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Notícias | Região INVESTIGAÇÃO

Policial usou câmera nos óculos para flagrar aplicação de falsa vacina em Novo Hamburgo

Sentença traz segredos sobre o processo e a condenação da dona de clínica, que tem filho de influente político como uma das 50 vítimas

Por Silvio Milani
Publicado em: 24.05.2022 às 22:21 Última atualização: 25.05.2022 às 01:19

Com a condenação à prisão da dona de clínica de Novo Hamburgo por aplicação de falsas vacinas, vêm à tona segredos da investigação sobre um escândalo de saúde de repercussão nacional. A começar pelo flagrante. Para confirmar a denúncia de que a farmacêutica Luciana Sandrini Rihl, 41 anos, injetava agulha com frasco vazio e enganava clientes, uma policial civil usou câmera oculta nos óculos. Os detalhes estão na sentença, que saiu na última sexta (20) e foi revelada ontem pelo Jornal NH. A condenada nega os crimes.

Luciana foi presa no dia 14 de fevereiro de 2018 no ambulatório da Maurício Cardoso
Luciana foi presa no dia 14 de fevereiro de 2018 no ambulatório da Maurício Cardoso Foto: Fotos Polícia Civil
A agente que se passou por cliente, no dia 14 de fevereiro de 2018, não participava da investigação. No depoimento em juízo, ela contou que foi atendida pela dona da clínica Vacix, que funcionava em prédio na Avenida Maurício Cardoso, bairro Hamburgo Velho. Durante a preparação, conforme o processo, Luciana pegou a vacina na parte inferior da geladeira, momento em que a policial pediu para ver, constatou que estava vazia e prendeu a investigada. O “óculos espião” gravou tudo.

“Bombando”

Outro policial da operação relatou que, enquanto havia falta de vacinas no mercado, a clínica Vacix “estava bombando”. A dona dizia estar com estoque e garantia as aplicações a quem a procurava. Era o caso do imunizante da febre amarela, que a agente do “óculos espião” negociou com Luciana.

As reservas da Vacix despertaram desconfiança de uma clínica de pediatria do Vale do Sinos, que também aplicava vacinas. “Como ela consegue, se nenhuma outra da região metropolitana tem acesso aos imunizantes?” A concorrente fez a denúncia à Vigilância Sanitária de Novo Hamburgo quando a Vacix já era alvo do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). O órgão policial foi procurado por uma ex-funcionária da clínica, a técnica de enfermagem Juliana Venske, 39, que contou os crimes que viu, principalmente as injeções sem imunizantes.


Filho de influente político é uma das 50 vítimas

Uma das 50 vítimas identificadas no processo é filho de influente político do Vale do Sinos. O menino, então com oito meses, foi levado em janeiro de 2018 pela mãe à clínica de Hamburgo Velho. A esposa do homem público, no depoimento, trouxe informações relevantes ao processo. Relatou que, após um meio e meio atrás da vacina hexavalente, sem encontrar em nenhum hospital até da capital, uma amiga sugeriu que procurasse a Vacix. Foi atendida por Luciana, que disse ter apenas uma dose.

No momento da aplicação, ficou muito focada em seu filho e não na preparação da vacina. Entretanto, conforme ela, chamou sua atenção que a criança não chorou muito. Seu filho não teve nenhuma reação, diferentemente do que tinha ocorrido com outras vacinas. Pagou 320 reais. Como precisava da vacina, a mãe não deu importância a possíveis mentiras contadas por Luciana. A farmacêutica a explicou, em conversa por Whatsapp, que tinha parceria com um hospital de Lajeado, que encaminhava doses à Vacix quando havia menor procura. A acusada também citou o nome de um ginecologista de Novo Hamburgo como responsável técnico da clínica.

Segundo a mãe, a acusada puxava assuntos e questionou quem era o pediatra do seu filho. Luciana disse então que conhecia o médico e havia vacinado a neta dele, Helena. No entanto, o pediatra a desmentiu, dizendo que o nome de sua neta era outro e que era ele quem aplica as vacinas na criança. Também a orientou a não levar mais seu filho àquela clínica. Quando soube da operação envolvendo a Vacix, ficou em choque. Não seria possível verificar se o filho foi de fato imunizado, razão pela qual o pediatra a orientou a refazer a dose.


O caso Vacix

O juiz da 2ª Vara Criminal de Novo Hamburgo, Guilherme Machado da Silva, condenou Luciana a sete anos e seis meses de prisão em regime fechado, mas ela pode recorrer em liberdade. A pena é por estelionato. O magistrado ainda determinou multa aproximada de R$ 63,6 mil. A ré foi absolvida de duas acusações: crimes contra a saúde pública e crime contra as relações de consumo.

Ambulatório na Maurício Cardoso foi interditado em fevereiro de 2018
Ambulatório na Maurício Cardoso foi interditado em fevereiro de 2018 Foto: fotos Polícia Civil
A farmacêutica chegou a ficar dois dias na Penitenciária Pelletier, após o flagrante na clínica, e ganhou o direito à prisão domiciliar, no dia 16 de fevereiro de 2018. Em pouco tempo, já estava em liberdade provisória.

A operação do Deic apreendeu o celular de Luciana, computadores, notas fiscais e vários imunizantes, muitos deles vencidos, foram apreendidos. Também houve buscas na casa dela, em Dois Irmãos. Em março de 2018, laudo da perícia confirmou fraudes na aplicação de vacinas.

Na sentença, o juiz frisa que foram identificadas 12 vítimas crianças – a maioria bebês - e 38 adultos. “Mas a fraude tem alcance real ignorado, pois muitos clientes se vacinavam no local pagando em espécie e sem exigir nota fiscal, e a clínica não possuía os registros obrigatórios de vacinação”, observa.

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