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Sétima das Artes

Crítica: Duas Rainhas

Drama de época sobre as rainhas Elizabeth I e Mary da Escócia vai engrenando aos poucos.

Duas Rainhas É de se perguntar o porquê de mais um produto audiovisual contar a história do conflito entre Escócia e Inglaterra no período elisabetano. Nas últimas décadas,não foram poucas as representações nas telas das rainhas Elizabeth I da Inglaterra e Mary I da Escócia. Até recentemente, a mesma história foi contada na série Reign, por exemplo, encerrada em 2017. 

Por motivos comerciais, claro: histórias da realeza britânica vendem bem mundo afora. Como nem todos os monarcas da ilha são suficientemente conhecidos, essas recriações acabam se concentrando nos períodos das rainhas mais famosas, como Vitória ou a própria Elizabeth II, atual rainha (no seriado The Crown). Há um grande interesse em especial do público feminino contemporâneo por essas figuras que desafiaram as convenções sociais e políticas do passado. 

É neste contexto que Duas Rainhas se encaixa. Ele é primordialmente um produto da nossa era, feito para ser um retrato consumível e acessível. Não é inesquecível, ainda que bem realizado, nem arrebatador, ainda que respeite o desenrolar dos fatos históricos. 

Apesar do título (e o primeiro ato da projeção) implicar que a narrativa traçará um paralelo constante entre Mary (Saorise Ronan) e Elizabeth (Margot Robbie), logo o roteiro vira o seu foco na história da rainha da Escócia. Não à toa, já que o título original é Mary Queen of Scots. No início, o filme começa confuso e trôpego, tendo que ser muito didático para o espectador entender seu contexto político e social. Aos poucos vai se aprumando. No fim, conta a história de maneira eficiente -- ou melhor, suficiente. 

A diretora Josie Rourke vem do teatro, e isso garante que o elenco cumpra bem o seu papel. Talvez Saorise Ronan e  Margot Robbie estejam muito focadas em receber novas indicações ao Oscar, o que deixa um leve afetamento no ar em determinadas cenas. Há aqui e ali algum bom momento visual, num plano mais bem fotografado. Mas, sob uma ótica mais analítica, seu acabamento não é muito diferente de um produto televisivo bem realizado. 

Há escolas interessantes, porém. É um dos poucos retratos menos glamourosos de Elizabeth, mencionando inclusive as suas cicatrizes faciais por causa de uma doença. Questões da sexualidade e do comportamento da realeza são abordados, mas não espere por nada muito chocante. Há também a decisão de trazer diversidade para o elenco, com atores negros e asiáticos em papéis importantes. Essa liberdade poética, porém, parece neste caso condescendência comercial para que o público compre o título como tendo uma proposta inclusiva. Acaba soando mais como um agrado puramente mercadológico do que um resgate da posição de pessoas não-caucasianas naquela sociedade. 

No fim, talvez isso transforme Duas Rainhas num produto datado com o passar do tempo. Mas note quantas vezes eu usei palavras relacionadas a consumo neste texto, tais como "comercial", "produto", "comprar". É isso: Duas Rainhas é um produto consumível. Quanto mais rápido for assistido, melhor. 

Crítica: Shazam!

Novo filme da DC investe no humor ingênuo e bem sacado para público juvenil (e para o jovem que habita em nós).

Shazam! É fato que Shazam! (o sétimo filme do que supostamente seria o Universo Estendido DC) é um rearranjo de rota. Quando a DC Comics resolveu enfrentar a Marvel e seu universo compartilhado nos cinemas, abandonado a estratégia de franquias separadas, definiu-se que todos seus principais heróis teriam sua película solo . Boa parte destes projetos foram caindo pelo caminho, fruto de problemas internos da DC com seu estúdio parceiro, a Warner. Saíram das grades de planejamento - ou foram adiados indefinidamente - filmes do Flash, do Batman, do Superman, da tropa dos Lanternas Verdes.

Então é meio que incrível que Shazam!, logo ele, tenha sobrevivido. 

Quem tem mais idade conheceu esse herói como Capitão Marvel. Uma complicada disputa de direitos autorais acabou colocando o personagem na posição de hoje: com um nome diferente e uma posição um pouco menor no panteão da editora. Mas nem sempre foi assim. 

Quando foi lançado nos gibis, em 1939, o Capitão Marvel original chegou a superar em popularidade o Superman. Os dois eram parecidos, mas o background atrás deles era distinto. Superman era cria da ficção-científica: um ser extraterrestre cujos poderes advêm das condições do planeta Terra. Já o Capitão tirava sua força da mitologia: ao gritar a palavra mágica Shazam, o menino Billy Batson virava um herói.

Isso, convenhamos, tem muito apelo. Se a fantasia de toda a criança ainda hoje é se transformar num ser superpoderoso, Capitão Marvel (ou Shazam) é a personificação deste faz-de-conta. É onde Shazam! acerta. É, para todos os fins, um filme "infanto-juvenil" feito para a criança que vive dentro de um adulto. O diretor David F. Sandberg e o roteirista Henry Gayden buscaram nas suas próprias referências de infância o que os motivava como espectadores.

Daí que Shazam! tem um espírito claramente de matinês dos anos 1980 e início dos 90. É quase um "Quero Ser Grande versão super-herói" - ao ponto de ter uma referência nada sutil a este título. Mas quem se criou nessas décadas vai se lembrar - mesmo sem entender o porquê - de obras como Os Caça-Fantasmas ou E.T.

Quer dizer que Shazam! é um pastiche dessa época? Não. Os realizadores querem dar alma ao filme, por mais ingênua que esta alma seja. Então, passamos boa parte do tempo com os personagens antes de Billy Batson ganhar seus poderes. Vemos o protagonista criando laços com a família que o acolhe e essas relações bem-cuidadas fazem a diferença. O filme é previsível, mas gostamos tanto dos personagens que passamos a torcer para que o previsível realmente aconteça. 

O roteiro (e o elenco) investem pesado na comédia. Há dúzias de piadas já clichês em filmes de heróis. Mas há outras que fazem graça com o universo dos quadrinhos e com os próprios personagens da DC. Porque sim, Shazam! se passa no mesmo mundo de Batman vs Superman, Mulher Maravilha e Aquaman. As menções à existência dos personagens permeia toda a projeção (incluindo os maravilhosos créditos finais). Mas é uma espécie de "primo anárquico" destes filmes, com mais verborragia e senso de humor. Um Deadpool da DC para crianças, se quiserem. 

Há que se falar que o elenco vai muito bem neste quesito, com performances cômicas bem realizadas. Há personagens genuinamente fascinantes e é fácil criar empatia por todos. Inclusive pelo vilão clássico Dr. Silvana (interpretado por um especialista em antagonistas, Mark Strong). É interessante que o roteiro ensaia um paralelo entre as famílias de Silvana e de Billy Batson, que poderia ser melhor explorado se Shazam! tivesse uma inclinação dramatúrgica mais sisuda. 

No entanto, o filme entrega a sua proposta: excelente diversão. E ainda, pode ser o filme que fará a transição dentro do Universo DC. Ele parece encerrar a era compartilhada e criar novas possibilidades para os filmes futuros. Ou, quem sabe, revitalizar e recuperar de vez uma franquia problemática. 

Há uma cena no meio dos créditos e outra bem no final. 

Crítica: Vox Lux - O Preço da Fama

Apesar da boa atuação de Natalie Portman, drama se perde em pretensões exageradas.

Vox Lux Desde o início da projeção, fica bem claro que Vox Lux - O Preço da Fama leva-se exageradamente a sério. A pretensão do seu realizador, o desconhecido Brady Corbet, é fazer um profundo retrato da alma ocidental nas últimas duas décadas, usando para isso como backgroud a indústria cultural. Contudo, o filme se perde ao se atribuir tamanha importância. 

Vox Lux pode ser um daqueles casos de amor e ódio. Há boas ideias; mais do que isso, há boas cenas. Porém, a vontade de soar e parecer arrojado resulta em inúmeras derrapagens. Para cada eventual momento brilhante, há uma execução preguiçosa e auto-indulgente logo em seguida. 

Mas vamos à história: indicando na tela cada um dos seus atos, o roteiro conta a história fictícia da cantora Celeste, desde sua adolescência (quando é interpretada por Raffey Cassidy) até o 2017 (quando é encarnada por Natalie Portman). A personagem tem uma construção interessante: quando jovem, sobrevive a um massacre na sua escola e faz uma música que se torna imenso sucesso. Já adulta e na casa dos 30 anos, tenta sobreviver aos excessos e pressão da fama, enquanto sua imagem pública se desgasta e a relação com familiares fica atribulada. 

A protagonista quase salva o filme, muito pela entrega de Portman -- atriz que alterna em sua carreira algumas performances inesquecíveis com diversas outras burocráticas e sem graça. Ela faz um bom trabalho com Celeste, criando tiques nervosos que representam as dores constantes que a personagem sofre por conta da tragédia que viveu na escola. Jude Law também é um coadjuvante que entrega um bom trabalho, inclusive fazendo uma voz mais grave e diferente do seu registro comum. 

Contudo, a própria atuação de Natalie é prova dos desequilíbrios de Vox Lux. Como comentei antes, a fita demarca seus atos claramente. No primeiro (chamado "Gênesis"), quem dá vida à personagem é uma pouco expressiva Raffey Cassidy. Uma pena, porque narrativamente este é o segmento mais bem resolvido do filme. Ou, por outra, é o único a contar realmente uma história: como Celeste entrou na indústria da música pop e se consolidou.

Portman aparece somente a partir do segundo ato ("Regênese"), com já quase uma hora de projeção. Se ela é melhor que sua contraparte mais jovem, encontra aqui um roteiro bagunçado, com ares de virtuose  pela virtuose. A cena no restaurante, por exemplo, é demasiadamente longa e inicia conflitos familiares que jamais serão resolvidos. O diretor e roteirista Brady Corbet parece encantado demais com seu texto longo (e raso) -- aliás, são vários os momentos em que o diretor parece deslumbrado consigo mesmo. 

No início do filme, por exemplo, os créditos inciais são apresentados na forma de créditos finais, passando em rol pela tela e incluindo quase toda a equipe. A justificativa para isso? Nenhuma, a não ser parecer arrojado. Esse virtuosismo vazio vai dando as caras com maior ou menor intensidade durante a projeção (como nas sequências rodadas com baixa definição e montadas em fast foward) e explode de vez no terceiro ato, "Finale", quando Corbet simplesmente joga a narrativa pela janela e fica meia hora mostrando um show como se fosse um mero DVD. 

Talvez devêssemos dar mérito ao cineasta (que é inciante, apenas em seu segundo longa) por tentar apresentar uma experiência cinematográfica diferente. Entretanto, Corbet parece pouco interessado no público, apenas no seu (hipotético) aplauso. O espectador investe emocionalmente seu tempo numa história que deixa em aberto todas as questões que planta, o que é decepcionante. 

Mas Cobert acredita ter feito grande obra. O filme encerra abruptamente (mas não era sem tempo), com um letreiro que afirma abertamente que ele se pretende como grande reflexo de uma época. Tal ambição e soberba passou desapercebida: lançado no final de 2018 nos EUA para aproveitar a temporada de premiações, Vox Lux foi massivamente ignorada por elas. 

Crítica: Nós

Novo terror do mesmo criador do sucesso Corra! mantem a qualidade.

Nós O novo filme do cineasta Jordan Peele, Nós, constantemente refere a um versículo da Bíblia, Jeremias 11:11, ainda que o seu conteúdo não seja recitado em nenhum momento da projeção por algum dos personagens. Ele diz: "portanto assim diz o Senhor: eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei".

Boa parte da vivacidade do filme de Peele (ou, no mínimo, da inteligência da sua proposta) está nessa citação. Não só pelo tom apocalíptico e sombrio da passagem, mas pelo próprio fato da sincronia dos números do capítulo e do versículo (dois números 11). O conceito básico está nos paralelismos, nas coincidências de alinhamento. É a história é de uma família que vai para o litoral passar as férias. A mãe, Addy (Lupita Nyong'o), teve uma experiência traumática no mesmo local quando criança nos anos 80 (o filme começa nessa cena). De súbito, a casa dela é atacada por cópias (im)perfeitas de si, do seu marido e de seus filhos. 

O horror, aqui, é de se encontrar seu duplo -- ou, como se diz no filme, a sua "sombra". Os melhores medos são irracionais, e os melhores filmes assustadores são aqueles que conseguem corporificar essa irracionalidade. Imagine encontrar a sua própria versão má e descobrir que ela está disposta a tomar o teu lugar. Chega a ser curioso o fato dessa ideia não ser usada mais frequentemente no cinema. 

Jordan Peele (que escreve, dirige e produz) tomou o mundo de assalto com Corra! em 2017, excelente terror que foi sucesso surpreendente de público, crítica e premiações. Corra! não só era um filme de gênero muito competente, mas era um poderoso veículo para o debate do racismo nos Estados Unidos (e no mundo, claro). A força do seu drama se baseava neste elemento social mundano. 

É esse respeito pelo drama que faz a diferença do trabalho de Peele para outros do estilo. Mesmo que Nós não seja brilhante como Corra!, ou que não aborde uma temática político-social com a mesma intensidade, ele é conduzido pelo mesmo cineasta com as mesmas ferramentas. O esforço principal da direção está na boa construção dos personagens e das suas interações. Assim, criamos simpatia pelo elenco inteiro, especialmente as crianças. O trabalho de atuação é ótimo, ainda mais se levarmos em conta que cada ator precisa dar vida a dois personagens, o seu "eu" e a sua versão dupla (que é totalmente diferente). 

O confronto é construído de maneira lenta e progressiva, numa estrutura de roteiro simples mas não clichê. Ao invés de cair nas convenções do gênero, Peele vai escalando a sua narrativa sempre um ou dois passos na frente do espectador. Não é bom falar muito para não estragar a experiência de quem assiste, porém. 

Falei acima que o roteiro não pega pesado na questão social como Corra!, mas certamente é possível fazer interpretações de seus significados. Tudo no filme pode ser simbólico -- não é à toa que a arma usada pelos duplos seja uma tesoura, como se quisessem cortar algum cordão umbilical com suas "versões originais". Há algumas implicações mais políticas, mas elas ficam num plano mais subjetivo, deixando o espectador entender como queira. 

Tal como Corra!, o humor é uma parte importante de Nós. É um humor por vezes negro, por vezes tolo, mas que sempre arranca alguma risada de nervoso. Às vezes, é para ser abertamente desconfortável -- como na cena que envolve o rap "Fuck Tha Police". Curiosidade: Peele começou na indústria como ator cômico. Sabe dosar muitíssimo bem o elemento satírico para expandir a experiência do público. 

Embalado em ótimo acabamento, Nós ainda conta com uma ótima trilha sonora, escrita por Michael Abels. O tema "Anthem", que aparece nos créditos iniciais, é sério candidato a clássico imediato. É um coro de crianças (aparentemente em latim) acompanhado por percussões étnicas, aos quais se seguem depois um coro adulto solene e uma seção de cordas. É uma música que remete clássicos das trilhas de terror dos anos 1970, tanto americanas quanto europeias (na minha mente ressoou ao mesmo tempo A Profecia e as trilhas da banda italiana Goblin, além do anime Akira). 

Talvez Nós só se perca no seu encerramento, com uma espécie de revelação que faz pouco sentido (e até cria furos grandes no roteiro). Será que Peele foi mordido pelo bichinho do picareta M. Night Shyamalan? Tomara que não. 

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