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Cotidiano | Entretenimento Entrevista

Ele é o super-herói dos colecionadores

A gente bateu um papo sobre gibis com o jornalista Hiron Goidanich, o Goida, autor da pioneira Enciclopédia de Quadrinhos, que faz 30 anos

Por Leandro Domingos
Publicado em: 29.08.2020 às 03:00

GOIDA Foto: LEANDRO DOMINGOS/GES-ESPECIAL/arquivo
Há 30 anos, a Internet, como conhecemos hoje, bastando alguns cliques no teclado para garantir o acesso rápido às informações, era algo visto só nos filmes de ficção científica. Em 1990, trabalhos de pesquisa eram concluídos em bibliotecas, o tema de casa era auxiliado por almanaques e o livro era sinônimo de conhecimento absoluto. Foi quando o jornalista e crítico de cinema Hiron Goidanich, o Goida, lançou-se em um desafio à frente de seu tempo. Criar uma “Enciclopédia de Quadrinhos”, catalogando autores ao redor do mundo, três décadas antes que o Homem de Ferro e os Vingadores arrastassem multidões às salas de cinema. “Naquela época gibis e super-heróis eram coisa de criança”, lembra. “As pessoas não sabiam que os quadrinhos eram uma fonte riquíssima, muito além dos homens de capa voando para salvar donzelas em perigo”, aponta.


Supercolecionador

Lançada pela editora L&PM, a audaciosa Enciclopédia dos Quadrinhos tinha 400 páginas, contendo 1.100 verbetes a respeito de autores dos quatro cantos do mundo. Pode-se questionar como o Goida conseguiu reunir o material. Aos 86 anos, o veterano jornalista gaba-se de ser, possivelmente, o gaúcho com o maior número de gibis na estante. Goidanich conta com um acervo com mais de 20 mil unidades, reunidas ao longo de uma vida inteira como colecionador. Há desde aventuras da Turma da Mônica até as mais arrojadas obras de erotismo produzidas por artistas italianos.

A maior parte do acervo tem biografias sobre os autores, coletadas em vários países. “A editora me pediu na época para traduzir um dicionário de quadrinhos escrito por um autor francês. Respondi a eles que o livro não era bom e que poderia fazer muito melhor. E fiz”, conta. A Enciclopédia de Quadrinhos foi destaque nos maiores jornais do Brasil. O jornal Folha de São Paulo, por exemplo, destacou a coragem do autor até por dar destaque a autores nacionais que até os brasileiros desconheciam. “Naquela época existia um preconceito sobre o jornalista ler quadrinhos”, recorda. “Porém, sempre vendi a ideia que os gibis eram aperitivos de leitura. E há pratos que são uma delícia.”

Entre 1996 e 2004, Hiron Goidanich colaborou como colunista do jornal ABC, para onde levou sua paixão pelo cinema e pelas histórias em quadrinhos. Nas páginas do ABC, Goida destacava os trabalhos de autores como Frank Miller, Neil Gaiman, Milo Manara, além de clássicos como Conan e Tex. O trabalho nas páginas de cultura do ABC colaborou decisivamente para que o jornalista nunca deixasse de se atualizar e consumir compulsivamente quadrinhos, razão pela qual ele resolveu ampliar a Enciclopédia, em 2010. Goidanich aproveitava o espaço no periódico tanto para relembrar o relançamento de grandes obras quanto para dar destaque a lançamentos de jovens talentos que começaram a aparecer. "O espaço que eu tinha era livre e maravilhoso. Não havia qualquer restrição ao conteúdo publicado. Então, além da coluna, houve oportunidade também para reportagens maravilhosas sobre autores e obras."

Com este reforço, após a aposentadoria, e contando com o auxílio do também jornalista André Kleinert, ele conseguiu fazer o livro pular das 400 páginas originais para 539. "Era uma outra época e foi um prazer imenso voltar ao material original", relembra. Quando fala tratar-se de uma "outra época", Goida quer dizer que os gibis já eram vistos de forma diferente no começo da década passada. Afinal, o Batman vivido pelo ator Christian Bale e os Vingadores, encabeçados pelo astro Robert Downey Jr, já arrastavam multidões às salas escuras. "É mágico até hoje entrar em uma sala de cinema para ver estes personagens todos em movimento", se emociona. "Nunca pensei que veria o Stan Lee, que era conhecido só dos leitores de quadrinhos, se transformar em alguém tão popular assim. Isso foi incrível." Em isolamento em casa por causa da Covid-19, Goidanich conta estar lutando contra o Alzheimer. O hábito de ler HQs, entretanto, continua sendo mantido. "É sempre um prazer recorrer até as estantes e me aventurar entre quadros, desenhos, balões e onomatopeias."


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