Publicidade
Botão de Assistente virtual
Cotidiano | Entretenimento ENTREVISTA

Um bate-papo com Mônica Martelli, nossa 'marciana' favorita

Atriz e roteirista de 'Minha Vida em Marte' fala sobre retomada, superações, vida real e luto

Por Eduardo Amaral
Publicado em: 18.06.2022 às 03:00 Última atualização: 19.06.2022 às 15:53

Mônica Martelli, que passa pelo Estado em turnê de Minha Vida em Marte e se apresenta no Teatro Feevale quinta-feira (23), trilhou uma carreira pouco usual para artistas brasileiros. A carioca passou no vestibular para Direito, cursou a graduação por um ano e depois abandonou a universidade para estudar dramaturgia nos Estados Unidos. Após dois anos morando sozinha na terra do Tio Sam, onde trabalhava como maquiadora, voltou ao Brasil, aos 20 anos. Foi hora de reencontrar os bancos universitários, mas, desta vez, cursando jornalismo e, ao mesmo tempo, artes cênicas.

Mônica Martelli
Mônica Martelli Foto: Julia Rodrigues/Divulgação
Mesmo formada em jornalismo, foram os palcos e as telas que ganharam seu coração. Nesses espaços, construiu sua carreira. Por mais de uma década, Mônica foi se revezando entre novelas, filmes e peças de teatro. Embora não fosse uma completa desconhecida, o sucesso maior veio em 2005, quando levou ao teatro a peça "Os Homens São de Marte... E É Pra Lá que Eu Vou", em que conta as desventuras amorosas de Fernanda.

Mônica então com 35 anos viu sua carreira explodir: virou sucesso em todo o País e encheu palcos de norte a sul. A peça virou filme em 2014, e a fama só aumentou desde então. Mas a história de Fernanda não termina nos créditos finais da obra, é continuada na peça "Minha Vida em Marte", que conta a luta de Fernanda para manter um casamento. O espetáculo volta ao Teatro Feevale neste domingo.

Por e-mail, ela conversou com a reportagem do ABC e falou sobre a peça, a carreira, os planos para o futuro e o luto pela perda do amigo Paulo Gustavo. O humorista faleceu em 2021, vítima da Covid-19. Confira, a seguir, a entrevista completa.

ABC - Esta não é a primeira vez que você traz a peça para Novo Hamburgo, qual sua expectativa em relação à recepção do público nesse retorno pós-pandemia?

Mônica Martelli - Está sendo muito emocionante voltar com a peça dois anos e meio depois. Tô num misto de ansiedade, alegria e gratidão. O teatro é minha casa, onde me sinto dona do meu espaço, da minha arte. Eu sempre fui muito bem recebida pelo público de Novo Hamburgo, que é muito acolhedor. Então, reestrear no sul dois anos e meio depois é muito acolhedor. O teatro já está lotado!

Na peça 'Minha Vida em Marte', você conta o que se pode chamar de 'vida pós final feliz' de 'Os Homens São de Marte... E é Para Lá Que Eu Vou'. Quais são as reflexões presentes nesse texto?

O que tornou a Fernanda uma voz para as mulheres sempre foi ela escancarar sem medo seus sentimentos mais verdadeiros, suas angústias, suas expectativas, suas alegrias. A verdade é que torna a Fernanda uma mulher como todas as outras. A identificação é imediata. Não escondo nada. Não tento ser uma mulher forte o tempo todo. O que faz dela humana são suas fragilidades e seus medos que todos nós temos.

Podemos dizer que ainda estamos em processo de saída da pandemia, como tem sido esse processo de voltar aos palcos?

Uma alegria poder ver toda a minha equipe trabalhando de volta, de estar junto com o público! Eu estou com saudade de voltar a viajar pelo Brasil, de sentir o público, de ouvir o público, de ouvir as risadas. Teatro é vida, tudo que é ao vivo é vida. O sul sempre me recebeu com muito carinho, teatro sempre cheio, lotado. Sempre com muita alegria, com o público sempre interessado em ver esse espetáculo que fala de todos nós, fala de dor, amor, reencontro, separação, reapaixonamento… De todas essas emoções e sensações que a gente passa na vida. De medo, medo de separar, não querer separar, enfrentar a separação com coragem. Porque a gente na vida tem que continuar, tem que ter coragem, palavra que eu gosto muito e que significa agir com o coração. E quando a gente age com o coração a gente caminha, e a peça fala disso tudo. Acho que vai ser um belo encontro! Outra coisa importante é a gente se lembrar que a pandemia não passou, e que é importante estarmos todos vacinados, testados, com saúde para estar no teatro. Esse é um cuidado necessário.

Embora aborde temas bastante sérios como maternidade, relacionamentos e passagem do tempo, seu texto sempre busca fazer isso com muito humor e, ao mesmo tempo, com profundidade. Em que momento da sua vida e carreira você optou por usar o humor como ferramenta para contar as histórias, em vez de outros recursos como o drama?

Porque o humor não deixa de falar os dramas, não abandona as dores. O humor é uma forma de se manter na caminhada. Para escrever 'Minha Vida em Marte', eu precisei me separar para escrevê-la, e respeitar o luto do fim do casamento. Quando a gente casa, a gente deseja que dure pra sempre, apesar de racionalmente sabermos que a vida é feita de ciclos e que tudo tem início, meio e fim – mas ninguém casa para se separar. Por isso a gente luta que para que dê certo. A personagem luta para manter o casamento, mas nem sempre dá certo. Sempre quis contar esse história. Mas é isto: só depois de anos separada pude ter o distanciamento necessário para escrever nossas dores com leveza e muito humor. Esse é o recurso, saber que o humor é um modo, que a comédia também faz pensar. 

 

A morte do Paulo Gustavo mexeu muito com o meio artístico e social do País. Já é possível aceitar a perda ou ela ainda lhe gera algum tipo de revolta e indignação? E como você trabalha esses sentimentos?

A morte de Paulo Gustavo me causa ainda muita perplexidade. O luto é instável. Um dia você acha que superou, que melhorou; no outro dia, você fica mal de novo; no outro dia, você nega; no outro, não acredita; no outro, acha que a vida tem que continuar. Mas o que me permeia ainda, todo o tempo, é o sentimento de perplexidade. Todos os dias, eu paro e penso: 'Não é possível. Como pode? Não é possível', porque a obra do Paulo está aí, mas o amigo que me ligava dez vezes por dia para tudo, para trocar, pedir opinião, para eu pedir opinião para ele, não está mais aqui, e isso é muito doloroso. Eu passei por várias fases. Tive fases em que não via foto ou vídeo nenhum. Teve um dia em que senti tanta saudade que passei uma tarde vendo vídeos dele e depois fiquei mal… Então, é instável. Mexeu muito comigo, era meu parceiro de trabalho. Durante a pandemia, a gente escreveu metade de uma peça juntos que íamos fazer. Fizemos várias reuniões de 'Zoom' durante a pandemia inteira para o roteiro de 'Minha Vida Em Marte 2'… Foram muitas mudanças, é um baque muito grande. Mexeu com o Brasil inteiro porque ele representava alegria. Paulo Gustavo representava vida. Saudade não dá conta de tudo o que sinto quando penso no Paulo Gustavo. O sentimento de indignação, bem, esse permanece, sim. Pelo Paulo Gustavo e por muitas e muitas vidas brasileiras que não seriam perdidas se tivéssemos um governo que tivesse uma atuação diferente.

Como foi tomar a decisão de abrir mão de um personagem em uma novela do horário nobre da Globo? O que pesou na hora de bater o martelo?

Eu não consegui conciliar a agenda da peça com as gravações da novela, mas foi um namoro lindo, sou super fã da Glória (Perez). Mas, se estou agora em Novo Hamburgo, é por causa dessa agenda que tinha que cumprir. A peça, o teatro, o palco são a carreira que inventei para mim e minha prioridade, porque foi assim que conquistei tudo o que tenho. Mas o futuro está aí, e outro projetos virão.

Falando em decisões, você chegou ao auge da carreira de forma quase independente quando a sua peça estourou em todo país. Esse histórico de guinada na carreira, na época já com mais de 35 anos, ajuda a tomar decisões assim?

Sim. Quando eu consegui seguir o meu caminho, eu consegui alcançar a realização profissional, e isso me faz ter uma carreira autoral que tenho muito orgulho. Virei o jogo assumindo o comando da minha vida. Foi quando parei de esperar que alguém tivesse um olhar pra mim. Eu é que tinha que olhar para mim. E assim fiz. Escrevi minha peça, produzi e estreei em abril de 2005. Minha vida pode ser contada antes e depois de 'Os Homens ser de Marte'. Senti medo, insegurança, senti tudo. E é normal porque a gente sente mesmo. O que não pode é deixar o medo te paralisar.

Em uma entrevista à Marie Claire, você fala sobre o direito de envelhecer. Você gosta da ideia de poder ser vista como um exemplo de mulher que tomou para si mesma o controle do tempo?

Nao é controle do tempo. É uma aceitação e uma vontade de poder viver plenamente cada ciclo da vida. Amo a vida e busco ferramentas para amadurecer. Envelhecer não significa amadurecer. E devo dizer que nenhum ser humano pode se comportar igual depois da pandemia. A gente tem que olhar para fora. Fazer ações que façam a diferença na vida das pessoas.

Por último, que recado você gostaria de deixar para o público de Novo Hamburgo que vai ver a peça no dia 23 de junho?

Vou estar no palco com muita alegria, com muita energia e muita vontade de estar lá no palco do Feevale fazendo esse espetáculo. Estaremos juntos!

Observação:

A apresentação teatral em Novo Hamburgo estava prevista inicialmente para domingo (19), mas por motivos de saúde foi adiada para quinta-feira (23), ás 21h, no mesmo local. Os ingressos continuarão válidos para a nova data (23/06).

 

 

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.