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Opinião Gilson Luis da Cunha

Não é a mamãe!

Última atualização: 19.05.2019 às 11:33

Gilson Luis da Cunha Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros, filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura
www.gilsonluisdacunha.com.br

(DATA ESTELAR 19052019)

Em seu livro, Os Dramaturgos de Yan, John Brunner fala de uma raça alienígena que habita o planeta citado no título. Ele os descreve como hábeis escritores, capazes de uma prosa incrivelmente sofisticada, do tipo capaz de criar um romance de centenas de milhares de páginas, com uma complexa arquitetura dramática, apenas para terminá-lo com uma piada suja. Esse nível de ironia parece estar sendo atingido aqui mesmo, na Terra, por roteiristas humanos. Finais que mais parecem com bofetadas, como o de LOST, por exemplo, dão um sentido todo novo à fala de Maximus (Russell Crowe) em Gladiador: "O que fazemos em vida ecoa pela eternidade".

Dizem que Damon Lindelof, autor daquela aberração que foi o final de LOST, até hoje passa vergonha em ocasiões públicas. Pois bem, agora chegou a vez de outra série com final muito aguardado se encerrar: Game of Thrones, baseado na série de livros de George R. R. Martin. No último episódio, os fãs sentiram como se tivessem levado uma bofetada, quando a, até então, heroína Daenerys Targaryen, revelou-se uma assassina genocida, incinerando com a ajuda de seu dragão uma cidade que já havia se rendido. O episódio causou grande comoção. E não é para menos. A personagem, o protótipo da mulher empoderada e um símbolo de justiça e de esperança, libertadora dos oprimidos, "quebradora de correntes", deixou o bom-mocismo de lado e massacrou milhares de inocentes, entre eles, mulheres e crianças. E agora, Enzo Gabriel? E agora Bial, como é que fica? Nos Estados Unidos, uma geração de meninas foi batizada com o nome da "ex-heroína". Era para crescerem ostentando orgulhosamente um nome inspirador. Mas pagarão o mico de crescer carregando o nome de uma genocida. Fictícia, é verdade, mas, mesmo assim, uma genocida. Prevejo uma corrida desesperada aos cartórios quando elas completarem dezoito anos.

Muitas interpretações podem ser feitas desse episódio (não do episódio da série, mas da coisa toda). Há quem diga que ela, como muitos outros "heróis" ao longo da história humana, exerceu o direito da força, não a razão, mas o poder de fazer o que quer. Exemplos são muitos: o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki com armas nucleares, para demonstrar força, não para um Japão acuado pela derrota iminente, mas, sim, para a União Soviética, e mesmo os aliados, como quem diz: "experimenta vir, para ver o que acontece". Outros sugerem que todo mundo adora bancar o mocinho em casa, mas fora a coisa muda. E outros, ainda, simplesmente sugerem que ela enlouqueceu.

Dado o nível de endocruzamento que costumava acometer as famílias reais do passado, até seria uma hipótese viável. Mas a culpa, a grande culpa mesmo é dos roteiristas. Eles definem o rumo de uma história. Como artistas eles estão numa sinuca: podem dar (e muitas vezes dão) exatamente o que os fãs querem e conseguir a unanimidade. Ou podem tentar ser "autorais". Normalmente essa segunda opção é a que ferra com tudo mesmo. De nada adianta investir ao longo de quase uma década numa complexa estrutura dramática, pacientemente, para no final terminar tudo às pressas. Já vimos esse filme antes. E foi bem desagradável.

Se os executivos de grandes franquias adoram lembrar aos fãs que as sustentam de que elas são produtos de marca e não propriedades dos fãs, seria interessante começarem a lembrar disso eles mesmos. Se eu comprei carne estragada de certo frigorífico e só descobri após o almoço, será pouco provável que eu venha a comprar da mesma marca no futuro. Resumo da ópera: uma petição circula na Internet com o propósito de fazer os produtores apagarem essa temporada final e refazerem tudo, para só depois apresentar aos fãs. Essa é a era em que vivemos. Minha última coluna, LOST e a Agonia do Entretenimento (Data estelar 28042019) já debatia o "cansaço" criativo de produtores, diretores e, principalmente, roteiristas.

Pensei que depois dos casos que citei, não podia vir nada pior. Ledo engano. Enquanto escrevo estas linhas, a BBC faz uma campanha pedindo que o público envie ideias para a temporada 2020 de Doctor Who. Sério, sem brincadeira. Eles querem que outros façam seu trabalho de graça. E nem assim, visto que a emissora britânica foi afogada com milhões de e-mails reclamando dos roteiros simplórios e atuações ridículas da última temporada, ouviu seu público. Também enquanto escrevo, descubro que a "badalada" série Star Trek Picard, aposta da CBS All Access, serviço de stremimg da CBS, não será distribuída mundialmente pelo NETFLIX, mas sim pelo Prime Video, o serviço de streaming da Amazon. Comenta-se que o NETFLIX ficou insatisfeito com o trabalho de Alex Kurtzman como encarregado de Star Trek Discovery e resolveu não correr riscos.

Como desgraça pouca é bobagem, também foi recentemente revelado que os roteiristas de Game of Thrones estão encarregados não de um, nem dois, muito menos três, mas de SEIS filmes no universo de Star Wars, a serem produzidos pela Disney num futuro próximo. Agora é a hora da verdade. Estará o estúdio do camundongo disposto a bancar esses "gênios" contra tudo e contra todos, do mesmo modo que a BBC banca Chris Chibnall, produtor da atual e lamentável fase de Doctor Who? O tempo dirá. O fato é que "o mundo não é mais o mesmo", como diria um velho Logan ao pobre e decrépito Charles Xavier.

Décadas atrás, Isaac Asimov sentenciava: "se você não gostou do final, devia tentar escrever seu próprio livro". Pois bem. O desafio foi aceito por gerações de fãs. E hoje em dia, com veículos como a auto publicação, ou o filme independente, os grandes estúdios que abram os olhos. Há uma explosão de criatividade varrendo o planeta. Façam melhor, ou saiam da frente, pois alguém o fará! E falando em fãs, Chris Tex, um jovem artista brasileiro conseguiu, com recursos próprios, fazer um incrível trailer de uma versão live action para Nausicaa, a Princesa do Vale dos Ventos, clássico anime de Hayao Miyazaki. Seu objetivo é fazer um longa, sem fins lucrativos, para provar que o Brasil pode sim produzir bons filmes de entretenimento. Vale a pena conhecer o trabalho dele, que está disponível no youtube, com o título Wind Princess – Official Trailler. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.

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