Publicidade

Partidas e chegadas: a vida que renasce da despedida

Esquadrão Pégaso assume missão de transporte, mas doação de órgãos depende da solidariedade de famílias como a da enfermeira Adriana, mãe de Victor, estudante morto em 2017 Reportagem: Jeison SIlva

Sete de maio. Três horas da madrugada. Missão de emergência para o Esquadrão Pégaso, na Ala 3. Os ponteiros do relógio voam no pulso dos militares de serviço. Na parede de dois hospitais, um a 550 quilômetros distante de Canoas e o outro 740 quilômetros, outros medidores de tempo avisam que dois corações têm pressa.

O Tenente Aviador Ary Batista Rocha Neto, o Tenente Aviador Daniel Augusto Simões de Andrade e o mecânico de voo Sargento Vitor Luiz Patrício do Nascimento trabalham rápido para aprontar a aeronave C-98 Caravan para a decolagem. É preciso alinhavar pelo ar as três pontas de um longo percurso de renascimento. Um coração deixará o peito de um paciente anônimo (com morte encefálica atestada) em Navegantes (SC) e será conduzido pelas mãos habilidosas de dois médicos até o tórax da menina K., 13, (cuja complicação cardíaca foi descoberta pela família quando a garota tinha cinco meses de vida).

Equipe de sobreaviso por 24 horas

“Para proceder um voo, o tempo é soberano”, destaca Tenente Ary, piloto responsável pela missão.  Na Ala 3, antiga Base Aérea, uma equipe fica de sobreaviso 24 horas por dia para atuar em ações como a que atenderá a menina K. O 5º Esquadrão de Transporte Aéreo (5º ETA) completa 50 anos em 2019, atuando em missões de lançamento de paraquedistas, condução de cargas e passageiros e o chamado “lançamento múltiplo de carga”(cujo sistema-trilho, desenvolvido pelos militares aqui no município nos Anos 80, permite atender a entrega de alimentos e itens de sobrevivência de forma mais eficaz episódios de áreas isoladas por calamidade ou mesmo em treinamentos militares). É também o esquadrão que traz os refugiados venezuelanos para o município. O atual comandante da unidade é o Tenente-Coronel Aviador Fabiano Pinheiro da Rosa (o oficial já foi piloto de pelo menos dois ex-presidentes da república).

Já houve casos em que foi necessário cancelar uma operação de transporte de órgãos por não haver condições de pouso da aeronave.

No dia em que o DC esteve na Ala 3 a 1º Ten Monique é Monique D'Ávila retornava de uma missão e recordava de um dos episódios mais complicados. “Foi durante a Expoaer de 2017, chovia muito. Era um dia festivo para as crianças, a Esquadrilha da Fumaça não pode se apresentar, mas nos tivemos que levantar voo”, lembra. “Se não me engano era o transporte de um fígado e por sorte as condições de pouso no local da entrega estavam boas.”

Em 2019, via Canoas, foram realizados sete transportes de órgãos. Em todo país, a FAB transportou 121. A unidade referência fica em Brasília, o Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea (CGNA), que tem domínio de todo o espaço aéreo do país e sabe, por meio da tecnologia, onde existe uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) mais perto do ponto onde se faz necessária. A regra para o transporte de órgãos é o aproveitamento de voos da aviação comercial, porém nem sempre é possível esperar. Aí entram os militares (há também o fator tamanho da aeronave, pois em locais com menos estrutura de pista, um C-95 Bandeirante, um C-98 Caravan ou um C-97 Brasília viabilizam o pouso). Duas horas é o tempo protocolar de que precisam para levantar voo. A altitude varia de 7 mil a 25 mil pés, conforme a aeronave.

Isquemia

Com relação aos órgãos transportados, conforme o Ministério da Saúde, existe um tempo de isquemia ou Tempo de Isquemia Fria (TIF) como falam os militares da FAB. De maneira mais simples, quando um órgão é retirado, ele pode ficar apenas determinado período sem circulação de sangue. O coração é o que dura menos fora do corpo: quatro horas. O rim é o que suporta mais sem ser irrigado: 48 horas. Todo cuidado é pouco, apesar da urgência.

O transporte de um órgão precisa ocorrer em uma caixa térmica que mantenha temperaturas entre 2ºC a 8°C. Se for abaixo do previsto, o órgão pode congelar, inviabilizando o transplante. Impactos mecânicos também podem danificar o órgão.

Deu para perceber a pressão, a adrenalina que toma conta de todos os envolvidos. Ao mesmo tempo, é preciso ter enorme conhecimento técnico e tranquilidade para garantir o sucesso da operação e entregar uma nova chance de vida a um paciente que aguarda, às vezes, anos por essa chance de receber um órgão compatível.

Reencontro emocionante

Foram necessários 30 minutos de cirurgia no caso de K. em Curitiba. A operação de transporte do novo coração durou 50 minutos. De acordo com os aviadores, houve pouca conversa entre a tripulação e os médicos durante a viagem, pois todos estavam muito concentrados. A emoção mesmo foi possível após três meses do transplante quando os mesmos militares retornaram a Curitiba para rever K. Dos anjos da guarda ela recebeu uma aeronave em miniatura de presente. Os integrantes da FAB puderam presenciar o resultado efetivo da missão, receber o agradecimento e desejar sucesso no tratamento de saúde da menina. As informações mais recentes sobre o estado de saúde de K. é o de que a paciente chegou a receber alta, mas retornou ao hospital em decorrência de complicações (situação recorrente nos casos de transplante).

"Doar foi a forma que encontrei de deixar o meu filho viver"

No RS, em 2017, 295 doadores de órgãos possibilitaram que outras vidas pudessem ter uma nova história. Entre os doadores, para além dos meros números, está o estudante da 6ªsérie do Colégio Espírito Santo Victor Caetano Mendes, 12. No domingo, 10 de setembro de 2017, o garoto do bairro Nossa Senhora das Graças estava andando de bicicleta quando um acidente transformou para sempre a vida de familiares e amigos: após uma queda, o guidão acabou perfurando o fígado do menino. Victor foi encaminhado ao Hospital de Pronto Socorro de Canoas (HPSC), mas não resistiu aos ferimentos. O drama, que as palavras são insuficientes para traduzir, nas horas que se seguiram, transmutou-se em solidariedade por meio da doação de órgãos e tecidos.

O DC conversou com a mãe de Victor, a enfermeira Adriana Veloso Caetano, 49, sobre a importante decisão de dizer sim à doação (e de como é necessária a elaboração da perda para garantir que outras vidas ganhem nova esperança).

Doar os órgãos dele foi a forma que encontrei de deixar o meu filho viver.

Com 20 anos de experiência na área de saúde, o conhecimento de todo o processo fez a diferença apesar da pressão do instante e do turbilhão de sentimentos. Se você, leitor desta reportagem, ainda não comunicou aos seus familiares o desejo de ser um doador, a entrevista a seguir pode ressaltar a importância de dar esse passo fundamental. Conforme o Ministério da Saúde, cerca de 40% das famílias de doadores em potencial no Brasil ainda dizem não. Vidas deixam de ser salvas em hospitais de todo o país por essa decisão mergulhada em medos injustificados e até questões religiosas. A família de Victor enfrentou a questão e pode melhorar a vida de pelo menos três pacientes. 

Enfermeira há 20 anos, Adriana viu-se na situação de decidir sobre a doação dos órgãos de Victor Foto: Arquivo pessoal

ENTREVISTA - Adriana Veloso Caetano, enfermeira

Diário de Canoas – Como descrever a personalidade do Victor?
Adriana – O Victor era uma criança vivaz, faceira, de bem com a vida, adorava esporte, uma pessoa muito boa, generoso e caridoso.

DC – Como foram as horas até a decisão da doação?
Adriana – O acidente ocorreu no domingo, 10 de setembro de 2017. Victor teve um acidente de bicicleta, o guidão perfurou o abdome e às 17 horas ele foi encaminhado ao HPSC. A uma hora da manhã de segunda-feira ele fez uma ecografia (o equipamento de tomografia estava estragado), ele foi para a cirurgia, mas teve uma parada cardíaca assistida de 15 minutos. Na terça, perto das 18 horas, iniciou-se o protocolo para verificar a morte encefálica. Na quarta, foi atestada, mas como sou enfermeira eu já tinha identificado toda a situação. Antes de comunicarem algo oficialmente, eu perguntei para o pai do Victor se poderíamos doar os órgãos dele. A doutora veio e ainda disse que não tinha nada confirmado, mas como trabalho na área, já sabia. A captação de um doador estava em andamento para localizar um paciente compatível. Na quinta, às três horas da madrugada foram desligados os aparelhos.

DC – Como absorver tudo num instante tão difícil?
Adriana - É muito difícil. Antes de partir o Victor ainda pediu ao pai: “não me deixa morrer”. Doar os órgãos dele foi a forma que encontrei de deixar o meu filho viver. Foi uma decisão acertada: quando a gente morre, nosso corpo vai para baixo da terra, sendo tantos pacientes morrem numa longa espera por um doador. O Victor repetia sempre: “mãe não chora, eu tô aqui”. Eu sei que ele está mesmo. Sei que que ele não partiu daqui à toa, ele está vivo de alguma forma. Ele partiu com altivez e generosidade. Absorver este luto é um desafio diário. O Victor cumpriu a missão dele. É por isso que, sempre que solicitam, eu levanto essa bandeira e aceito falar a respeito. Abrir uma ONG está nos planos. Eu faço um apelo para sensibilizar as famílias. Ninguém é doador de órgãos se não disser antes, se a família não for a favor. Antes havia o adesivo na carteira de identidade, mas isso não adianta mais. A família precisa saber da vontade do paciente e autorizar. A primeira reação das famílias, em geral, no momento em que a equipe do hospital propõe a doação é: ele já morreu e ainda querem nos tirar o que resta dele? Mas a doação é um renascimento para o paciente que precisa.

DC – A senhora é enfermeira há vinte anos. Isso auxiliou de alguma forma na decisão?
Adriana – Não sei se é pior ou melhor saber antes o que está acontecendo, os procedimentos que a equipe médica está fazendo. Nada prepara uma mãe, profissional da área de saúde ou não, a ver o filho numa UTI, quando o brilho da pupila dele não existe mais. A morte encefálica não é matar ninguém, não é antecipar a morte de ninguém. O paciente será mantido por máquinas e medicamentos. Não se tem mais circulação no cérebro, ele não manda mais nenhum estímulo para nenhum órgão. O cérebro é que faz o comando do nosso corpo. Na morte encefálica, o corpo vai morrendo, entrando em colapso. Tudo é muito seguro por parte das equipes que atestam. No caso do Victor, um neurologista fez todas as verificações, foi realizado o exame de eco doppler para avaliar a atividade cerebral. Os profissionais que trabalham nesta parte são muito preparados. O HPSC tem uma equipe muito competente, inclusive para conversar com as famílias sobre a possibilidade de doação. Como enfermeira nunca atuei em UTI, mas no início da carreira tratei de vários pacientes com câncer. A gente se apega a eles, com carinho, quando perde um paciente é difícil. Para quem trabalha na área da saúde se diz que o profissional não pode se envolver, porém, acho que a dor do outro deve ser um pouco a nossa dor para que tratamos dos pacientes com mais humanidade.

DC – O que a senhora sabe sobre os pacientes que receberam os órgãos de Victor?
Adriana – É um procedimento sigiloso e a gente nunca sabe em detalhes. O que pude obter de informação é que uma menina de seis anos recebeu um rim de Victor e um idoso de 76, o outro. É reconfortante saber que pessoas que eram submetidas à hemodiálise tiveram uma sensível melhora na qualidade de vida graças à doação. É possível que o Victor tenha ajudado a abastecer o banco de pele da Santa Casa (logo após a partida dele houve um incêndio em uma creche de Minas Gerais e esta unidade do hospital gaúcho auxiliou muito as crianças vítimas.

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Publicidade
Matérias especiais
Transferência de recursos
premium

Novo Hamburgo e São Leopoldo seriam beneficiados com extinção de municípios

Região
Colorido especial
premium

Com decoração caprichada, casa vira atração turística em Ivoti

Região
Sustentabilidade
premium

Projeto de minicisternas em escolas de Novo Hamburgo é finalista de prêmio da ONU

Novo Hamburgo
Cotidiano
premium

Para sentir no bolso: valor das placas no padrão Mercosul variam quase 170% na região

Região