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Mais Mundo

Às suas marcas ! Uma nova corrida armamentista vai começar

A Suécia anunciou este mês o retorno do serviço militar obrigatório. Nos EUA, a previsão é de um aumento de 9% nos gastos com armas e defesa. E na Europa, direita e esquerda afirmam em uníssono suas intenções de alocar mais verbas aos seus exércitos. .

Arquivo/OTAN
Soldados da OTAN

Seria este o fim de duas décadas de paz e amor?

Nos dez anos que seguiram a queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, os gastos com armas no mundo haviam caído em mais de 30%. Governos haviam concluído que a corrida armamentista desenfreada dos anos de Guerra Fria não era a melhor solução para a paz no mundo.

Desde então no entanto, diante da ausência de uma nova ordem mundial, vê-se o aumento gradual dos gastos governamentais com armas e com defesa. Entre 2012 e 2016, este aumento foi de 8,4%.

Guerras civis, caos no Meio-Oriente, aumento do terrorismo e de cyber-ataques, insegurança ligada aos fluxos migratórios, nacionalismo, são todos fatores que incentivam a opinião pública mundial a apoiar tais gastos. 

Na Europa, a ameaça de desengajamento dos Estados Unidos de Donald Trump dos acordos da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), é um dos principais motivos do aumento dos gastos com defesa.

A tal ponto que, em 2017, um surpreendente consensus direita-esquerda em torno da questão se delínea pouco à pouco. « A esquerda, em geral extremamente crítica do lobby da indústria de armas, será mais conciliante”, diz o jornal suíço Le Temps, referindo-se ao voto do novo projeto de defesa que será apresentado esta semana pelo ministro Guy Parmelin ao Conselho dos Estados Suíços , e que prevê altas com gastos. « Estamos longe dos anos 90, quando o Grupo por uma Suíça sem Armas tinha 35% de apoio da população».

Na Alemãnha, os dois principais candidatos à Chancelier (chefe do governo executivo) nas eleições deste ano, Angela Merkel (direita) e Martin Schulz (esquerda), pretendem aumentar o orçamento da defesa em 7% para atingir 2% do PIB alemão, « para garantir um papel mais importante junto à OTAN ».

Na França como na Alemãnha, direita e esquerda concordam no quesito « defesa ». Benoît Hamon, o candidato socialista à presidência, promete aumentar os gastos com « defesa e segurança » dos atuais 1,7% à 3% do PIB, sendo 2% para o exército. Emmanuel Macron, candidato do centro, quer um aumento gradual dos 1,7% atuais para 2% do PIB, assim como François Fillon, candidato da direita.

Deve-se dizer que os acordos da OTAN prevêem que os países signatários devem gastar pelo menos 2% do seu PIB com defesa, cláusula que a maioria dos países europeus não vinha respeitando, preferendo transferir gastos para outros setores em tempos de crise econômica e desemprego alto. Mas diante da ameaça americana de se retirar da OTAN, os europeus vêem-se obrigados à revers seus orçamentos.

O anúncio mais surpreendente no entanto, veio do governo socialista sueco, que não é membro da OTAN e que há mais de duzentos anos não participa de um conflito armado.

Este mês, a Suécia tornou obrigatório o servico militar. Esta medida será acompanhada de um aumento de 11% do orçamento militar atual, que é de 42 milhões de euros ou 1,1% do PIB (contra 2,5% do PIB em 1991.)

Assim, à partir de julho, mais de cem mil jovens suecos – meninas e meninos, nascidos em 1999, serão convocados para passar testes em linha. Segundo as respostas obtidas, o exército espera poder recrutar apenas os jovens com perfil voluntário, mas poderá obrigá-los a servir se o número não for suficiente para preencher as 4 mil vagas existentes.

O serviço militar, que havia sido profissionalizado em 2010 na Suécia, sofria da falta de interesse dos jovens, que em um país sem desemprego, preferiam as carreiras do setor privado, com salários mais altos.

Segundo o deputado liberal, Allan Widman, presidente da comissão de defesa no Parlamento sueco, em entrevista ao jornal Le Monde, « em um contexto de agressividade crescente por parte de Moscou, nós não podemos nos contentar de um exército fraco ».

A Suécia não tem fronteiras terrestres com a Rússia, mas divide com este país as margens do mar Báltico. Em 2014, um submarino não-identificado penetrou o arquipélago de Estocolmo e suspeitas foram de que tratava-se de um submarino russo. Além disso, a anexão da Criméia pelos russos enviou uma onda de insegurança aos países bálticos que contagiou também a Suécia.

Segundo sondagens, 62% da opinião pública sueca é a favor do retorno do serviço militar obrigatório. E a ameaça russa é vista como real.

O aumento significativo dos gastos com armas é hoje um dos raros pontos em comum entre os governos europeus de direita e de esquerda, assim como com a atual administração norte-americana. Donald Trump, já durante sua campanha presidencial, anunciou que vai aumentar o orçamento da defesa em 9% à partir de 2018. Às suas marcas : uma nova corrida armamentista vai começar !

Suécia: Ministra assina reforma e parodia Trump

A reforma, proposta ao Parlamento pelo governo sueco nesta última quinta-feira tem como objetivo atingir zero emissões de gás de efeito estufa em 2045..

  • A Vice-Primeira-Ministra da Suécia e seu ’’governo feminista’’ assinando reforma em prol do meio-ambiente
    Foto: Reprodução
  • A foto é uma paródia de Donald Trump e sua equipe
    Foto: Reprodução
A foto na qual Isabella Lövin, vice-Primeira Ministra e também Ministra do Meio-Ambiente, aparece assinando a reforma cercada de conselheiras mulheres fez um enorme sucesso nas redes sociais no mundo todo.
Isto porque ela e suas conselheiras apareciam exatamente na mesma posição em que Trump e seus conselherios, todos homens, estavam quando ele assinou, no dia 23 de janeiro, um decreto cortando o financiamento de ONGs que apoiam projetos envolvendo o aborto.
“Somos um governo feminista e isto é visível na foto”, disse Lövin, “mas cada um pode interpretá-la como quiser”, ironizou ela.
Para cumprir o objetivo da reforma, a Suécia deverá reduzir 85% das suas emissões, se comparadas com os níveis do ano de 1900. Os 15% restantes, segundo o documento, serão zerados via a plantação de florestas que absorvam emissões de gás carbono e também via o aumento de investimentos em projetos autosustentáveis no exterior.
Além disso, a reforma prevê que no término do seu mandato, o governo em atividade deverá apresentar ao Parlamento um relatório sobre a situação do seu "plano de ação em favor do meio-ambiente". Se aprovada, a reforma será aplicada à partir do 1º de janeiro 2018.
“A Suécia quer dar um exemplo para o mundo, em tempos em que os clima-céticos estão ganhando poder e influência novamente”, explicou o Primeiro-Ministro, Stefan Löfven, em encontro com a imprensa.
Löfven criticou abertamente a política sobre o meio-ambiente do novo president americano, Donald Trump. Trump, como você sabe, declarou que não acredita em mudancas climáticas. Ao tomar posse, ele confirmou que sua administração vai estimular as indústrias que utilizam combustíveis fósseis tais como o carvão e o petróleo, altamente poluentes.
Durante a entrevista, Löfven fez um apelo à União Européia para que tome a liderança mundial da luta contra as mudancas climáticas « agora que os Estados Unidos não estão mais em posicão de liderar ». Ele também aproveitou para parabenizar a India e a China pela decisão dos dois países de respeitar o Acordo de Paris.
« Esta deve ser a política mais ambiciosa de qualquer nação desenvolvida», martelou Löfven. « Aqueles que ainda querem investir em combustíveis fósseis serão perdedores a longo prazo », concluiu Isabella Lövin sem meias-palavras.
Ao que tudo indica, a Suécia pode tornar-se um contrapeso moral ao governo americano de Donald Trump. E sem perder o senso de humor.!

Reino Unido: Trump ou não Trump? Eis a questão

Protestos nas ruas indicam que a relacão do governo de Theresa May com a nova administração americana será muito mais problemática do que parece, sobretudo em tempos de Brexit..

Ben Stansall/AFP
Protesto em Londres contra a nova política de imigração de Donald Trump
“Vergonha à May” (Shame on May) dizia o cartaz colado por um manifestante na frente do nº 10 Downing Street, a sede do governo britânico em Londres.
Apenas dois dias após a sua visita ao presidente americano Donald Trump em Washington, que havia sido acolhida com bons olhos pela imprensa conservadora do Reino Unido, a primeira ministra Theresa May encontra-se em uma posição extremamente delicada.
Isto porque, horas após sua visita à Casa Branca, Donald Trump anunciou o seu veto a entrada nos Estados Unidos de refugiados e pessoas com nacionalidade de sete países de maioria muçulmana (Iraque, Iran, Somália, Síria, Yemen, Líbia e Sudão ). Este decreto é considerado pela comunidade internacional como uma medida racista, antimuçulmana e desrespeitosa do direito internacional.
May é acusada pelos britânicos de ter sido conivente com a decisão de Trump, uma vez que não a condenou, e de ter convidado de forma precipitada o presidente americano para uma visita de Estado ao Reino Unido no final deste ano.
Nesta segunda-feira, milhares de pessoas foram às ruas em todo o Reino para protestar contra o decreto anti-imigração assinado por Donald Trump.
Além disso, mais de um milhão e meio de assinaturas de apoio a um abaixo-assinado pedindo ao governo britânico para anular a visita de Estado do presidente americano, obrigaram o Parlamento a reunir-se para discutir do assunto ontem à tarde. (O Parlamento deve reunir-se sempre que um abaixo-assinado ultrapassa as cem mil assinaturas).
E os debates no Parlamento foram tão vigorosos quanto os gritos dos manifestantes nas ruas. Inflamado, Dennis Skinner, do Labour Party, chamou Trump de facista. Seu colega, Mike Gapes, chamou Theresa May de simples apaziguadora (Theresa the appeaser). Para o líder do Labour, Jeremy Corbyn, “se ela não cancelar a visita de Trump, Theresa May vai abandonar o povo britânico”.
“Sou o único a pensar que nossa primeira ministra, por razões políticas erradas, empurra ESTE HOMEM nos braços da nossa rainha?” twitava o ex-líder dos Liberal Democrats, Paddy Ashdown, referindo-se ao fato de que, tratando-se de uma visita de Estado, Donald Trump será recebido com a pompa máxima pela rainha e pelo seu filho, o príncipe de Gales.
A situação tornou-se tão delicada que o próprio campo político de May metralhou críticas ao governo. “Eu não estou nem aí para a relação especial com os EUA”, criticava a deputada conservadora Heidi Allen. “Alguns limites não devem ser infringidos”, dizia ela. Ben Howlett, conservador, defendia que “está claro que o decreto americano deveria ter sido condenado”, pedindo ao governo May que ele seja mais firme diante da administracão Trump.
Apesar da críticas, Theresa May já respondeu que não pretende mudar de idéia. “O convite foi feito e continua de pé”, afirmou.
Sua posicão no entanto esconde uma evidência: a relacão com a nova administracão americana será muito mais problemática do que parece, sobretudo em tempo de Brexit.
Sem o apoio da União Européia, May precisa mais do que nunca dos Estados Unidos, tanto comercialmente quanto politicamente.
Mas o Reino Unido discorda dos americanos sob vários aspectos. A começar pelo comércio, que é supostamente o pilar da relação que Theresa May deseja construir com os EUA. A posição protecionista de Trump não vai ao encontro do liberalismo econômico desejado pelos ingleses.
Além disso, Theresa May já se disse defensora da OTAN, organização vista como obsoleta por Donald Trump. E assuntos como as sanções econômicas contra Moscou, defendidas pelo Reino Unido, também riscam de dividir ingleses e americanos em um futuro próximo.
Para agravar esta situação delicada que toma ares de drama Shakespeariano, os europeus, criticados abertamente por Donald Trump, certamente não facilitarão as negociações dos termos de saída do Reino Unido da União Europeia se pensarem que Theresa May é amiga demais dos Estados Unidos.
Trump ou não Trump. A resposta pode custar caro para a primeira ministra britânica. Enquanto isso, membros de ONGs como Stand Up to Racism e Stop the War planejam “o maior protesto da história” que deverá coincidir com a visita de Trump à Londres. Este será talvez o ato II do drama de Theresa May.

As crianças apátridas do Estado Islâmico

Com as recentes derrotas da organização terrorista "Estado Islâmico" no Iraque e na Síria, a comunidade internacional deverá encontrar uma solução jurídica para as milhares de crianças nascidas em território ocupado pelo EI.

Jornal Ouest-France
As crianças apátridas do Estado Islâmico
Na semana passada, com a liberação da parte leste da cidade de Mossul (Iraque) das mãos da organização terrorista “Estado Islâmico” (EI), os jornais europeus têm mostrado fotos e reportagens sobre o retorno da vida ao ritmo normal.
Lojas reabrindo, mulheres tirando seus niqabs e suas burkas (ver o post de Mais Mundo “Biquíni X Burkini” para saber mais sobre estes trajes) e, principalmente, crianças voltando aos bancos das escolas.
Após dois anos de uma ocupação monstruosa pelo autoproclamado “califado” do EI e três meses de lutas e bombardeios intensos, trata-se é claro de uma bela notícia para estas crianças e suas famílias.
Mas, como explica a correspondente do jornal francês Le Monde em Mossul, as condições de vida na cidade continuam dificílimas.
Sabe-se que estas crianças foram expostas sistematicamente à violência, tanto nas ruas – assistindo às múltiplas cerimônias de decapitação e linchamentos públicos praticados pelo EI, quanto nas escolas obrigatórias do califado.
Estas “escolas”, frequentadas por criancas dos 6 aos 15 anos, aplicam o currículo imposto pelo « Ministério da Educação » do califato (Diwan al-Ta`aleem) e ensinam ideologia radical assim como matérias práticas como tiro, dessensibilização à violência e artes marciais para os meninos, e “como cuidar de um marido” para as meninas. Múltiplos testemunhos de estupro destas estudantes pelos soldados do EI foram divulgadas na imprensa.
Mas os problemas destas crianças não param por aí. Segundo a ONG internacional Human Rights Watch, as milhares de crianças nascidas a partir de 2012 (ano da expansão geográfica do EI) na área de 60 mil quilômetros quadrados situada entre o Iraque e a Síria e ocupada pelo califado, são apátridas.
Além disso, segundo a Fundação Quilliam, 31 mil mulheres estariam grávidas em território controlado pelo EI.
Embora instâncias do « Estado Islâmico » em Mossul e em Rakka (Síria) emitam certificados de nascimento, segundo o Human Rights Watch, estes certificados não são reconhecidos nem pelo Iraque nem pela Síria, nem pela grande maioria dos países estrangeiros de onde o pai ou a mãe destas crianças são originários.
No caso do Iraque, para que uma criança seja reconhecida, ambos os pais devem estar presentes, condição difícil de reunir em tempos de guerra. Mas, sobretudo, filhos de estrangeiros e filhos de soldados do Estado Islâmico não são reconhecidos.
No caso da Síria, as mulheres não transmitem a nacionalidade para os filhos, somente os homens. Quando os pais são soldados no front, ou foram mortos, ou são soldados estrangeiros do Estado Islâmico (muitos vindos da Líbia e da Turquia, mas também do Uzbequistão, da Arábia Saudita e de países europeus como a França, a Bélgica ou a Alemanha) a nacionalidade síria não é concedida.
Ser apátrida, explica o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados UNHCR), significa não ter acesso à direitos fundamentais tais como saúde, educação, e mais tarde, conta em banco e contrato de trabalho.
Segundo a jornalista iraquiana Ghazwan Hassan al-Jibouri, em maio de 2016, mais de 300 crianças não puderam inscrever-se nas escolas iraquianas porque tinham certidões de nascimento do « Estado Islâmico ».
As recentes derrotas do EI no Iraque e na Síria estão provocando a fuga de mães estrangeiras que começam a entrar em contato com seus Consulados com a intenção de voltar aos seus países de origem.
O reconhecimento legal dos filhos dos adeptos do regime terrorista “Estado Islâmico » é o primeiro passo para reeducá-los e integrá-los. É também a única via para uma paz durável na região.
Para saber mais :
https://www.hrw.org/news/2016/11/23/children-caliphate
https://www.quilliamfoundation.org/wp/wp-content/uploads/publications/free/the-children-of-islamic-state.pdf

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