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Notícias | Região Oferta e procura

Com aumento da demanda de pacientes, prefeituras disputam médicos

Dengue e doenças típicas do período pressionam sistema de saúde e provocam corrida por profissionais

Por Ermilo Drews
Publicado em: 07.05.2022 às 07:00

Dengue, viroses e doenças respiratórias elevam demanda em unidades de saúde
Dengue, viroses e doenças respiratórias elevam demanda em unidades de saúde Foto: Joceline Silveira/Arquivo GES

O crescimento de casos de dengue, o aumento da demanda por atendimentos pediátricos e a dificuldade na contratação de médicos se tornaram desafios para gestores nos municípios da região e motivo de revolta para pacientes. Muitos aguardam horas por atendimento. Um dos casos emblemáticos acontece nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) de Novo Hamburgo, onde frequentemente a população relata demora acima do habitual. Mas até nas pequenas cidades a procura está elevada, assim como o tempo levado para contratação de médicos.

Na pequena Alto Feliz, com 3 mil moradores, a prefeitura tenta há três semanas uma contratação para reforçar o atendimento na única Unidade Básica de Saúde (UBS) da cidade, por conta do aumento de doenças respiratórias. Mas os R$ 9 mil por 40 horas semanais não atraíram interessados. "Estamos tentando via consórcio de municípios no Vale do Caí, mas está difícil", admite o vice-prefeito, Douglas Schneider.

"A procura aumentou demais. Tenho plantão 24 horas. Depois das 22 horas, o normal, com o arrefecimento da pandemia, eram umas três pessoas aparecerem. Hoje são 30. Além da dengue, parece que a própria Covid deixou o pessoal mais preocupado. Qualquer tosse, dor de barriga, batem no posto de saúde", analisa o prefeito de Araricá, Flavio Foss. Cenário que exigiu reforço de um médico para trabalhar das 8 às 18 horas na cidade de 5,7 mil habitantes. Contratação que conseguiram contornar. "Por estarmos próximos a cidades maiores, com acesso fácil pela RS-239, isso contribui", admite Foss.

Dengue e crianças

A realidade enfrentada nas pequenas cidades é amplificada nos maiores municípios. Diretor-presidente da Fundação de Saúde Pública de Novo Hamburgo (FSNH), o médico Augusto Lengler Vargas admite que as UPAs Canudos e Centro são o principal gargalo, especialmente por serem porta de entrada do sistema e em função do crescimento abrupto da demanda, puxado pela explosão da dengue em adultos e pela baixa imunidade das crianças. "A maioria destas crianças não saiu durante a pandemia. Com este retorno ao convívio, houve o aumento das doenças típicas da tenra idade."

O número de pacientes pediátricos saltou de 40 para 100 ao dia por UPA. O de adultos, da média de 100 para 150. Números que extrapolam a capacidade de atendimento num tempo adequado pelos dois pediatras e três clínicos que atuam diariamente em cada UPA.

Vargas admite o problema e frisa que tenta contratações, especialmente de pediatras, mas esbarra nos altos valores e na escassez de profissionais. "É um especialista raro e disputado por todos os municípios. É questão de oferta e procura. Na pandemia, o mercado inflacionou. Muitos profissionais buscam mercados onde pagam mais."

Enquanto não avança nas contratações, o diretor-presidente da FSNH revê processos e reforça equipes de técnicos e enfermeiros, especialmente nos finais de semana, quando também são abertas as UBSs Canudos e Santo Afonso para darem suporte às UPAs. "Aguardar para ser atendido em qualquer ambiente, mesmo saudável, é cansativo. Imagina doente. Estamos buscando caminhos para resolver."

Doenças sazonais e dificuldade na contratação

Secretário de Saúde de Campo Bom, João Paulo Berkembrock observa que nos períodos de mudança de estação há elevação de doenças sazonais, como viroses, o que sobrecarrega todas as unidades de saúde. "Além disso, estamos passando por um período de dificuldade de contratação de médicos fixos. Também é notável o aumento de número de usuários no Sintema Único de Saúde (SUS)."

A prefeitura estava com processo seletivo aberto para contratar seis profissionais. "Mas normalmente sobram vagas", admite o prefeito Luciano Orsi. Na tentativa de conquistar interessados, o município oferece, além do salário base, benefícios como insalubridade, alimentação, gratificação específica e adicional por produtividade.

"Quanto maior a demanda, mais difícil de conseguir estes profissionais", reforça o presidente da Associação dos Municípios do Vale do Rio dos Sinos (Amvars) e prefeito de Dois Irmãos, Jerri Meneghetti.

Sindicato médico aponta má distribuição

Presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Marcos Rovinski afirma que num contexto amplo não faltam profissionais no País. O problema está na distribuição. "Hoje, temos mais de 520 mil médicos no Brasil. Isso dá uma proporção de profissionais por habitantes semelhante a países do primeiro mundo."

Rovinski defende que as distorções ocorrem pela própria desigualdade do País. "O interior da Amazônia, por exemplo, tem pouco mais de 300 médicos. No Rio de Janeiro, sobra. O Rio Grande do Sul tem, sim, cidades que precisariam de mais, mas a remuneração é inadequada, condições de trabalho são ruins e os médicos ficam na linha de frente, tendo que enfrentar as mazelas do sistema de saúde." Situação que gera insegurança à categoria. "Diante deste cenário, a população vê no médico o culpado pelos seus problemas, quando ele está ali para atender, e acaba recebendo toda agressividade. Por isso, em algumas cidades não há interessados."

O dirigente não acredita que a formação acelerada de profissionais pelo Brasil resolverá esta distorção. "Temos faculdades de medicina suficientes, até mais do que deveria pela formação que oferecem. Só não temos mais do que a Índia, onde tem 1,4 bilhão de pessoas. Até 2030 teremos mais de 850 mil médicos no País. Só que como qualquer profissional, ele procura melhores condições de trabalho e remuneração. Por isso, muitos optam por centros maiores."

O presidente do Simers critica ainda a tercerização dos serviços públicos de saúde, medida habitual em muitas prefeituras. "Estas empresas que assumem, eventualmente, quarterizam, contratando o médico como pessoa jurídica. E justamente por visarem o lucro, contratam o mínimo. Onde deveria ter três médicos, há um. Isso gera a demora."

Saúde pública não atrai

Levantamento recente da Federação das Associações dos Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) mostrou que prefeituras gaúchas admitiam a necessidade de 115 médicos na atenção básica num universo de 70 cidades.

Assessor técnico da área da Saúde da Famurs, Paulo Azeredo é outro a admitir que existem profissionais no mercado, mas nem sempre há interessados em atuar no serviço público. "E as prefeituras gaúchas não pagam mal. Na média, um clínico ganha R$ 15 mil, R$ 18 mil, a carga horária pode variar. Mas muitos preferem os grandes centros e atividades mais rentáveis."

Azeredo sugere a descentralização dos serviços de média e alta complexidade como forma de estruturar melhor a saúde em mais cidades gaúchas, o que ajudaria a atrair profissionais. Ele também defende foco na humanização na formação dos médicos. "As prefeituras oferecem cada vez mais, só que existe um limite orçamentário." Ele frisa que, de maneira geral, as administrações investem bem acima do teto constitucional de 15% em saúde. "Aportando recursos, inclusive, na média e alta complexidade, que são competência dos demais entes federativos."

Com menos interessados aqui no Estado, a Famurs criou um banco de dados onde as prefeituras indicam as vagas disponíveis para médicos. "É o OportunizaSaúde. A ideia é divulgar isso junto aos conselhos de medicina, universidades, para trazer médicos de fora do Estado."

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