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Paraísos

Por que pagar impostos quando existem formas legais de evitá-los? A resposta talvez esteja no aumento das inegalidades e da instabilidade política e financeira mundial..








Na semana passada Bill Emmott, ex-redator-em-chefe da revista The Economist, visitou Lausanne (Suíça) para participar como palestrante do Fórum da Fundação da Alta Relojoaria (Forum de la Fondation de la Haute Horlogerie). Diante de um público de empresários, Emmott declarou-se preocupadíssimo com a « perda do sentimento de igualdade nas sociedades ocidentais e com a emergência de uma plutocracia hereditária » nestes países. O que o senhor quer dizer com isso, exatamente ?, perguntou-lhe um dos jornalistas presentes. « Quero dizer que nos países desenvolvidos hoje, a riqueza esta tornando-se cada vez mais hereditária, como foi o caso durante a Idade Média, e que o sentimento de que apenas contam os poderosos, os lobbies, os ricos, e as multinacionais ameaça a estabilidade nestes países», respondeu-lhe Emmott.


Estas palavras tomam uma dimensão particularmente forte porque elas não foram pronunciadas por um ativista, mas por um defensor convicto da economia liberal : Emmott acabou de publicar o livro « The Fate of the West. The Battle to Save the World`s Most Successful Political Idea” (O Destino do Ocidente. A Batalha para Salvar a Melhor Idéia Política. The Economist Books, 2017).


Elas também foram pronunciadas durante uma semana de grande debate na mídia internacional em torno do escândalo conhecido como “Paradise Papers” revelado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ)*. O Paradise Papers descreve os mecanismos por trás de esquemas massivos de sonegação de impostos utilizados sistematicamente pelos detentores das maiores fortunas mundiais e por grande parte das multinacionais. Sonegação esta que está intimamente ligada ao aumento das desigualdades socioeconômicas sobre as quais falava Bill Emmott.


Segundo o economista Gabriel Zucman, professor na Universidade de Beckerly nos EUA e autor de « The Hidden Wealth of Nations» (A Riqueza Escondida das Nações. University of Chicago Press, 2015), a sonegação de impostos em massa revelada pelo Paradise Papers constitui uma verdadeira economia paralela internacional, cujas principais consequências são a queda da receita dos estados, o aumento das desigualdades e da instabilidade financeira mundial.


Ele explica que a sonegação tem efeito direto no aumento das desigualdades socioeconômicas, não somente porque ela permite às grandes fortunas tornarem-se ainda mais ricas mas, sobretudo porque ela priva de financiamento os Estados, que são os principais vetores de redistribuição de renda via investimentos públicos em escolas, hospitais, transporte, etc.


Ao contrário dos escândalos financeiros precedentes revelados pelo ICIJ tais como o do “Panama Papers”, o Paradise Papers revela esquemas considerados em grande parte como totalmente legais.

Nestes esquemas muito mais sutis e sofisticados, advogados especializados em fiscalização são pagos para encontrar todas as falhas na legislação de cada país que permitem pagar o mínimo possível de impostos sem infringir a lei – é o que se chama « otimização fiscal ». O escândalo Paradise Papers, portanto, não é um escândalo legal, mas um escândalo moral.


Por que pagar impostos quando existem formas legais de evitá-los? A reposta a esta questão está intimamente ligada ao nível de adesão ao modelo social do país no qual a pessoa vive ou a empresa atua. « O problema com a maior parte dos sonegadores ultra-ricos é que eles continuam a beneficiar dos serviços providos pelo Estado com o dinheiro dos impostos que eles próprios recusam-se a pagar », explica um jornalista do jornal Le Monde e participante do ICIJ. « O escândalo Paradise Papers mostra que as empresas multinacionais e os ultra-ricos estão dispostos a tudo para não pagar impostos », acusa Pierre Moscovici, comissário europeu para questões fiscais.


Segundo Scott Galloway, economista e professor da New York University, em entrevista ao canal de televisão CNN, as empresas GAFA (Amazon, Apple, Google e Facebook) juntas geram 418 mil empregos, mas ganham mais de 200 bilhões de dólares anuais em valorização na bolsa de valores. Esta quantia é equivalente ao PIB da França, um país de 67 milhões de habitantes. « Por que não pagar impostos? », pergunta-se ele.


Historicamente, pagar impostos sempre foi um assunto controvertido, capaz de provocar guerras e revoluções. De forma geral, cidadãos considerados politicamente como “de direita” ou economicamente como “liberais” (como é o caso de Bill Emmott) defendem um nível baixo de impostos que seja atraente para os negócios e logo, para o crescimento da economia. Enquanto que cidadãos considerados “sócio-democratas”ou “de esquerda” não acreditam na capacidade de redistribuição de renda do mercado, e preferem que o Estado o faça, através de impostos mais consequentes. Nas últimas décadas, o equilíbrio entre os dois campos vem sendo afetado rapidamente, com a balança virando “grotescamente” (como denuncia Bill Emmott) na direção da redução de impostos. Resultado: os Estados estão falidos.


Segundo o economista Gabriel Zucman, 40% dos seus ganhos das multinacionais passam por paraísos fiscais. E os 0,01% mais ricos do mundo conseguem escapar de 30% dos impostos que eles deveriam ter pago. Estes investimentos em paraísos fiscais privam os Estados de 350 bilhões de euros por ano.


Países como a França e o Canadá, antigamente considerados como modelos de redistribuição de renda, perdem anualmente em torno de 20 bilhões de euros aos paraísos fiscais. E segundo o jornal, isto acontece com total conhecimento de causa da parte dos governos. « O problema é que os Estados deixam brechas mais ou menos voluntárias na lei, que podem ser exploradas pelos mais ricos. Enquanto isso o cidadão médio, que não tem acesso a estas brechas, paga seus impostos », explica um jornalista do jornal Le Monde e participante do ICIJ.


O exemplo do Canadá ilustra bem o problema da conivência dos Estados : em 2016, o terceiro parceiro comercial do Canadá foi a minúscula ilha caribenha de Barabados, um paraíso fiscal que não produz bens de consumo. Atrás somente dos Estados Unidos e do Reino Unido, e muito na frente da China, do Japão, da Alemanha ou da França.


Como explicar esta conivência? A perda de confianca nos Estados, o crescimento do individualismo e principalmente, a concorrência do « dumping fiscal » praticada ao longo das últimas décadas pelos paraísos fiscais são explicações palpáveis.

Há duas ou três décadas atrás, preconizava-se aos países sub-desenvolvidos a redução de impostos como forma de atrair negócios. Hoje, mesmo no seio da União Européia, países membros tais como a Irlanda, a Holanda, Luxemburgo e o Reino Unido são considerados paraísos fiscais na medida em que propõem condições fiscais que permitem a multinacionais tais como Google, Apple e Amazon vender seus produtos dentro do Mercado Cumum Europeu pagando quase zero impostos**.


É como se o mundo inteiro estivesse se transformando em um grande paraíso fiscal. Um paraíso onde o termo « otimização fiscal » é totalmente aceito e completamente desconectado do termo « sonegação». O paraíso de 0,01% de população e o inferno dos 99,9% outros.

* Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigativos reúne 400 jornalistas de 96 mídias e 67 países que apoiaram-se sobre mais de 13 milhões de documentos revelados ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung em 2016 provindos principalmente do escritório de advocacia internacional Appleby, baseado nas Bermudas, assim como de empresas baseadas em 19 paraísos fiscais no mundo todo.
**Em outubro a União Europeia exigiu que Apple e Amazon paguem seus impostos. No caso da Apple, a Irlanda foi condenada por não-recolhimento ilegal de 13 bilhões de euros da Apple. E no caso Amazon, Luxemburgo deverá recolher 250 milhões de euros. Em julho deste ano, após 7 anos de processo, a União Europeia condenou a Google a pagar uma multa de 2,4 milhões de euros por abuso de monopólio. Mas uma legislação fiscal comum européia resta ainda a ser criada.



Referendo na Catalunha : crise política divide a Espanha

A crise política espanhola tem raízes profundas, e pode contagiar a Europa. .

Em Barcelona, manifestcão pacífica de jovens catalãos no dia seguinte ao Referendum de independência.


Domingo passado, o referendo de autodeterminação da Catalunha levou 43% dos catalães às urnas para votar majoritariamente (90% dos votos) em favor da independência da região do Estado Espanhol.


A repressão violenta da polícia espanhola fez as manchetes do mundo todo. A imagem de uma senhora idosa, cabelos brancos manchados de sangue, ferida pelos policiais durante uma operação de confisco do material de voto tornou-se rapidamente o símbolo da pior crise política espanhola das últimas décadas.


« O que se passou na cabeça de Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol e chefe do governo, para pensar que uma repressão violenta do voto poderia resolver a situação? », perguntava o jornal Libération em seu editorial da segunda-feira. « Como chegamos a este ponto? » questionava o jornal suíço Le Temps.


Em 2010, segundo pesquisas de opinião, apenas 15% de população catalã era favorável à independência da Catalunha. Naquele ano, a grande maioria defendia uma posição intermediária entre a posição independentista do atual governo catalão de Carles Puigdemont e a posição nacionalista do governo espanhol de Rajoy.


Quatro anos antes, em 2006, esta posição intermediária, ou seja, o reconhecimento da existência de uma nação catalã no seio da nação espanhola, dotada de competências fiscais especiais, já havia sido formalizada e batizada de Estatuto Catalão (Statut Catalan).

Naquele ano, o governo do então primeiro-ministro José Luis Rodriguez Zapatero (socialista), havia reconhecido legalmente o estatuto, com o aval do partido catalão Esquerda Republicana (ERC), historicamente independentista.


No entanto, desgostosa com a adoção do Estatuto, a então oposição ao governo Zapatero, constituída principalmente pelo Partido Popular (PP, do atual primeiro-ministro M. Rajoy) entrou com um processo junto à Corte Constitucional a fim de invalidá-lo.


Em 2010, a Corte Constitucional espanhola invalidou 14 dos 226 artigos do Estatuto, abrindo assim a via para uma rápida mudança da opinião pública catalã. « Madri contribuiu para a radicalização dos independentistas catalães », explica Jean-Jacques Kourliansky, especialista de questões ibéricas do Instituto de Pesquisa em Relações Internacionais (IRIS-Paris).


Desde então, a Catalunha sente-se traída por Madri. O importante partido catalão Convergência e União (CiU, que tornou-se PdeCat em 2016), até então nacionalista, aliou-se ao ERC, apoiando a causa independentista.


Crise política e econômica


Dois fatores principais parecem ter contribuído para esta evolução rápida da opinião pública na Catalunha. Primeiramente o contexto econômico, com a profunda crise econômica espanhola que começou em 2008. Região mais rica da Espanha e com o menor índice de desemprego, a Catalunha passou a sentir-se injustiçada « por sustentar sozinha a crise espanhola ».


Politicamente, a ascensão ao poder do Partido Popular em 2011, apesar dos diversos escândalos de corrupção dos quais são acusados muitos dos seus mais altos responsáveis (escândalo Gürtel, por exemplo), contribuiu para multiplicar os mal-entendidos entre Barcelona e Madri.


Mariano Rajoy, homem político espanhol que passou mais tempo no poder (9 legislaturas enquanto deputado federal, 5 vezes ministro, 8 anos como chefe do seu partido) preferiu apostar na carta legalista e no diálogo de surdos. Jogaram em seu favor as diversas batalhas políticas travadas localmente, na Catalunha, em torno da acusação de corrupção de Jardi Pujol, homem político incontornável e principal defensor da causa independentista.

Espanha dividida


Domingo passado, ao utilizar a violência contra o referendo, o governo espanhol contribuiu para dividir ainda mais os espanhóis, obrigando-os a escolher um campo. A imprensa espanhola é um espelho desta divisão.

Enquanto os jornais conservadores acusam a Catalunha de «desobediência aberta aos tribunais" (ABC), de « ilegalidade » (El Mundo) e de "manipulação da informação (La Razón), os jornais de esquerda ressaltam « a crise democrática espanhola » (La Vanguarda) e «o dia de infâmias » (La Voz de Galícia).


« Medalha de ouro para a pior resolução política de uma crise do século XXI », ironizava Le Temps. « Porta aberta para as ambições independentistas Europa afora», alertava o jornal inglês The Guardian. “Este referendum propulsou a Europa em território legal desconhecido », apontava o jornal sueco Svenska Dagbladet. « Resposta lenta e tardia da União Europeia, como sempre quando se trata de um assunto importante » acusava The Daily Telegraph. O tom da imprensa europeia indica que a crise espanhola apenas começou, e que ela vai contagiar a Europa. Tudo é uma questão de tempo.


Títulos Catástrofe: o mercado financeiro e as mudanças climáticas

Investidores acompanham a previsão do tempo no mundo em vez da evolução das bolsas de valores.

MARTIN BUREAU/AFP
Foto mostra destruição na ilha francesa de Grand-Case, no Caribe

Nos últimos três meses, a natureza rebelou-se.

Os números são todos elevadíssimos e sem precedentes. O furacão Irma foi o mais forte furacão jamais registrado, 295 Km por hora durante 33 horas seguidas, causou a destruição de 90% da infraestrutura na ilha de Saint-Martin e fez estragos enormes em outras ilhas do Caribe, em Cuba e na Flórida (EUA).

Algumas semanas antes, o furacão Harvey causou estragos históricos no Texas (EUA). E, no México, um terremoto de 8,2 pontos na escala Richter, o mais forte do ultimo século, causou a morte de quase cem pessoas. E as fatalidades não param por aí.

Durante os meses de julho e agosto, monções fortíssimas inundaram mais de um terço do território total do Bangladesh e causaram a morte de 1400 pessoas no sudeste da Ásia e na Índia. No Níger, em junho e julho, chuvas com uma intensidade jamais vista (o país é propício às secas) inundaram as principais cidades, obrigando milhares de pessoas a deixar suas casas. No Canadá, em maio, mais de 90 mil pessoas foram evacuadas em Fort McMurray, cidade completamente destruída por um incêndio florestal que queimou 10 mil hectares.

Cientistas concordam em dizer que fenômenos meteorológicos extremos sempre existiram, mas que as mudanças climáticas acentuam a quantidade e a intensidade dos mesmos.

Segundo o Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres (CRED), ligado à Universidade Católica de Louvain (Bélgica), o número de catástrofes naturais ocorridas entre 2005 e 2014 foi quatro vezes maior do que entre o período entre 1970 e 1979.

Com tamanho nível de destruição, os custos de evacuação, socorro e reconstrução das regiões atingidas alcançam níveis recordes.

Segundo o Swiss Re Institute, empresa privada especializada em investimentos climáticos, o custo total do furacão Harvey (seguro + perdas econômicas) está calculado em torno de 100 bilhões de dólares.

E a Caisse Centrale de Reassurance (CCR-França), banco estatal especializado em resseguro, estima que o prejuízo com seguro nas ilhas francêsas do Caribe – Saint-Martin e Saint-Barthélemy, será de 1,2 bilhões de euro.

“Irma é a catástrofe natural mais cara da história da França”, afirma Laurent Montador, diretor geral adjunto da CCR. Segundo ele, apenas 40% dos estragos em Saint-Martin e 60% dos estragos em Saint-Barthélemy estavam cobertos por um seguro contra catástrofes naturais, o que significa que o prejuízo real será muito mais elevado.

Quem vai pagar a conta?

Até os anos 1990, quem pagava a conta dos estragos provocados pelas catástrofes naturais eram exclusivamente os Estados e as companhias de seguro. Mas com a falência de centenas de companhias de seguro americanas após a passagem do furacão Andrew, na Flórida, em 1992, causando 46 bilhões de dólares de perdas, surgiu a ideia de transformar contratos de seguro e resseguro em títulos financeiros, os chamados "catastrophes bonds" (títulos catástrofe), ou "cat bonds".

Os cat bonds são contratos de seguro transformados em títulos da bolsa. O emissor, (uma companhia de seguro, de resseguro ou mesmo um Estado) cria uma estrutura jurídica que vende os títulos e investe o ganho desta venda em produtos financeiros de baixo risco, pagando aos investidores uma taxa de juros.

Tratando-se de uma operação de risco elevado, pois o cálculo de probabilidade ligado aos fenômenos naturais em um determinado período contém um fator de imprevisibilidade, os juros pagos são elevadíssimos.

O investidor por outro lado, aposta que nenhuma catástrofe natural acontecerá em um determinado local e período. Se a catástrofe acontece, ele perde todo o seu investimento, capital e juros.

Segundo Reporterre.net, jornal especializado no meio-ambiente, além da remuneração em juros altos, o que atrai os investidores em cat bonds é a possibilidade de diversificar o portfolio : o investidor compra títulos cuja evolução está desconectada dos altos e baixos da economia mundial, do CAC40 ou do Dow Jones por exemplo.

Para seguir a evolução do seu investimento, o investidor acompanha de perto a previsão do tempo no mundo todo, ao invés de acompanhar a evolução das bolsas de valores. « Trata-se de especulação climática », estima o jornalista do Reporterre.net.

O que não impede o negócio de prosperar. Segundo Artemis, empresa especializada em produtos de seguro climático, mais de 10 bilhões de dólares de cat bonds foram emitidos este ano, dez vezes mais do que há 20 anos atrás.

E se até o início dos anos 2000 grande parte deste tipo de títulos eram emitidos pelo setor privado, com o aumento da dívida pública, os Estados também começaram a lançar mão desta solução.

A começar pelo Banco Mundial. Em junho de 2014, o BIRD – Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, ligado ao Banco Mundial, anunciava a criação de seu primeiro Cat Bond, destinado a cobrir os riscos de terremoto e de tempestades tropicais em 16 países do Caribe. E em agosto deste ano, o Banco Mundial gerou títulos catástrofe no valor de 360 milhões de dólares em favor do México.

Se o Banco Mundial parece poder prever catástrofes, resta saber qual será a reação do mercado financeiro, que deverá financiar as perdas elevadíssimas ligadas às catástrofes naturais dos últimos meses, especulando sobre as catástrofes futuras.




Coreia do Norte: só o diálogo pode conter um desastre

Para que sejam eficazes, as sanções econômicas devem ser dosadas e acompanhadas de outras medidas tais como a contenção da escalada da violência e a abertura de um diálogo sério conduzido por mediadores determinados..

Cogumelo nuclear

Os jornais dos últimos três dias no mundo todo já disseram: no domingo, 3 de setembro a Coreia do Norte testou uma bomba nuclear que, segundo cientistas independentes sul-coreanos, tinha uma potência de 100 quilotoneladas, ou seja, 7 vezes a da bomba americana que destruiu Hiroshima, há exatos 72 anos.

O teste, subterrâneo, teve um efeito equivalente a um terremoto de 6,8 pontos na escala Richter e foi sentido até no norte da China, na região compreendida entre as megalópoles de Changchun e Shenyang. Seus mais de 100 milhões de habitantes se perguntam desde então se Pequim controla realmente a relação com seu país vizinho e protegido, a Coreia do Norte.

Hoje, torna-se evidente que o mundo subestimou a capacidade técnica e o know-how nuclear da Coreia do Norte. Como escreveu um jornalista do jornal Le Temps (Genebra, Suíça), “passou o tempo em que os testes norte-coreanos faziam rir: a imagem de um líder coreano sorridente dentro de uma sala de controle vetusta parecendo ter sido fabricada com cartolina e massinha de modelar”.

E agora?

O Conselho de Segurança da ONU se reuniu nesta segunda-feira em caráter de urgência, a França e o Reino Unido, apoiados pela Alemanha, pediram a adoção de sanções econômicas ainda mais restritas das que haviam sido adotadas em agosto último, quando a Coreia do Norte testou mísseis anti-balísticos que sobrevoaram os céus do Japão.

Tais sanções incluem privar o país dos ganhos obtidos com suas exportações de chumbo, ferro e outros minerais e inclusive da pesca. Segundo cálculos do próprio Conselho de Segurança, essas sanções privariam a Coreia do Norte de mais de 10 bilhões de dólares anuais, à condição de que elas sejam realmente respeitadas, o que não tem sido o caso. Hoje, mais de 90% das exportações da Coreia do Norte são destinadas à China.

No entanto, tratar a ameaça nuclear norte-coreana exclusivamente através da imposição de sanções econômicas, o que vem sendo feito há mais de uma década, não tem produzido os resultados esperados.

Em 2003, quando a Coreia do Norte se retirou do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares – instância jurídica internacional regendo os países detentores de arma nuclear, este tipo de reprimenda foi utilizado, o que não impediu Pyongyang de continuar desenvolvendo e testando sua tecnologia.

Além disso, mesmo que as atuais sanções econômicas da ONU visem a elite norte-coreana, se aplicadas rigorosamente como exigiram os americanos nesta segunda-feira, elas riscariam de causar uma crise humanitária semelhante àquela dos anos 1990. Ou ainda de incitar a Coreia do Norte a vender sua tecnologia e know-how nuclear no mercado negro para arrecadar divisas, o que seria perigosíssimo.

Escalada retórica e militar

Para que sejam eficazes, as sanções devem ser dosadas e acompanhadas de outras medidas tais como a contenção da escalada da violência e a abertura de um diálogo sério conduzido por mediadores determinados.

No imediato, é urgente conter a escalada, tanto retórica quanto militar.

Foram necessárias apenas 24 horas para que a Coreia do Sul reagisse ao teste nuclear do Norte, lançando seus próprios mísseis em exercícios militares conjuntos com as bases americanas no país.

Segundo o jornal Le Monde, o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, em conversa telefônica nesta segunda-feira com o presidente americano, Donald Trump, fechou um acordo de princípio para a compra de equipamentos militares e armas americanas no valor de vários milhões de dólares. Segundo as estatísticas do SIPRI (Instituto de Pesquisa sobre a Paz, baseado em Estocolmo) este valor soma-se-ia aos 5 bilhões de dólares já gastos pela Coreia do Sul com a compra de armamentos americanos entre 2010 e 2016.

Enquanto a indústria de armamento ganha com a escalada militar, a península coreana transforma-se rapidamente em um campo minado.

A proposta feita pela China e pela Rússia ao Conselho de Segurança nesta segunda-feira vai no sentido da contenção da escalada militar. Liu Jieyi, embaixador chinês junto à ONU, pediu aos países membros que eles considerem “seriamente” a proposta da “dupla suspensão", ou seja, tanto dos testes nucleares e balísticos norte-coreanos quanto das manobras militares americanas na Coreia do Sul.

Há também a questão da escalada retórica, igualmente perigosa. “Está historicamente comprovado que em um conflito, a escalada retórica pode transformar-se em lógica real rapidamente”, explica o diretor do SIPRI, Dan Smith. “Prometer jogar o fogo e a fúria contra a Coreia do Norte como fez Donald Trump serve apenas a legitimar o programa nuclear coreano em âmbito nacional”, explica Antoine Bondaz, especialista da Coreia do Norte na Fundação de Pesquisas Estratégicas (Ifri), em Paris.

Diálogo sim, twitter não

Para além das sanções e da contenção, um terceiro elemento urge: a abertura do diálogo. A Rússia parece disposta a conduzir as negociações. E a Suíça também.

Em entrevista à imprensa estrangeira na segunda-feira, Doris Leuthard, President da Confederação Suíça, salientou que “a hora do diálogo chegou”, propondo que seu país, onde o atual líder norte-coreano Kim Jong-un viveu durante sua juventude, seja o terreno neutro onde este diálogo possa ser estabelecido. “O Twitter não é o instrumento mais adequado para resolver este conflito” martelou Leuthard.

Mas quem vai dialogar e sobre o quê?

Para o jornal francês Le Monde, "Trump e Xi devem assumir suas responsabilidades sobre a crise coreana". Especialistas concordam que somente uma frente sino-americana seria capaz de, se não de impedir Pyongyang de se dotar de uma arma nuclear, ao menos conter os efeitos desestabilizantes do seu programa nuclear na região e no mundo.

Desde que assumiu o poder após a morte de seu pai, Kim Jong-un deseja ser recebido pelo presidente americano e e pelo seu homólogo chinês. Ele vem fazendo pressão sobre Xi Jinping, presidente chinês, para que este apoie a entrada da Coreia do Norte no clube dos países detentores da arma nuclear. Um encontro com os americanos e os chineses consagraria sua legitimidade, abrindo a porta para um real diálogo.

Supondo que tal encontro se realize, a escolha do conteúdo destas conversas seria bastante delicada.

Desde 2006, as potências ocidentais (EUA, Europa) pedem o "desmantelamento completo e verificável do programa nuclear norte-coreano", mas este objetivo provou ser irrealista, pelo menos a curto e médio prazo.

Isto porque o programa nuclear norte-coreano está intimamente ligado à identidade do regime. Em 2012, o estatuto de "potência nuclear" foi mesmo inscrito na Constituição. “Se queremos dialogar com os norte-coreanos, não podemos querer falar de desnuclearização.”, explica Bondaz. “Os líderes norte-coreanos desde a primeira geração foram amamentados à base de nuclear”, afirma ele.

Por outro lado, reconhecer a Coreia do Norte como uma potência nuclear seria um desrespeito ao Tratado de Não Proliferação e um convite ao Japão e à Coreia do Sul, principais alvos norte-coreanos, a se dotarem de armas nucleares também.

Então, o que exigir dos norte-coreanos? Que eles não proliferem sua tecnologia, que não vendam sua matéria nuclear no mercado negro, e que não usem suas armas. Obter estes acordos já seria um alívio para todos nós.

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