 bilhões de e-mails, telefonemas e outros tipos de comunicação no mundo todo, cada dia.
Mas no atual campo de batalha, a simples espionagem deixou lugar à um tipo de intervenção mais difusa e logo mais difícil de identificar, também conhecida como manipulação da informação. E os russos parecem liderar estes ataques.
Acusados pela CIA de ter pirateado os computadores do Comité do Partido Democrático durante a campanha presidencial americana no ano passado, favorecendo assim a eleição do republicano Donald Trump, os russos estão agora no radar da Alemanha e da França, ambos países com eleições presidenciais e gerais previstas este ano.
« Estes ataques têm como único objetivo produzir incertezas políticas », dizia Bruno Kahl, chefe dos serviços secretos alemães para o jornal Le Monde esta semana, afirmando serem os russos a principal ameaça.
Hackers russos são efetivamente os principais suspeitos do cyber-ataque conduzido em dezembro último contra a OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa). Esta organização internacional baseada em Viena é encarregada de garantir o cumprimento dos acordos de paz de Minsk, que deram um fim à guerra na Ukrânia.
Segundo o jornal inglês The Guardian, os hackers fariam parte de um grupo chamado APT28 (também conhecido como Fancy Bears), próximo dos serviços secretos russos. O mesmo grupo é também acusado da piratagem do sistema de transmissão do canal de televisão francês TV5 Monde, em abril de 2015.
Ao piratear a OSCE, cuja presidência estava nas mãos dos alemães durante todo o ano de 2016, o Estado russo estaria interessado em informações sensíveis que pudessem comprometer a diplomacia alemã e consequentemente descredibilizar a chancelér Angela Merkel, em campanha para reeleição em 2017. Angela Merkel é abertamente contra a suspensão das sanções europeias contra a Rússia em razão da anexação da Crimeia.
Segundo autoridades alemãs, a Rússia estaria também por trás da piratagem da rede de routers da Deutsche Telekom em novembro passado, afetando a conexão internet de mais de 900 mil usuários, assim como da piratagem em 2015 do Parlamento alemão (Bundestag), que resultou no roubou de arquivos confidenciais que foram em seguida entregues à Wikileaks para publicação. « O Estado russo no mínimo tolera estes atos ilegais. Para não dizer que ele os estimula», acusa Kahl.
Trolls
Além dos cyber-ataques propriamente ditos, outra ameaça importante às eleições democráticas são as cada vez mais difundidas campanhas de desinformação, ou trolls.
Tratam-se de semi-verdades geradas de maneira consciente, e que espalham-se rapidamente pelas redes sociais ou mesmo via as mídias tradicionais, sob forma de informação fatual.
Este tipo de ataque extremamente sutil pode ter origem interna, como o que o jornal Le Monde chamou de « arma eleitoral massiva » referindo-se aos twitts fantasiosos de Donald Trump. Mas pode também vir do exterior.
Para proteger-se deste tipo de ataque, em novembro passado, o Parlamento Europeu declarou ilegal a agência de informações russa « Sputnik », assim como a cadeia de televisão em inglês « Russia Today », a mesmo título que a agência de informações do Estado Islâmico (Daesh).
« A propaganda hostil contra a União Europeia e seus Estados membros visa desnaturalizar a verdade, provocar a dúvida, dividir a União Europeia, paralisar o processo decisivo, e suscitar o medo e a incerteza entre os cidadãos europeus », explicava o texto da lei, que foi aprovado por 307 votos contra 179.
Segundo Janis Sarts, diretor do Centro de Estatégia em Cumunicação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), « tanto a Rússia quanto Daesh utilizam a mídia tradicional, as redes sociais, os SMS e os trolls com o intuito de descredibilizar os processos democráticos ».
« Nada diferente do que os Estados Unidos fizeram em tantos outros países durante a Guerra Fria», retorca o jornalista Stephan Walt nas páginas do jornal americano Foreign Policy, citando casos como o Chile, o Congo ou a República Dominicana.
No entanto, este tipo de espionagem e de influência junto a alta hierarquia do poder parecem inocentes diante das técnicas de uma cyber-guerra.
A palavra do ano de 2016 escolhida pelo dicionário Oxford foi “pós-verdade” (post-truth). Segundo o Oxford, trata-se de um adjetivo que designa « as circunstâncias nas quais os fatos objetivos tem menos influência na formação da opinião pública do que o apelo às emoções e às crenças pessoais”.
Qual seria então a diferença entre a « pós-verdade » e a velha e simples « mentira », praticada na política desde que ela existe? Talvez seja que a pós-verdade não tem conotação negativa, simplesmente porque ela ignora a verdade fatual e verificável, e existe independentemente dela. Um contador de pós-verdades, ao contrário de um mentiroso, não sofreria remorso ou arrependimento. E pior, não poderia ser julgado ou condenado por seus atos.
Em uma época em que a democracia europeia sente-se ameaçada por cyber-ataques e desinformação, uma reflexão de fundo sobre a sociedade da informacão e seus efeitos para a democracia seria muito bem vinda.

2016 : O ano que ainda não terminou

Neste final de ano, o mundo não deu aquela paradinha tradicional entre o Natal e o Ano Novo, quando todos os líderes internacionais tiram férias.

Mesmo sem show de fogos, muitos turistas foram às ruas em Paris para a viradaDezembro foi um mês fora do comum para a atualidade internacional. De Kinshasa à Istambul passando por Nova Iorque e Berlim, a atípica agitação dos atores da política mundial deu a impressão de que o ano de 2016 ainda não terminou.
Se, entre um brinde e outro, você perdeu o fio da meada, aqui vai o resumo dos últimos acontecimentos.
No 19 de dezembro, um terrorista tunisiano conduzindo um caminhão em alta velocidade mata 12 pessoas e fere 48 em um mercado de Natal em Berlim, na Alemanha. No mesmo dia, o Embaixador russo na Turquia, Andreï Karlov, é assassinado em Ankara, capital do país, por um policial de 22 anos que condena a participação da Turquia ao lado dos russos na tomada de Alepo, Síria.
No 25 de dezembro, um avião militar russo cai no Mar Negro matando todos os 92 passageiros à bordo, que voavam em direcão à Síria para comemorar o ano novo junto aos soldados já presentes no campo de batalha. A razão do acidente ainda não foi revelada, mas o desastre desperta, junto à opinião pública do país, um sentimento de rejeição à participação russa no conflito sírio.
Quatro dias depois, no 29 de dezembro, a Rússia e a Turquia, com o apoio do Iran, anunciam uma trégua das hostilidades na Síria. Vista como frágil por não incluir movimentos rebeldes islamistas, a trégua foi negociada sem a participação dos EUA e da Europa.
Neste mesmo dia, o presidente americano, Barack Obama, anuncia a expulsão dos Estados Unidos de 35 diplomatas russos, como mediada de retaliação contra a « pirataria de informações pelos russos que influenciou o resultado da eleição presidencial». A tensão entre Washington e Moscou atinge o seu ápice desde que Obama está no poder.
No 31 de dezembro, enquanto um acordo de paz era assinado na República Democrática do Congo entre o presidente Joseph Kabila e a oposição, um ataque terrorista reivindicado pelo Estado Islâmico mata 39 pessoas dentro de uma boate de Istambul, na Turquia, que passa a ser um dos países mais visados pelo terrorismo.
Nos Estados Unidos, durante todo o mês de dezembro, Obama instiga as decisões tomadas por atos executivos (« executive acts », sem passar pela aprovação do Congressos), em uma tentativa de freiar os planos do futuro presidente Donald Trump. No 19 de dezembro, ele agracia 153 presos com redução ou supressão total de suas penas, um recorde histórico. No 20 de dezembro, ele torna ilegal a exploração de gás e de petróleo em vastas áreas protegidas do Oceano Ártico e do Atlântico, projeto de exploração que havia sido prometido por Trump.
Mas é no âmbito internacional que Obama mais acelera suas declarações neste mês de dezembro. No dia 23, e pela primeira vez desde 1979, os EUA abstêm-se de veto durante a votação da resolução 2334, aprovada pelo do Conselho de Segurança da ONU, que condena as colônias de Israel na Cisjordânia e em Jerusalém Leste. O Secretário de Estado americano, John Kerry , declara seu apoio formal à política dos « dois Estados » como única solução para a paz no conflito israel-palestino. A decisão americana foi vista por Israel como « uma traição do nosso irmão, os EUA ».
Enquanto isso, Donald Trump, que não esconde o seu apoio à direita ortodoxa e aos colonos em Israel, tweetava desafiando Obama : « Segura firme Israel, o 20 de janeiro se aproxima ! ».
Quem sabe seja esta a data que vai finalmente acabar com o frenesi do mês de dezembro, e marcar o começo de 2017 no mundo. O 20 de janeiro, dia do sermão de investidura de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Mas talvez este réveillon não seja comemorado com um brinde.

Em 2017, que venha a grande chacoalhada!

Fuga, travessia, hesitação, medo, ousadia, interdependência, salto no vazio. Segundo os malabaristas do Cirkus Cirkör, os imigrantes podem ser o vetor de um novo equilíbrio global. .

Mantemos o hábito, cada final de ano, de assistir a um espetáculo em família. Dança, música, teatro, ópera, o gênero varia segundo a programação no país onde estivermos e as aspirações de cada um. Este ano escolhemos o circo.
Cirkus Cirkör é a trupe mais conhecida da Suécia. Eles praticam um tipo de circo contemporâneo e poético, sem animais, do tipo Cirque du Soleil, inspirando-se na dança e no teatro para exaltar as artes tradicionais do malabarismo, da acrobacia e do trapézio.
Seria um programa leve, belo e divertido, capaz de agradar tanto às criancas quanto ao pré-adolescente e aos seus pais. Exatamente o que precisávamos para deixar para trás este sinistro 2016 marcado pela guerra e seus horrores, pela impunidade de ditadores criminosos, pelo êxodo forçado de milhões de homens, mulheres e crianças, pela vitória do medo nas urnas dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Colômbia, pelo radicalismo terrorista, pela corrupção, pela desinformação…
Mas “Limits”, o espetáculo proposto por Cirkus Cirkör, foi muito mais do que um “feel-good show” bem produzido. Foi um convite comovente aos europeus para que saiam da sua zona de conforto e, tal um acrobata ou um malabarista, busquem um novo equilíbrio, ousem virar suas perspectivas de cabeça para baixo.
O tema surpresa do espetáculo foi a imigração. Progressivamente, usando testemunhos de imigrantes gravados em várias línguas e intercalados com o testemunho dos próprios artistas, a narrativa estabelecia vínculos entre as práticas do circo e a experiência vivida pelos imigrantes e deslocados. Fuga, travessia, hesitação, medo, ousadia, interdependência, salto no vazio.
“Levantem-se, os pés bem juntos no chão. Fechem os olhos. Sintam o corpo de vocês se mover involuntariamente. Mover-se é necessário para manter o equilíbrio”, explicava ao público a acrobata, enquanto corria sobre os encostos dos assentos na plateia. “Para nós, o movimento de pessoas no mundo hoje, as massas humanas circulando do norte ao sul, de leste a oeste, são uma forma de reequilíbrio dos homens na terra”, explicava ela.
A imagem da terra inclinando-se de um lado para o outro de forma descontrolada pelo peso do vai-e-vem dos imigrantes, até que um novo equilíbrio axial seja alcançado, me fez sorrir.
Ja não é mais segredo para ninguém que a economia mundializada e financializada é uma máquina de concentração de riquezas. E que este tipo de contradição, de desequilíbrio, está por trás dos conflitos e tensões que afetam a paz e a estabilidade no mundo hoje.
Aqui na Europa, os beneficiários desta economia global alegam uma “crise migratória”para justificar a construção de muros - em forma de legislação e de votos - que impeçam os menos afortunados de tirar o velho mundo do eixo em que ele se encontra.
Entre 2000 e 2013, mais de 23500 pessoas morreram tentando “pular” os muros europeus. E tantos outros milhares vivem em acampamentos precários esperando por “papéis” ou por expulsão. No entanto, segundo o UNHCR (Alto Comissariado das Nacões Unidas para os Refugiados), apenas 6% das 65 milhões de pessoas deslocadas em 2016 foram acolhidas na Europa, contra 39% pelo Meio-Oriente e África do Norte; 29% pela África; 14% Ásia e 12% pelas Américas. Em outras palavras, são os pobres que acolhem os ainda mais necessitados.
Saí do espetáculo do Cirkus Cirkör com uma nova visão dos imigrantes. Por um momento, deixei de vê-los como vítimas e passei a considerá-los como vetores de um tão necessário reequilíbrio global. Atores de uma enorme e poderosa chacoalhada planetária em 2017, capaz de derrubar muros e de redistribuir não somente pessoas, mas também recursos e direitos.
“Welcome!”, dizia a projeção que ocupou todo o palco no final do espetáculo. Bem-vindos! Que seja esta a palavra de ordem do ano que vem na Europa.
Para saber mais sobre o trabalho do Cirkus Cirkör: http://cirkor.se/

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