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Sétima das Artes

Crítica: Nós

Novo terror do mesmo criador do sucesso Corra! mantem a qualidade.

Nós O novo filme do cineasta Jordan Peele, Nós, constantemente refere a um versículo da Bíblia, Jeremias 11:11, ainda que o seu conteúdo não seja recitado em nenhum momento da projeção por algum dos personagens. Ele diz: "portanto assim diz o Senhor: eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei".

Boa parte da vivacidade do filme de Peele (ou, no mínimo, da inteligência da sua proposta) está nessa citação. Não só pelo tom apocalíptico e sombrio da passagem, mas pelo próprio fato da sincronia dos números do capítulo e do versículo (dois números 11). O conceito básico está nos paralelismos, nas coincidências de alinhamento. É a história é de uma família que vai para o litoral passar as férias. A mãe, Addy (Lupita Nyong'o), teve uma experiência traumática no mesmo local quando criança nos anos 80 (o filme começa nessa cena). De súbito, a casa dela é atacada por cópias (im)perfeitas de si, do seu marido e de seus filhos. 

O horror, aqui, é de se encontrar seu duplo -- ou, como se diz no filme, a sua "sombra". Os melhores medos são irracionais, e os melhores filmes assustadores são aqueles que conseguem corporificar essa irracionalidade. Imagine encontrar a sua própria versão má e descobrir que ela está disposta a tomar o teu lugar. Chega a ser curioso o fato dessa ideia não ser usada mais frequentemente no cinema. 

Jordan Peele (que escreve, dirige e produz) tomou o mundo de assalto com Corra! em 2017, excelente terror que foi sucesso surpreendente de público, crítica e premiações. Corra! não só era um filme de gênero muito competente, mas era um poderoso veículo para o debate do racismo nos Estados Unidos (e no mundo, claro). A força do seu drama se baseava neste elemento social mundano. 

É esse respeito pelo drama que faz a diferença do trabalho de Peele para outros do estilo. Mesmo que Nós não seja brilhante como Corra!, ou que não aborde uma temática político-social com a mesma intensidade, ele é conduzido pelo mesmo cineasta com as mesmas ferramentas. O esforço principal da direção está na boa construção dos personagens e das suas interações. Assim, criamos simpatia pelo elenco inteiro, especialmente as crianças. O trabalho de atuação é ótimo, ainda mais se levarmos em conta que cada ator precisa dar vida a dois personagens, o seu "eu" e a sua versão dupla (que é totalmente diferente). 

O confronto é construído de maneira lenta e progressiva, numa estrutura de roteiro simples mas não clichê. Ao invés de cair nas convenções do gênero, Peele vai escalando a sua narrativa sempre um ou dois passos na frente do espectador. Não é bom falar muito para não estragar a experiência de quem assiste, porém. 

Falei acima que o roteiro não pega pesado na questão social como Corra!, mas certamente é possível fazer interpretações de seus significados. Tudo no filme pode ser simbólico -- não é à toa que a arma usada pelos duplos seja uma tesoura, como se quisessem cortar algum cordão umbilical com suas "versões originais". Há algumas implicações mais políticas, mas elas ficam num plano mais subjetivo, deixando o espectador entender como queira. 

Tal como Corra!, o humor é uma parte importante de Nós. É um humor por vezes negro, por vezes tolo, mas que sempre arranca alguma risada de nervoso. Às vezes, é para ser abertamente desconfortável -- como na cena que envolve o rap "Fuck Tha Police". Curiosidade: Peele começou na indústria como ator cômico. Sabe dosar muitíssimo bem o elemento satírico para expandir a experiência do público. 

Embalado em ótimo acabamento, Nós ainda conta com uma ótima trilha sonora, escrita por Michael Abels. O tema "Anthem", que aparece nos créditos iniciais, é sério candidato a clássico imediato. É um coro de crianças (aparentemente em latim) acompanhado por percussões étnicas, aos quais se seguem depois um coro adulto solene e uma seção de cordas. É uma música que remete clássicos das trilhas de terror dos anos 1970, tanto americanas quanto europeias (na minha mente ressoou ao mesmo tempo A Profecia e as trilhas da banda italiana Goblin, além do anime Akira). 

Talvez Nós só se perca no seu encerramento, com uma espécie de revelação que faz pouco sentido (e até cria furos grandes no roteiro). Será que Peele foi mordido pelo bichinho do picareta M. Night Shyamalan? Tomara que não. 

Gaúchos em Produção: Legalidade estreia em festival

Filme sobre o movimento liderado por Leonel Brizola é selecionado para o 35º Festival Latino de Chicago.

O longa-metragem Legalidade estreará no Festival Latino de Chicago, nos EUA, que acontece entre os dias 28 de março e 11 de abril. O filme tem direção de Zeca Brito, roteiro de Leo Garcia e Zeca Brito e elenco com nomes como Leonardo Machado, Cléo Pires, Fernando Alves Pinto, Letícia Sabatella. A produção é da veterana Luciana Tomasi (de O Homem que Copiava, entre outros títulos gaúchos). 

Para quem não sabe, o filme trata do movimento que aconteceu no Rio Grande do Sul em 1961, conhecido como a "última revolta gaúcha". Na ocasião, o governador Leonel Brizola comandou a resistência a uma tentativa de golpe de Estado, antes ainda da Ditadura. Não por acaso, o título internacional de Legalidade é Resistance (resistência, em inglês).  

Além da importância história, o filme é um dos últimos trabalhos do ator Leonardo Machado (que faz precisamente Brizola), falecido ano passado.  

Legalidade deve estrear em circuito comercial no Brasil em setembro deste ano. Fique ligado.

Minhas apostas para o Oscar 2019

O velho prazer cinéfilo de adivinhar os vencedores da cerimônia.

A tradicional lista de apostas que eu publico aqui no blog todo o ano: 

Melhor Filme: 

Vai ganhar: Roma. Ou Green Book - O guia. Ou ainda Infiltrado na Klan

Ainda há dúvida se a Academia premiará uma produção da Netflix (Roma), consagrando assim o serviço de streaming (ainda mais falada em espanhol). Green Book venceu o prêmio do sindicato dos produtores e ganha força. Pode ser também a vez do reconhecimento de Spike Lee, com seu filme sobre a Ku Klux Klan. 

Melhor Diretor:

Vai ganhar: Alfonso Cuarón, por Roma.

Incrível. Em seis anos, esse deve ser o quinto em que a categoria vai para um diretor mexicano. O próprio Cuarón começou a sequência com Gravidade, em 2014. Mas aqui também há forte torcida para Spike Lee, por Infiltrado na Klan.

Melhor Atriz:

Vai ganhar: Glenn Close, por A Esposa.

Melhor Ator:

Vai ganhar: Rami Malek, por Bohemian Rhapsody.

Atriz Coadjuvante:

Vai ganhar: Amy Adams, por Vice.

A categoria está muito concorrida, e há reais chances de Rachez Weisz (A favorita) e Regina King (Se a rua Beale falasse) se sagrarem. A vantagem de Amy é que esta é a sua sexta indicação.

Ator Coadjuvante:

Vai ganhar: Mahershala Ali, por Green Book - O guia.

Roteiro Original:

Vai ganhar: Roma? A FavoritaGreen Book - O guia?

É comum as categorias de melhor filme e as de melhor roteiro serem casadas. 

Roteiro Adaptado:

Vai ganhar: Infiltrado na Klan

Pode ser o prêmio de consolação para Spike Lee. 

Fotografia:

Vai ganhar: Roma

Montagem:

Vai ganhar: Infiltrado na Klan

Direção de Arte: 

Vai ganhar: A Favorita

Figurino:

Vai ganhar: A Favorita. Ou Pantera Negra

Trilha Sonora:

Vai ganhar: Pantera Negra

Melhor Canção:

Vai ganhar: "Shallow", de Nasce Uma Estrela, interpretada por Lady Gaga.

Pode ir para a canção "I'll Fight", do documentário RBG. A compositora é Diane Warren, que está na décima indicação e nunca ganhou. 

Edição de Som:

Vai ganhar: Primeiro Homem tem um trabalho incrível. Mas pode ir para Pantera Negra.

Mixagem de Som: 

Vai ganhar: Bohemian Rhapsody. Essa categoria costuma ir para filmes musicais ou com forte presença de cenas com música.

Maquiagem:

Vai ganhar: Vice

Efeitos Visuais:

Vai ganhar: Vingadores: Guerra Infinita

Pode ser uma noite de consagração do Universo Marvel. Também pode vencer Jogador No. 1, de Steven Spielberg. Primeiro Homem, porém, tem talvez o melhor trabalho. 

Longa Estrangeiro:

Vai ganhar: Minha torcida é por Cafarnaum (Líbano). Mas deve ir para Guerra Fria (Polônia).

Longa Animação:

Vai ganhar: Homem-Aranha no Aranhaverso

Crítica: Alita: Anjo de Batalha

Parceria entre James Cameron e Robert Rodriguez gera filme divertido.

No início da década de 1990, os cineastas James Cameron e Robert Rodriguez estavam entre os realizadores que mais me fascinavam, por motivos diferentes. Acompanhava com bastante interesse a carreira de ambos. Cameron pelo seu controle aparentemente absoluto da ação e da qualidade técnica de filmes como Aliens - O Resgate, O Segredo do Abismo e O Exterminador do Futuro 2. Rodriguez pelo cinema de improviso, guerrilheiro que fez seu primeiro longa, El Mariachi, com tão somente sete mil dólares. 

Cameron é canadense, dirigiu caminhão antes de entrar no cinema fazendo efeitos visuais para filmes B produzidos por Roger Corman. Rodriguez é texano, mas com fortíssimas raízes no México e viabilizou El Mariachi se oferecendo como cobaia para testes médicos. Os cinemas de ambos eram diametralmente diferentes de produção: enquanto um filmava com um punhado de dólares, o outro batia recorde atrás de recorde de "orçamento mais caro da história". 

O que levaria o comandante de Titanic e Avatar a se associar ao cineasta de Um Drink no Inferno e Sin City? Bom, há pontos em comum: ambos ocupam posições de "faz-tudo" em suas obras. Cameron é um desenhista e projetista habilidoso. Além de elaborar visualmente seus trabalhos, financia novas tecnologias, roteiriza e produz (com mão de ferro). Rodriguez vai do roteiro à montagem, às vezes fazendo até a trilha sonora. 

A adaptação do mangá Battle Angel Alita (lançado no Japão como Gunnm) estava há tempos nos planos de Cameron. O cineasta, porém, decidiu dedicar o resto da sua vida a criar novas obras no universo de Avatar (as sequências começarão a estrear em 2020) e abdicou do projeto. Rodriguez, fã da obra nipônica, quis entrar. E Cameron, se não quer dirigir outra coisa que não aventuras em Pandora, resolveu viabilizar como produtor projetos paralelos. 

Daí não só o lançamento em 2019 de Alita: Anjo de Combate, mas de um novo Exterminador do Futuro (com o elenco original), capitaneados por outros cineastas com o canadense como produtor. 

Antes de assistir a Alita: Anjo de Combate, minha pergunta era: quem prevaleceria? O rigor técnico de Cameron ou o improviso maníaco de Rodriguez? No balanço, o vencedor é Cameron: a fita é um grande espetáculo tecnológico, com efeitos primorosos. Cenários e ação são grandiloquentes. O filme tem uma violência mais dosada, não tão abusada quanto a de um Machete. Rodriguez mostra suas marcas nas referências à cultura mexicana e no volume de cenas de ação. 

Não que Alita seja um "filme de James Cameron". Apesar de bastante divertido, falta a mão segura do diretor, que consegue transformar clichês bregas em emoção genuína. 

O elenco, por exemplo, tem performances muito díspares. O romance entre a ciborgue Alita (Rosa Salazar) e o mocinho Hugo (Keean Johnson) é morno, em especial por conta do fraco ator juvenil. Bons atores, como Jennifer Connelly e Mahershala Ali, são desperdiçados. A protagonista vai muito bem, apesar de Rosa Salazar ter feito uma atuação com captura digital para criar um ser totalmente gerado por computador. 

Por falar nisso, a ciborgue Alita é um capítulo à parte. Não é a única personagem gerada totalmente por CGI no filme. No entanto, é a única a emular a estética própria dos mangás e animes, sendo caracterizada com olhos imensos. É estranho -- um efeito conhecido precisamente como "vale da estranheza", em que nosso cérebro rejeita seres sintéticos com aparência demasiado humana. Porém, a esquisitice vai se justificando no decorrer da projeção, quando se revela a origem da criatura. 

O roteiro (escrito por Rodriguez, Cameron e Laeta Kalogridis - escritora que roteirizou o ótimo Ilha do Medo e o deplorável Desbravadores) parece ser bem fiel ao mangá e seu universo futurista. É esquemático e previsível, porém. Contudo, Alita é suficientemente desenvolvida para que o público se afeiçoe ao contraste de ingenuidade e agressividade que ela exibe. O 3D muito bom garante que o filme seja uma boa matiné na tela grande.

Tem a pretensão de virar uma trilogia. Não sei se o público se interessará. Alita: Anjo de Combate tem algum espírito a la Valerian e a Cidade dos Mil Planetas: uma sci-fi de visual exuberante que não emplacou no gosto das audiências. Mas que vale uma sessão despretensiosa. 

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