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Lixo da RGE, no escritório dela

Por Aurélio Decker
Última atualização: 02.12.2019 às 05:00

Sexta-feira, perto do meio dia. Estava agachado com um dos joelhos na calçada, bem na esquina da Pedro Adams com o Calçadão, na frente do antigo Café Avenida. Um calor desértico, sentia o suor escorrer embaixo da camisa de mangas cumpridas, e acima delas havia um casaco. Eu estava de terno. Tentava pegar um pequeno arame no chão entre muitos outros, quando notei, ao lado dos meus sapatos, um coturno de brigadiano. Olhei pra cima e ele, um jovem soldado, portando uma metralhadora, olhava pra baixo. Levantei, me perguntou o que eu e a Diana Mendel (que empunhava uma filmadora) estávamos fazendo. Contei pra ele que estávamos recolhendo os fios e arames e pedaços de canos e plásticos.

O lixo que existem nas calçadas e as vezes no leito da rua, fruto das ampliações, conserto ou manutenção da feiosa malha de fios que a gente vê de poste em poste. Ao mostrar pra ele o monte de fios que Diana e eu já tínhamos recolhido, fui sincero: "Agora vamos pegar, no carro, mais fios e arames, e levar no escritório da RGE. Este lixo é da RGE, pois ela, dona dos postes, cobra o aluguel de diversas empresas pelo uso, mas não fiscaliza, como é a sua obrigação. O senhor quer ir junto? Vamos lá no escritório da RGE entregar."

Não é cena para o Centro revitalizado de uma cidade. Nos bairros a situação de casos ainda mais graves.

O brigadiano conversou com um colega, depois com uma colega e me disse que a gente deveria esperar. Foi calmamente até uma viatura (havia duas perto de nós) com a minha identidade em mãos (nos apresentamos como jornalistas) e após alguns minutos retornou. O olhar dele não era mais intimidador, mudou, ele sorria, desculpou-se pelo tempo da verificação do documento, me deu um aperto de mão, pra Diana também, e saiu de maneira gentil. Ué? Mas cumprimentei ele pelo trabalho. Uma dupla recolhendo fios, poderia ser furto. Ele disse que a Brigada havia sido avisada que nós estávamos recolhendo fios em postes na Bento Gonçalves, mas só nos localizaram na Pedro Adams.

Meia hora depois, com a presença também de Uaina Altenhoffen, que filmou a ação, Diana, eu e também a Suélen Flesch entramos no escritório da RGE. Eu estava com os fios enrolados no meu corpo, mal e mal se via meu terno e gravata. Entrei dizendo em alto e bom som que estava ali para devolver uma ínfima parte do lixo que existe pela nossa cidade e que, como eu havia prometido e cumprido na semana passada, essa seria a segunda entrega de lixo a quem insiste em fechar os olhos para a realidade.

Quarenta e três mil pessoas viram (até agora, 18 horas de sexta, dia 29), no Facebook, o vídeo que fizemos semana passada da primeira entrega do lixo. Mais de 1,2 mil compartilhamentos, 538 comentários e 1,2 mil curtidas. Números expressivos para uma página paroquiana de interior, mas parecem estar dizendo que Novo Hamburgo decidiu dizer NÃO a esta esculhambação geral.

Diversas empresas usam os postes e pagam pelo uso, mas o serviço se caracteriza por matação injustificável. Na frente do Bradesco (Bento Gonçalves com Joaquim Nabuco) quatro longos canos, quebrados em suas bases sobre uma calçada esburacada, estão apoiados só pelos fios. Não é cena para o Centro revitalizado de uma cidade. Nos bairros a situação de casos ainda mais graves.

A RGE faz vistas grossas, mas agora poderá se ver com a Justiça. O Procurador da República Celso Tres vai exigir informações sobre os contratos existentes entre as empresas e quais as razões de ninguém assumir o recolhimento do lixo gerado. Pediu que a gente gravasse o vídeo do dia 22 e o de hoje, dia 29, quando escrevo a coluna como adianto. Vai anexar aos demais documentos do tema RGE.


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