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Saiba quem é Joice Maria Lamb e os segredos da Educadora do Ano

Projeto #aprenderecompartilhar da professora hamburguense foi o vencedor entre os 4.876 inscritos em todo o Brasil Reportagem: Bruna Mattana

Generosa, aberta ao novo, inquieta, leitora voraz, incentivadora do conhecimento. Esses são alguns dos adjetivos que definem, quase que de forma unânime, a professora hamburguense Joice Maria Lamb, 47 anos. Com o projeto #aprenderecompartilhar, ela conquistou o prêmio Educadora do Ano, na última segunda-feira, durante cerimônia realizada em São Paulo. Na ocasião, disputou a premiação com outros nove professores, que já haviam sido agraciados, assim como ela, com o prêmio Educador Nota 10. Ao todo, a premiação recebeu a inscrição de 4.876 projetos de todo o Brasil.

Formada em Letras, com pós-graduação em Gestão Escolar e em Coordenação Pedagógica pela Ufrgs e extensão em Formação de Professores - Gestar II pela UnB, Joice explicou a proposta do trabalho que deu-lhe o título de melhor professora do País, desenvolvido na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Adolfina Diefenthäler. Baseada na gestão democrática, a iniciativa tem como fundamentação teórica os trabalhos dos educadores Paulo Freire, Pedro Demo e António Nóvoa. 

Segundo a professora, o #aprenderecompartilhar consiste em um conjunto de projetos que são executados no intuito de resolver demandas pontuais na escola. "Em 2012, identificamos muitos alunos com defasagem idade-série, ou seja, que reprovaram muitas vezes e ficaram parados no tempo. Além disso, não estavam sendo alfabetizados no tempo correto", lembra. Para resolver o problema da defasagem, foi criado o projeto Mais Adolfina. "Hoje temos uma defasagem de apenas 4%."

Na tentativa de resolver a situação da alfabetização tardia, foi criado um parâmetro próprio para monitorar o ensino. "Identificamos que 60% dos alunos, no segundo ano, eram pré-silábicos, ou seja, que ainda acham que, quando se escreve uma palavra, as relações não são a do som. Por exemplo, escrevo formiga com poucas letras porque formiga é pequena. Por isso, avaliamos o método que os professores utilizavam para alfabetizar. No ano seguinte, de 60% fomos para 13% de alunos pré-silábicos."

Depois, a escola deu início à gestão democrática, realizando assembleias para apontar prioridades no ensino e gestão escolar.

Pesquisas

No projeto de iniciação científica, os alunos podem fazer os seus trabalhos e pesquisas com base em temas de seu interesse. "Esse ano tivemos 130 trabalhos em nossa feira, que tratam de temas diversos, como violência doméstica, porte de armas, feminismo, coisas que estão na sociedade. Recebemos cerca de 100 pessoas por dia para avaliação dos trabalhos".

 Alunos, professores e funcionários. Os alunos são responsáveis uns pelos outros. Cada um é livre para fazer o que quiser: brincar, lanchar, conversar, jogar.

Outro projeto que faz parte do #aprenderecompartilhar é o Fora da Caixa. "No início do ano, a gente divide alunos da faixa etária 4 até o quinto ano em grupos e, uma vez por semana, eles se reúnem em uma sala com professores da escola, que desenvolvem oficinas. Tem de tudo. Aula de culinária, brincadeiras no pátio, teatro. A cada encontro conhecem uma professora nova."

Uma aluna aplicada

Joice e Lanussi Foto: Arquivo Pessoal
Amiga de Joice desde que ambas tinham 12 anos, a artista visual Lanussi Pasquali, 47, conta que as duas se conheceram na quinta série do Colégio Pasqualini. "Estudamos juntas durante todo primeiro grau e depois fizemos Magistério no Colégio Santa Catarina. Também jogávamos handebol no time do Pasqualini".

Segundo Lanussi, Joice sempre foi uma aluna nota 10. "Ela sempre foi extrovertida. Uma pessoa fácil em fazer amizades. Além da inteligência, ela sempre teve muita curiosidade em entender as coisas, de vivenciá-las. Joice tem uma noção de ética primorosa, que compreende as diferenças e as dificuldades e sabe mediar conflitos. Tive a alegria de trabalhar com ela durante um ano na escola Martha Wartenberg", relembra.

Inspirando gerações

A promotora de vendas Michele de Mello Rodrigues, 35, foi aluna de Joice na quinta série, na Escola Municipal Martha Wartenberg, em meados de 1995. “Ela foi umas das melhores professoras que tive. Publicamos um livro chamado A arte da Palavra, que continha nossas poesias. Todo dia ela lia para nós durante 15 minutos, antes da aula. Também tínhamos um projeto no qual trocávamos cartas com alunos de outra escola do bairro. Hoje minha filha Isadora, de 5 anos, estuda na Adolfina e eu fico muito feliz em saber que ela tem a oportunidade de conviver com a Joice, pois ela cativa os alunos”, opina.

Trabalho em equipe

A professora aposentada Valdívia Steigleder, 64, conta que conviveu com Joice durante cerca de 10 anos. “Eu fui diretora na época em que ela era professora na Afonso Pena. Ela sempre fez um trabalho muito criativo. Quando trabalhou na biblioteca, procurou inovar, tendo boas ideias. Acredito que muitos professores fazem um trabalho interessante em sala de aula, mas não é divulgado. A Joice sempre divulgou suas iniciativas e acho isso fundamental”, salienta. A diretora da Adolfina, Andrea Zimmer, salienta que, quando chegou à escola, havia uma boa estrutura física, mas muitos alunos fora do ano que deveriam estar.

“Começamos as assembleias com professores para debatermos como resolver esse problema, e começamos um trabalho conjunto. Por isso, os professores da Adolfina sentiram como esse prêmio sendo seu também, pois eles fizeram parte dessa transformação”, celebra 

Colegas da Escola Afonso Pena, onde Joice iniciou sua trajetória docente Foto: Arquivo Pessoal

 

Dedicação e apoio à família

"Minha família é o meu coração". O amor, expresso em tom de poesia, reflete a personalidade da professora, descrita pelo marido, Dennis Magalhães, 43, como um "ser humano iluminado". Juntos há 19 anos, eles têm três filhos: Vinicius, 18, Dylan, 14, e Tyler, 9.

"É uma honra poder caminhar com essa mulher, aprender com ela. Ela é uma enciclopédia ambulante. Adora poesia. É uma exímia leitora e, consequentemente, escritora. Adora ler. Até quando amamentava ela lia. Cozinhado ela lê no kindle, tablet, celular. Gosta de livro físico, revistas, Jornais", conta o marido.

Um grande admirador de Joice, Dennis destaca a vocação e a persistência da professora. 

Diante de um cenário tão caótico na educação, ela sempre conseguiu vislumbrar um raio de esperança, tanto nos alunos quanto nos seus colegas. Ela une, não separa. Explica e não julga. Ela entende, compreende, conduz e elogia.

Filho de Joice, o estudante Vinicius Lamb Magalhães, 18, diz que a mãe leva trabalho pra casa "como toda professora", mas é totalmente dedicada à família. "Ela conta pra gente sobre os projetos que está desenvolvendo. Conversa, pede sugestão. Admiro muito ela pelo seu trabalho, pena que nunca tive o prazer de ser aluno dela. Ela tem uma boa noção de disciplina. Não é brava, mas firme quando necessário. Ela nos dá bastante independência, mas nos ajuda com trabalhos e é bem interessada com a nossa educação", salienta.

A professora e cunhada Eliete Notarjagamos, 50, ressalta que Joice é uma professora apaixonada. "Tive oportunidade de ser sua colega e seu encantamento pela leitura transportava nossos alunos para esse universo mágico. Seus projetos sempre pautaram o protagonismo dos alunos, dando-lhes possibilidades de desenvolver sua autoestima. Como gestora escolar, no caminho de uma gestão democrática, estimulou os professores a oportunizarem aos alunos experiências de construção do conhecimento", pontua.

Nas horas vagas, além de ler romances, adora fazer artesanato e tarefas de jardinagem.

 

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Escritores que servem de inspiração

"Para nós a questão de Pedro Demo é dar valorização da iniciação científica, da pesquisa na escola. Uma vez ele veio para Novo Hamburgo, eu fui até ele, falei sobre nosso projeto de iniciação científica, enviei o material para ele que, muito gentilmente, respondeu diretamente para nós e nos deu algumas sugestões."

"Paulo Freire fala em dar voz às pessoas. Quando ele começou com alfabetização no Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) ele dizia que era preciso alfabetizar aquelas pessoas adultas como pessoas adultas e não como crianças. Paulo Freire diz que precisamos falar com as pessoas, dar voz a elas e não só para elas."

António Nóvoa também esteve em Novo Hamburgo, em um evento do Sindicato dos Professores. Ele fala muito sobre a formação do professor, que deve ser feita dentro da escola. Os professores mais antigos trabalhando junto com os professores mais jovens, não só na teoria, mas também na prática e é isso que a gente faz na Adolfina."

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