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Cotidiano | Entretenimento Cinema

Cineasta da região, Ulisses da Costa prepara estreia em longa

Diretor de curtas premiados está preparando mais um filme, já com vistas a longa-metragem

Por Alecs Dall'Olmo
Publicado em: 01.08.2020 às 03:00 Última atualização: 01.08.2020 às 11:51

Fragmentos ao Vento - diretor Ulisses da Motta e as atrizes-mirins Lavínia Wendland e Gabriela Redieske Foto: Letícia Pacheco/Divulgação
Quando era criança ele brincava de imaginar filmes. Acreditava no filme dentro da cabeça, rodando. Ulisses da Motta transformou a imaginação em profissão. Dirigiu sete curtas: O Gritador (2006), Ninho dos Pequenos (2009), Kassandra (2013), Luz Natural (2015), Venatio (2016) e Pelos Velhos Tempos (2018). Todos rodados ou finalizados no Vale do Sinos. Todos eles premiados. Também fez dois documentários, Viva a Diversidade Cultural (2010) e Manifestação São Leopoldo 20/06/2013 (2013). No currículo ainda um curta pedagógico chamado Cecília e a Guerra dos Farrapos (2010). E de quebra trabalhou em outras funções em curtas de amigos como Os Olhos de Cecília (2015), de Victor Hugo Fiuza, rodado no Rio de Janeiro; e Quero Ir para Los Angeles (2019), de Juh Balhego. E no momento está trabalhando no sétimo filme, Fragmentos ao Vento: 1945. E essa obra faz parte de um projeto para chegar ao primeiro longa-metragem. A trama acompanha a história de uma mulher negra que vive na zona de colonização alemã em diferentes momentos da história. "Não faço cinema porque amo. Faço porque acredito", diz.

Como o cinema virou profissão?

Dizem que a gente não escolhe o cinema, o cinema é que nos escolhe. Não tenho essa pretensão toda, mas acho que o cinema era um caminho natural pra mim. Quando tinha seis, sete anos, eu era uma criança solitária e minha brincadeira era imaginar filmes. Decidi que era o que eu queria fazer com 14. Estou nesse caminho, com desvios e acidentes, até agora, prestes a fazer 43. É uma carreira em que se tem que batalhar bastante.

Como é lidar com tantas diferenças em um set?

É fascinante. Acho que o diretor de cinema é um espectador privilegiado. Ele está assistindo de camarote dúzias de artistas trazendo o melhor das suas aptidões e sensibilidades. Atores, fotógrafos, equipe de arte. Enfim, é belo ver cada membro da equipe se dedicando ao pequeno detalhe do qual é encarregado como se fosse a coisa mais importante do mundo. Ao diretor cabe a tarefa de ser a cola invisível desses talentos todos. Cada set dura 12 horas ou mais, fora toda a preparação e fora toda a pós-produção. Eu costumo dizer que é o "trabalho perfeito", que te exige ao máximo nos níveis físico, intelectual e psicológico.

Qual filme teu sempre te persegue?

Sempre é o filme que estou fazendo no momento. No caso, é o Fragmentos ao Vento: 1945. Ele está pronto, mas tem ainda toda a carreira dele em festivais, TV e exibições para cuidar nos próximos dois anos. Nossa ideia é que este curta seja uma ponte para os longas. Ele é parte de uma história maior que se passa em quatro épocas diferentes: os tempos de hoje, os anos 1970, os anos 1940 e na revolução de 1923. Cada segmento vai contar a história de um membro da mesma família. Da filha nos dias de hoje até os bisavós 100 anos atrás. É um projeto de fôlego. Cinema a gente não faz para agora, faz pensando em longo prazo. Precisa de planejamento e muito trabalho duro.

Qual a importância de incentivar o cinema?

Todos os países com indústria forte de cinema e de TV contam com políticas públicas. Mesmo nos Estados Unidos, que muita gente usa como exemplo de produção sem aporte governamental. Lá, os estados e cidades oferecem centenas de milhões de dólares por ano em incentivos para que as produções ocorram lá. Já notou que várias cidades americanas aparecem constantemente em filmes e séries? San Francisco, Miami, Houston, Filadélfia, Las Vegas. É por conta dos incentivos. Em outros países se dá o mesmo. A Coreia do Sul, que ganhou tudo no Oscar deste ano com o sucesso Parasita, tem políticas ainda mais amplas e protetivas. Porque nesses países se entende que a indústria audiovisual emprega muita gente e distribui recursos nas economias locais. É um investimento inteligente. No Brasil, a própria indústria se financia via Fundo Setorial, que é alimentado por cada produto audiovisual feito no País. Veja, pega o exemplo de Fragmentos ao Vento: 1945. É um trabalho pequeno, feito com recursos próprios. E mesmo assim demos trabalho para 80 pessoas, entre equipe, elenco e figuração. Deixamos dinheiro no comércio local dos municípios onde rodamos, além de contar com moradores locais como trabalhadores. Sem contar a valorização da nossa cultura, das nossas paisagens e do nosso turismo. Tivemos apoio institucional de três prefeituras que entendem a importância não cultural como também econômica de ter produção de cinema e TV dentro dos seus limites.

E o câncer?

Bom, em 2016 eu descobri que eu tinha um linfoma de Hodgkin, a mesma doença que meu pai teve na mesma idade que eu estava. A doença era bem agressiva e o tratamento durou três anos. Foram dezenas de sessões de quimioterapia, radioterapia, várias internações, duas cirurgias para biópsia e um transplante de medula óssea. Estou em remissão vai fazer dois anos. Enfrentei tentando ter foco para atravessar essa jornada. Confiando demais na equipe de médicos, enfermeiros e funcionários do SUS que me atenderam e me cuidaram. Tentando manter o bom humor e saber tirar humor e ensinamentos de cada história que me acontecia. Recebi muito carinho, muito afeto e compreensão das pessoas à minha volta e posso dizer que virei uma pessoa mais amorosa. Tive o suporte fundamental da minha esposa, Lucy. Também tinha uma motivação a mais: precisava vencer a doença por mim e pelo meu pai. Está dando certo.

Um filme especial e qual gostaria de ter dirigido?

Eu sou um apaixonado pelo romance de 1995 Antes do Amanhecer, que dá início a uma trilogia simplesmente perfeita. Vive no meu coração. Eu acho que gostaria de ser um pioneiro do cinema mudo, que qualquer coisa que fizesse fosse novidade. Ou então viver cinco décadas atrás e dirigir um filme B de fantasia com efeitos visuais de stop-motion, como Jasão e os Argonautas. Desde criança amo mitologia grega, como meu nome já indica, né?.


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