VOLTAR
FECHAR

Rua Jornal NH, 99 - Bairro Ideal - Novo Hamburgo/RS - CEP: 93334-350
Fones: (51) 3065.4000 (51) 3594.0444 - Fax: (51) 3594.0448

PUBLICIDADE
Sétima das Artes

Eu e o cinema norte-coreano

Uma pequena narrativa sobre como eu tive contato com o cinema do país mais fechado do mundo.

Pulgasari Eu já filmes de diversos países. Mas até recentemente nunca tinha assistido a um da Coreia do Norte. 

Durante alguns anos, a única informação que eu tinha sobre o cinema do país, o mais isolado do mundo, tinha me sido dada pelo amigo Rogério Tosca. Ele passou boa parte da sua vida em Cuba, incluindo o período da Guerra Fria. Como é de se imaginar, a TV e cinemas locais passavam basicamente obras de outros países do bloco comunista. 

Foi numa dessas ocasiões, talvez numa mostra de cinema (o Rogério vai me perdoar de eu ter esquecido a conjuntura exata), ele viu um drama de guerra norte-coreano. 

Se lembro bem do relato do Tosca, a trama era ambientada na Segunda Guerra Mundial, quando a Coreia sofria uma violenta ocupação japonesa. A resistência era liderada por Kim Il-sung, que viria a ser o primeiro ditador da Coreia do Norte. No clímax do filme, as tropas japonesas fogem ao saber que o chamado "Grande Líder" estava se aproximando. Um desfecho claramente ingênuo e que demonstrava o quanto que a produção local precisava ser feita dentro das bênçãos do governo. 

Foi a única impressão sobre o cinema do país durante muito tempo. 

Até que, há alguns meses, eu tomei contato, através de uma matéria do El País, com a história inacreditável da atriz Choi Eun-hee e seu marido, o cineasta Shin Sang-ok. É uma trama tão incrível que foi resgatada num recente documentário britânico disponível na Netflix, Os Amantes e o Déspota. Recomendo para quem gosta de história (e histórias) do cinema.

Choi era uma espécie de primeira dama do cinema da Coreia do Sul, sendo dirigida com frequência pelo marido Shin. Porém, no final dos anos 1970, ambos foram sequestrados pelo regime do norte e obrigados a "melhorar" a indústria cinematográfica do país. 

A ideia do sequestro partiu de Kim Jong-il, filho do "Grande Líder" e próximo ditador da Coreia do Norte. De acordo com ele (e o casal conseguiu gravar alguns dos diálogos que tiveram com o tirano), o cinema local investia sempre nos mesmos temas patrióticos e pueris. Kim, por sua vez, queria uma sétima arte pujante que, no seu delírio, confrontaria os melhores espetáculos ocidentais. 

Temendo represálias de Kim Jong-il, Choi e Shin colaboraram. Shin, em especial, dirigiu uns 18 filmes sob a produção do ditador -- até finalmente ele e a esposa conseguirem escapar durante um festival de cinema na Europa. 

Os Amantes e o Déspota foca-se na relação do casal com o regime norte-coreano e nas suas implicações políticas; fala-se pouco, porém, dos filmes realizados por eles. Uma imagem no documentário me chamou a atenção: um trecho de um filme de monstro, surpreendentemente bem-feito, sobre o qual o doc não dava maiores menções (nem mesmo o título). 

Eu, como entusiasta infantil de monstros gigantes, fui de imediato pesquisar que filme era aquele. 

Rapidamente encontrei: tratava-se de Pulgasari, épico de monstro gigante escrito e dirigido por Shin Sang-ok. Aparentemente, Kim Jon-il queria superar o sucesso do vizinho japonês Godzilla. Era o ano de 1985 e o monstro mais famoso do Japão voltava às telas em seu 16o longa, O Retorno de Godzilla (ou Godzilla 1985). Nada mais óbvio que tentar responder à altura, certo 

O Pulgasari do título é baseado numa criatura do folclore coreano. Além de ser uma trama de monstro, ele também se passa nos tempos mitológicos da Coreia medieval. Feito de ferro, o monstro Pulgasari defende um vilarejo de agricultores dos exércitos de um despótico senhor da guerra. 

A fim de dar qualidade aos efeitos da fita, o governo contratou uma equipe japonesa mesmo -- aliás, a mesma que tinha recém trabalhado em Godzilla 1985, encabeçada pelo experiente Teruyoshi Nakano. Eles, contudo, não foram sequestrados e voltaram ao país natal. 

Assim sendo, os efeitos são bem decentes (para o padrão de monstros interpretados por atores em roupas de borracha destruindo maquetes). Os planos gerais que mostram Pulgasari e exércitos em carga são bem impressionantes, e design do monstro (uma espécie de minotauro metálico) é muitíssimo legal. Já roteiro é simplório, os atores são exagerados e a trilha sonora sintetizada é simplesmente horrorosa. 

Seria apenas uma curiosidade: o filme de monstro de Kim Jon-il. 

Mas quando se conhece a história do sequestro de Shin Sang-ok e de Choi Eun-hee (que não atua aqui), Pulgasari pode ganhar uma interessante interpretação. A história do monstro que ajuda camponeses a destruir o reino de um déspota nada mais seria do que uma mensagem oculta de Shin contra Kim Jon-il e seu regime. 

Afinal, a opressão contra o vilarejo começa quando um senhor local manda confiscar as ferramentas de metal para forjar mais armas. O ferreiro local se recusa a compactuar com isso e é preso (como o próprio Shin, que passou alguns dos seus anos na Coreia do Norte aprisionado). Antes de morrer, ele faz um bonequinho de arroz, que é dado aos seus filhos. O bonequinho toma vida quando as lágrimas da filha do ferreiro o molham. O ser minúsculo passa a comer metal. Assim, vai crescendo de tamanho até uma estatura colossal. 

Boa parte da narrativa trata do esforço das tropas do monarca local em destruir Pulgasari e os rebeldes que ele defende. Ou seja, Pulgasari representaria o povo faminto da Coreia do Norte e os ricos senhores e monarca, o próprio Kim Jon-il e seu governo. 

Mas a metáfora é ainda mais sutil. Por isso que provavelmente o ditador norte-coreano não notou. 

Em outra interpretação, podemos ler o monarca e seus asseclas como os opressores estrangeiros. Os camponeses rebeldes seriam o povo coreano antes da ascensão do comunismo. Pulgasari seria o próprio "Grande Líder" Kim Il-sung e seu legado, o regime ditatorial da Coreia. 

Porque no final, após o triunfo sobre os adversários, a criatura continua se alimentado, com cada vez mais voracidade, do metal que originou a discórdia entre governo e agricultores. Ou seja, os camponeses trocaram uma opressão por outra; agora são escravos de um monstro que não para de crescer (e que só é derrotado no sacrifício da personagem que lhe deu vida, a filha do ferreiro). 

Logo após o lançamento de Pulgasari, Shin e Choi conseguem fugir. Foi a única produção feita por um deles a ganhar lançamento fora da Coreia do Norte -- não por acaso, no Japão.  

(Qual terá sido o nome do filme de guerra que o Rogério Tosca viu em Cuba?)

Crítica: As Boas Maneiras

Filme de fantasia brasileiro mistura gêneros com brilhantismo.

As Boas Maneiras O mito do lobisomem trata do inocente amaldiçoado. Seu fascínio nasce exatamente do fato de a "condição" de se transformar num monstro furioso pode afetar uma pessoa que não fez nada de errado.

O próprio filme clássico de 1941 com Lon Chaney Jr., O Lobisomen, já dizia: "mesmo o homem puro de coração que faz suas preces à noite pode tornar-se um lobo".

E se essa inocência inerente ao mito fosse levada às últimas consequências e a maldição afetasse precisamente uma criança?

É com essa premissa maravilhosa que nasce um dos melhores filmes de lobisomem de todos os tempos, As Boas Maneiras (coprodução Brasil-França, rodada em São Paulo).

Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, As Boas Maneiras é um belo filme brasileiro de gênero. Atenção: não é um terror convencional de susto (ainda que tenha uns cagaços aqui e ali). Não espere um filme pipoca de terror.

Ele mistura (com sabedoria e criatividade) diversos gêneros. É um conto de fadas sombrio que tem horror, comédia, drama e até elementos de musical -- o que faz sentido: ele se propõe a ser uma fábula a la Disney (só que contada de forma mais medonha). 

É de bom tom falar pouco da história, para o espectador saber pouco do que se trata. Mas o roteiro começa quando uma enfermeira é contratada por uma menina rica que passa por uma gravidez complicada.

Narrativamente, é um filme para estudar, já que ele quase funciona como "duas histórias em uma". A primeira metade se baseia numa tradição hitchcockiana: os realizadores não escondem do público a verdadeira natureza do que está acontecendo, mas as protagonistas ainda não sabem. Assim, ficamos apreensivos torcendo para que elas descubram. Já a segunda metade é imprevisível.

O esteio da obra são as excelentes atuações de Isabél Zuaa (portuguesa que se firma como uma das melhores atrizes em atividade no Brasil), Marjorie Estiano (que dá show até no sotaque do interior) e do menino Miguel Lobo. A coesão do elenco prova o talento da dupla de diretores.

A produção é muito bem cuidada e os efeitos práticos e digitais merecem elogios. Um efeito prático em especial (que eu não vou falar para não estragar a surpresa) é particularmente impressionante, lembrando os melhores momentos de obras dos anos 80 (como Gremlins). 

Um destaque absoluto é a trilha de Guilherme e Gustavo Garbato, candidata a ser uma das melhores partituras já feitas para um filme nacional. Aliás, que belo uso de música (tanto original como pesquisada, seja diegética ou incidental). Os acalantos que entrecortam a narrativa pontualmente são particularmente lindos. 

O filme está indo bem na Europa, onde foi lançado antes. No Brasil, o público total está na casa dos 6 mil espectadores, e certamente merecia bem mais. Fique de olho. 

Gaúchos em produção: Festival de Santa Cruz

Cidade gaúcha lança festival. Inscrições estão abertas.

Festival de Cinema de Santa Cruz Santa Cruz passa a ser mais uma cidade do Rio Grande do Sul a ter um festival de cinema. Une-se assim a Gramado, Três Passos, Santo Ângelo, Bagé (Festival da Fronteira), cidades serranas como Caxias do Sul e Bento Gonçalves (com o CineSerra) e os diversos eventos na capital Porto Alegre. 

Esta primeira edição do Festival Santa Cruz de Cinema vai acontecer de 23 a 26 de outubro de 2018, na Unisc e em diversos pontos da cidade. O objetivo principal é reunir a produção cinematográfica de curta-metragens brasileira, buscando se tornar um espaço de difusão, lançamento e promoção de trabalhos desenvolvidos em todo o país. Como um bom festival, tem prêmio e homenagem. O troféu Tipuana será entregue em dez categorias. Já a homenageada é a cineasta gaúcha Liliana Sulzbach, produtora e diretora de documentários como O Cárcere e a Rua (2004) e A Invenção da Infância (2000).

O evento será anual e vai destacar e premiar as produções feitas no centro do Estado e as nacionais, nas categorias ficção, documentário e animação. O festival também vai oferecer oficinas e debates sobre a produção e a crítica audiovisual, além de exibições durante o dia voltadas ao público infanto-juvenil. Serão quatro dias e a curadoria escolherá 15 obras para serem exibidas na mostra competitiva. 

A iniciativa é da Pé de Coelho Filmes, SESC e Unisc. O regulamento pode ser encontrado neste site e as inscrições vão até dia 30 de junho.


Gaúchos em produção: A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro

.

Tarso de Castro e Candice BergenEntrou em cartaz neste final de semana o documentário A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro. É mais um exemplar da boa safra de docs de longa-metragem daqui do Rio Grande do Sul. Dirigido e escrito por Zeca Brito e Leo Garcia, o filme revive, por meio da trajetória do jornalista gaúcho Tarso de Castro (1941-1991), a história da geração de intelectuais que resistiu à ditadura militar.

Quem é Tarso de Castro? Figura libertária, combativa e boêmia, o jornalista marcou a imprensa brasileira, em especial como um dos colaboradores do clássico O Pasquim. Trabalhou na Folha de São Paulo e Zero Hora, entre outros jornais. Tinha fama de mulherengo e namorou a estrela de cinema americana Candice Berger nos anos 1970 (acima, em foto de Paulo Garcez).

Entre os entrevistados, estão o ator João Vicente de Castro (seu único filho), o cartunista Jaguar, Paulo César Pereio, Caetano Veloso, Nelson Motta e Roberto D’Avila, entre outros.

"O Tarso foi um personagem fascinante e muito complexo. E nunca foi tão urgente falar e discutir sobre jornalismo como hoje", acredita Leo Garcia, que divide as funções de diretor e roteirista com Zeca Brito. "Tentamos fazer jus ao nosso personagem, realizando um documentário que aborda temas sérios, mas de uma maneira bem despojada e engraçada – no melhor estilo Tarso de Castro", conclui. "Tarso fez de sua vida uma instigante narrativa de paixões. Revolucionário e transgressor, mudou a imprensa brasileira vivendo intensamente o ofício de jornalista”, complementa Brito.

Uma informação importante sobre o filme é que ele estreou em onze estados brasileiros, o que por si só é uma conquista para um documentário. Em Porto Alegre, está em cartaz na Casa de Cultura Mario Quintana e no Espaço Itaú do Bourbon Wallig. Boa hora para prestigiar a produção local. 

Importante ressaltar também que A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro é somente o primeiro de uma variada lista de projetos encabeçados pela dupla Zeca Brito (dirigindo) e Leo Garcia (escrevendo) que serão lançados em breve. O próximo é a comédia Em 97 Era Assim, que fez boa carreira em festivais internacionais e que estreia no próximo dia 14 de junho. Porém, a obra mais ambiciosa deles está sendo finalizada: o drama histórico Legalidade (que reconta a famosa resistência encabeçada por Leonel Brizola contra uma tentativa de golpe de estado). A previsão de chegar às telas é ainda em 2018.  

A produção de A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro é assinada por Coelho Voador, Epifania Filmes, Anti Filmes e Boulevard Filmes, em coprodução com o Canal Brasil, e distribuição da Boulevard Filmes. Mais sobre o projeto pode ser visto na página do Facebook

Capa do dia

FOLHEIE O SEU JORNAL PREFERIDO NA TELA DO SEU COMPUTADOR.

ACESSE ASSINE AGORA
51 3600.3636
CENTRAL DO ASSINANTE

51 3591.2020
CENTRAL DE VENDAS DE ASSINATURAS