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Entidades assinam campanha contra o preconceito nos estádios

Federação Gaúcha de Futebol, Polícia Civil, Ministério Público e Ordem dos Advogados do Brasil pretendem conscientizar e reprimir casos de discriminação no futebol Reportagem: Susana Leite

O futebol - a paixão nacional - assume também contornos de ódio dentro dos estádios. O cidadão do sexo masculino, jovem, branco e hétero dificilmente é alvo de injúria no ambiente das torcidas. Mas qualquer pessoa fora desses padrões encontra-se num ambiente hostil seja na arquibancada, seja atuando em campo. O preconceito racial, homofóbico e o assédio a mulheres estão enraizados não só no futebol, mas na sociedade dizem autoridades e especialistas no assunto. Mas agora o jogo começa a virar.

Entidades como a Polícia Civil (PC), a Federação Gaúcha de Futebol (FGF), o Ministério Público (MP) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) formaram um time para enfrentar todas as formas de preconceito que se reproduzem dentro dos estádios no Rio Grande do Sul. Mais do que uma campanha publicitária é uma forma também de encorajar as pessoas a denunciarem os casos de ofensas, através da Campanha Contra o Preconceito nos Estádios.

A chefe da Polícia Civil do Estado, a delegada Nadine Anflor, que estará hoje na assinatura do termo de cooperação da campanha, na sede da FGF, explica que a ação tem o objetivo não só de conscientizar o público que frequenta os estádios, mas também de receber e investigar as denúncias de todo tipo de preconceito. "A polícia está bastante engajada. Vamos colocar um disque denúncia, para que as pessoas possam se manifestar de forma anônima, e com essas informações possam dar um norte para as investigações policiais. Estamos engajados não só com o preconceito racial, mas todos os tipos de preconceito, a todas as pessoas que são vulneráveis dentro dos estádios", explica.

Como surgiu

O presidente da FGF, Luciano Hocsman, iniciou a gestão da entidade com a missão de encarar uma realidade que até hoje passa silenciada no meio esportivo. Hocsman explica que ao analisar o cenário do futebol mundial e também a orientação da FIFA, que estabelece orientações em seu estatuto sobre o banimento de todo tipo de preconceito, decidiu que a Federação tomaria partido. "A campanha foi apresentada no congresso técnico que fizemos em novembro, foi lá que a lançamos. Depois, recebemos o apoio desses órgãos, como a Polícia Civil, a OAB e o Ministério Público", explica.

Hocsman garante que a iniciativa contra o preconceito será contínua e de forma abrangente. O emblema da campanha estará em todos os jogos da Federação, em todas as divisões. "Nossa intenção é para que haja conscientização e atuação em conjunto para que chegue o dia em que não precisamos mais conversar sobre preconceito no futebol. Acredito que o que estamos fazendo aqui seja inédito no Brasil", destaca o presidente da FGF.

 

Em conjunto

Depois do debate interno na FGF, conta Hocsman, o MP procurou a entidade manifestando o interesse de encabeçar a campanha contra o preconceito. A partir dessa conversa, a Polícia Civil e a OAB foram incluídas. "A delegada Nadine prontamente aderiu. A participação da Polícia nos pareceu coerente porque precisávamos de um meio para encaminhar as demandas", explica Hocsman. A Campanha Contra o Preconceito nos Estádios será formalizada hoje na sede da FGF.

FGF divulga canal de disque-denúncias

A Campanha Contra o Preconceito nos Estádios informará o público, em especial as pessoas frequentadoras de estádios de futebol, que ao se calarem diante desses fatos criminosos e omitindo-se de denunciar, estarão contribuindo para que isso continue ocorrendo. As denúncias poderão ser feitas pelo WhatsApp (51) 98444-0606. Conforme Hocsman, o mote da campanha destaca que o combate ao preconceito é uma ação coletiva, por isso evidencia a palavra "Juntos".

 

Para servir de exemplo aos filhos

Márcio Chagas Foto: Dani Villar/TEDx Unisinos
O ex-árbitro Márcio Chagas da Silva representa um dos casos mais emblemáticos de ofensa racial no futebol. Em março de 2014, ele apitava um jogo em Bento Gonçalves, entre Esportivo e Veranópolis. Após a partida, o juiz encontrou o carro amassado e com bananas em cima. O veículo estava no estacionamento privativo do clube. Aquela não havia sido a primeira ofensa que Márcio sofrera, mas foi a partir dali que ele rompeu o silêncio.

"O que me encorajou foi pensar nos meus filhos. Eu tenho que educá-los ensinando que eles são iguais as outras pessoas. Se eu me omitisse e ficasse calado não estaria contribuindo para essa luta", justifica o ex-árbitro. A ação se arrastou por cinco anos e a indenização foi paga no ano passado, R$ 15,7 mil.

Para Márcio, uma campanha como esta lançada hoje "demorou para acontecer", mas ele espera que as ações sejam além da publicidade. "Nesses últimos cinco anos, vi que os casos de racismo no Rio Grande do Sul são maiores que em outros lugares do País. Espero que essa campanha tenha surgido por vontade própria e não por cumprimento de uma obrigação", comenta.

Reduto de uma masculinidade frágil

Presidente do Magia Futebol Clube Foto: Carlos Renan Evaldt
Em 2005, um grupo de amigos resolveu se unir e disputar partidas amadoras, com o único propósito de se divertir. Nascia o Magia Futebol Clube. O clube levanta a bandeira LGBT, luta pela igualdade, pelo respeito e os direitos individuais. Hoje o Magia engloba voleibol masculino e futebol feminino. O presidente, Carlos Renan Evaldt, reconhece que os estádios são ambientes hostis se o torcedor manifesta a orientação sexual. "Frequento (estádios), mas, por exemplo, é inimaginável ir com namorado e ter demonstração de afeto", afirma. "O futebol é um ambiente hostil até para mulheres que estão trabalhando, imagina para homossexuais que ousam adentrar ao último reduto de uma masculinidade heteronormativa frágil", completa Evaldt. O presidente do Magia Futebol Clube reconhece que uma campanha contribui para minimizar o preconceito, mas ele acredita que a grande mudança venha da educação. "A polícia e a Justiça irão agir após o ato violento ocorrer, ou como órgão repressor. A grande mudança deve ocorrer em casa, nas escolas, nos ambientes de convívio comum, onde as novas gerações podem ser orientadas a respeitar as diferenças", argumenta.

 

Em relação às vítimas das ofensas racistas

Dos 52 casos que dizem respeito à discriminação racial: em 33 deles as vítimas são atletas; em 3 as vítimas fazem parte do quadro de arbitragem da partida; em 1 caso a vítima é um policial que prestava serviço no jogo; em 3 o agressor faz referência a uma coletividade (no caso de pessoas negras); em 12 deles as vítimas são torcedores de clubes de futebol.

Ação da Justiça Especializada do Torcedor

A Promotoria Especializada do Torcedor tem atribuições perante o Juizado do Torcedor e Grandes Eventos da Comarca de Porto Alegre, bem como em feitos extrajudiciais e judiciais decorrentes do Estatuto do Torcedor. Nos estádios, a Promotoria está presente em todos os jogos realizados no Estádio Beira-Rio e Arena do Grêmio, em Porto Alegre.

Temporada de 2019 teve recorde de casos de racismo no Brasil

A campanha contra o preconceito ocorre num momento em que cresceram os casos de racismo no futebol, conforme os dados apurados pelo Observatório da Discriminação Racial. De acordo com o diretor-executivo da entidade, Marcelo Medeiros Carvalho, o último ano teve 56 casos de injúria racial. São 12 a mais que em 2018 para o mesmo tipo de crime. A organização contabiliza os dados desde 2014.

Carvalho explica que esse aumento é justificado por dois fatores: primeiro o momento político e social no Brasil e no mundo, em que há mais manifestações de intolerância, e, em segundo lugar, pelo aumento das denúncias. As pessoas estão se silenciando menos. "Hoje tem mais conscientização tanto do público de torcedores, quanto dos atletas, e a gente percebe nas falas. Sempre ocorreram casos de racismo, mas sempre se silenciava, hoje nem tanto", analisa.

Mas Carvalho pondera que embora se perceba uma mudança de postura no comportamento, o racismo ainda é persistente não só nos casos mais evidentes de ofensas que partem da torcida, como também no racismo institucionalizado dentro do futebol. "os negros no futebol estão em grande maioria dentro das quatro linhas, eles ainda ocupam pouquíssimos cargos de comando", completa Carvalho.

Tanto Carvalho, quanto o ex-árbitro Márcio Chagas denunciam que existe um "código de silêncio" sobre o racismo no futebol. "É um tema bastante evitado, tenta-se 'passar pano'. Do contrário, é uma exposição muito grande. O racismo é um dos casos em que a vítima é tachada de baderneira", afirma Márcio Chagas. 

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