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Sétima das Artes

Máquinas Mortais e Peter Jackson

Um panorama da carreira do cineasta nos últimos 15 anos, chegando à sua nova produção
10/01/2019 19:56 11/01/2019 09:27

Há 15 anos atrás, no início de 2004, o mundo era de Peter Jackson. O cineasta neozelandês recém lançara a terceira parte da trilogia de O Senhor dos Anéis, O Retorno do Rei. Louvado pela crítica, o título arrecadaria mais de US$ 1 bilhão de dólares (US$ 1,119 bi, pra ser mais exato) mundo afora, sendo o segundo filme a ultrapassar essa marca na história. Em breve, O Retorno do Rei ainda seria honrado pela Academia ganhando todos os 11 Oscars aos quais fora indicado, tornando-se um dos maiores vencedores de todos os tempos. 

Jackson entrava no Olimpo de Hollywood. Dirigira, produzira e escrevera a trilogia que mudou paradigmas do cinema da época. Para os cinéfilos, passou a ocupar um lugar ao lado de outros titânicos mestres da fantasia, como Steven Spielberg, George Lucas e James Cameron.  

Porém, desde então, o diretor tem trilhado um caminho para baixo da colina. Desde esse ápice, seu poder (ou criativo, ou mercadológico, ou ambos) desce lenta, porém constantemente. Aquele prestígio obtido há uma década e meia tem sido frequentemente posto à prova.  

Logo após O Retorno do Rei, Jackson e seus colaboradores (nos quais se destacam a roteirista e produtora Fran Walsh e a roteirista Phillipa Boyens) mergulharam no projeto dos sonhos do cineasta: uma nova versão do clássico King Kong (de 1933, que já tinha sido refilmado em 1976). A nova obra parecia perfeita para dar continuidade ao reinado dos neozelandeses nas bilheterias da década passada. 

O Kong do diretor veio com força total ainda em 2005, quase a reboque da trilogia da Terra-Média. Apesar de amealhar mais três Oscars e da recepção muito favorável da crítica, por algum motivo o filme falhou em entrar no radar do público. Talvez a duração de três horas fosse excessiva, apesar das sequências espetaculares de ação. Ou ainda a palpável reverência de Jackson ao original não encontrasse eco além do público aficionado pelo King Kong de 1933. 

Com um estrondoso orçamento de mais de US$ 200 milhões, a fita fez US$ 550 milhões de bilheteria. É o bastante para ter alguma margem de lucro nos cálculos de Hollywood. Contudo, um tanto insuficiente para um cineasta que lançara há pouco uma trilogia que rendera cerca de US$ 3 bilhões. 

Em si, não seria um grande percalço. É comum um cineasta deste porte encarar reveses de bilheteria. Spielberg, por exemplo, amargou o fracasso da comédia 1941 - Uma Guerra Muito Louca logo depois da glória de Tubarão e Contatos Imediatos de Terceiro Grau. A comparação com o colega tem seu motivo: eles cruzarão caminhos em breve. 

Jackson retornaria à tela grande somente em 2009, ano em que ele viveu a dualidade de viabilizar um surpreendente projeto independente e fracassar de maneira amarga com uma produção mais pessoal.

Em agosto, chegava nas telas norte-americanas Distrito 9, coprodução entre África do Sul e Austrália. O filme era uma ideia do estreante em longas Neil Blomkamp e foi financiada por Jackson, que tirou US$ 30 milhões do próprio bolso. Misturando ficção-científica, linguagem de documentário e crítica social, Distrito 9 rendeu sete vezes mais do que seu investimento nos cinemas, ganhou plena aprovação da crítica e ainda recebeu quatro indicações ao Oscar.  

Em tudo contrário a Um Olhar do Paraíso, direção de Jackson lançada em dezembro daquele ano. Era um filme menor e mais intimista, para fugir um pouco da grandiloquência dos blockbusters anteriores. A primeira barreira foi a crítica, que de modo geral detestou a tentativa. A despeito de uma indicação ao Oscar, as bilheterias também responderam mal e a produção acabou no vermelho. 

Ao mesmo tempo em que fazia Um Olhar do Paraíso e agia como mecenas de Distrito 9, entretanto, o neozelandês trabalhava em duas franquias com grandes realizadores que tinham tudo para lhe fortalecer o crédito. É aqui que seu caminho e o de Steven Spielberg se encontram. É aqui, também, que ele vai colocar sob sua asa criativa (temporariamente) outro deus da fantasia, o mexicano Guillermo Del Toro. 

Com Spielberg, Jackson se dedica a uma nova trilogia. O projeto em questão era adaptar para o cinema as histórias em quadrinhos de Tintin, personagem criado pelo quadrinista belga Hergé e de quem Steven possuía os direitos há muito tempo. O veterano diretor planejava fazer filmes com técnicas de animação, e Jackson tinha ampla experiência com a técnica de motion capture. Nas suas obras anteriores, usara o recurso para dar vida a Gollum em O Senhor dos Anéis e ao próprio King Kong. 

Motion capture era a palavra da vez em Hollywood. A técnica permite que um ator, usando uma roupa especial, tenha seus movimentos e até expressões registradas digitalmente. Apesar de várias tentativas de filmes feitos com a técnica nos anos 2000, foi James Cameron com seu Avatar (2009) que deu o salto necessário: não só um resultado final verossímil, como o sucesso de bilheteria do tipo que aguça o interesse dos estúdios. 

No que tange a Tintin, o acerto entre Spielberg e Jackson abria o apetite dos fãs de aventura: Steven dirigiria o primeiro da leva, Jackson o segundo; o terceiro teria direção conjunta de ambos. As Aventuras de Tintin estreou em 2011 e, mesmo com boas resenhas na imprensa, não foi o estouro de bilheteria que se prometia pelos nomes envolvidos. Modestos US$ 374 milhões de bilheteria global foram o bastante para empatar os custos.

Desde então, a dupla afirma constantemente que os demais filmes com Tintin acontecerão. Mas até o momento, nem mesmo o roteiro da continuação está escrito. A má performance comercial pode ter sido um dos motivos. Outro fator que atrapalhou com certeza foram os problemas da outra franquia que Jackson desenvolvia (aquela com Guillermo del Toro). 

Era O Hobbit, que deu tempos infernais ao diretor. 

A produção já era suficientemente complicada com a falência da MGM (estúdio que detinha os direitos do livro), passando por problemas com a legislação trabalhista da Nova Zelândia, onde a nova aventura da Terra Média mais uma vez seria rodada. No fim, o festejado mexicano acabou sendo afastado do comando da franquia e Peter Jackson anunciou que tomaria seu lugar.

Oficialmente, del Toro se desligou por querer se dedicar a outros projetos -- e O Hobbit estava há anos tomando sua atenção exclusiva. Com Jackson no comando, o que seriam dois filmes viraram três. Lançada entre 2012 e 2014, a nova saga da Terra-Média fez quase a mesma bilheteria de O Senhor dos Anéis, próximo de US$ 3 bi. O orçamento, porém, foi muito maior: calcula-se algo perto de US$ 750 milhões para o trio de títulos. Muito mais do que o gasto para a trilogia original, que custou US$ 270. 

Apesar da animação de alguns fãs, a crítica foi morna. Jackson foi acusado de ser ganancioso ou, no mínimo, auto-indulgente em transformar um livro de 300 páginas em três filmes de mais de 2h30 cada. O pretenso salto tecnológico prometido com o uso de câmeras de alta velocidade, que filmavam com o dobro de quadros por segundo, não caiu nas graças da audiência. Ao contrário da influência de O Senhor dos Anéis, as três partes de O Hobbit hoje estão cada vez mais esquecidas.  

Informações mais recentes dão conta de que Jackson, na verdade, é um culpado menor. As empresas que financiavam o filme desconfiaram que a visão que Guillermo del Toro daria à história seria muito diferente daquela vista em O Senhor dos Anéis, e acharam que isso poderia comprometer a bilheteria. O mexicano deve ter sido demitido, enquanto que Jackson sofreu toda a pressão para assumir e deixar o produto familiar ao público. 

O resultado é de um diretor desinteressado, que aceitou a tarefa por obrigação. Uma das armas de convencimento usada pelos executivos foi ameaçar a retirada da produção da Nova Zelândia. Jackson se comprometeu a fazer a nova trilogia no país natal (mesmo que, a longo prazo, as mencionadas mudanças na legislação causaram problemas para os profissionais locais). 

Em pouco mais de dez anos, o cineasta colocou todo o seu capital como realizador para ser desgastado. Desde então, o único filme que dirigiu foi o documentário They Shall Not Grow Old ("Eles não envelhecerão", em tradução livre). Lançado ano passado no Reino Unido em celebração ao cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial, a obra traz imagens de arquivo do período, colorizadas e sonorizadas pelo diretor. Jackson, neto de um combatente do conflito, diz que esse é seu trabalho mais pessoal. 

O que nos traz a Máquinas Mortais (2018), que estreia hoje. Além da produção, Jackson também assina o roteiro com suas colaboradoras usuais, Fran Walsh e Phillipa Boyens. Para a direção, outro colaborador de longa data, Christian Rivers (que estreia na função em longas). A produção adapta um livro de Phillipe Reeve e parece ter a intenção de colocar a Nova Zelândia de volta ao mapa dos blockbusters. 

Máquinas Mortais é tecnicamente impecável, com efeitos visuais excelentes. A própria presença de Jackson como roteirista e produtor garante isso. A história se ambienta num futuro remoto, onde as cidades se movem em grandes máquinas e estão em guerra entre si. A protagonista é Hester Shaw (Hera Hilmar), uma jovem com cicatrizes no rosto que busca se vingar do governante de Londres, Valentine (Hugo Weaving). 

O problema do filme é que seus elementos são muito genéricos e recorrentes. Lembra quase toda a adaptação recente de produtos literários para jovens adultos, de Jogos Vorazes a Harry Potter. No terceiro ato, as referências a Guerra nas Estrelas são tão escarradas que chegam a ser risíveis. Mesmo que a ação garanta o pique de matinê, está um tanto distante em tom do que o grande público deste fim de década almeja. 

Está na hora de Peter Jackson se reinventar, para não parecer um artista que perdeu todo o prestígio em equívocos. Talvez o documentário They Shall Not Grow Old seja o início de um novo caminho. Nós, público, queremos e torcemos. 


Jornal NH

Sétima das Artes

por Ulisses Costa
setimadasartes@ziptop.com.br

Ulisses da Motta Costa é cineasta, professor e crítico. Dirigiu os curtas O Gritador (2006), Ninho dos Pequenos (2009), Kassandra (2013) e Luz Natural (2014), além de documentários, clipes e programas para TV. Considera o cinema uma desculpa para grandes aventuras e já filmou nos locais e condições mais improváveis. Até fez mochilão para o Rio de Janeiro para ser assistente de direção no curta Os Olhos de Cecília. Ministra oficinas e palestras sobre cinema para alunos do Ensino Médio e orientou a realização de inúmeros trabalhos escolares em vídeo. Atualmente, está envolvido em projetos de longa-metragem como roteirista e como preparador de elenco. Escreve o Sétima das Artes desde 2007 e também para a Like Magazine.

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