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Opinião

Líderes gaúchos capitulam na pior hora

Leia a opinião de Alexandre Aguiar

Por Alexandre Aguiar
Publicado em: 22.02.2021 às 19:12

Na última sexta-feira (19), o governo do Rio Grande do Sul apresentou o seu mapa semanal do Plano de Distanciamento Controlado. Onze regiões foram classificadas como em bandeira preta, de altíssimo risco de contágio, incluindo Porto Alegre, os Vales, a Região Metropolitana, parte do Litoral Norte e a Serra Gaúcha.

No fim da tarde desta segunda-feira (22), o governo do Estado anunciou que indeferiu todos os recursos de prefeitos contra a bandeira preta, entretanto manteve o chamado sistema de cogestão, uma invencionice sob o manto da flexibilidade que permite aos prefeitos que adotem as restrições da bandeira imediatamente inferior, no caso a vermelha.

O governador justificou que cabe aos municípios a fiscalização na ponta do sistema dos protocolos de distanciamento e que, no final do ano passado, o povo gaúcho conferiu aos atuais prefeitos a legitimidade das urnas em campanha que teve a epidemia em debate.

As explicações do governador não convencem.

Eduardo Leite capitulou.

A reunião que manteve hoje no final da manhã com os prefeitos foi festival de asneiras por parte dos prefeitos municipais. Muitos anunciaram que estavam fechando suas áreas públicas, mas mantendo o comércio funcionando. Ora, é na praça ou no parque público que o risco de se infectar é muito menor que em um estabelecimento fechado porque o ar circula e há ventilação. É o que dizem os maiores estudiosos da epidemia.

O governador é quem tem a visão macro de todo o Rio Grande do Sul e é sabedor que a crise de leitos em uma região acabará repercutindo em outras à medida que pacientes vão ser transferidos de uma cidade para outra por escassez de vagas. Os prefeitos não têm tal visão e enxergam apenas as suas realidades locais.

Por que um prefeito de uma cidade de 5 mil habitantes pode ter voz sobre cogestão que impacta Porto Alegre com 1,5 milhão de habitantes e recebe metade dos pacientes do Estado, grande parte do interior? Apesar que o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, igualmente falha miseravelmente no enfrentamento da epidemia ao defender a cogestão, pressionado por grupos econômicos que foram decisivos na sua eleição.

O governador Eduardo Leite, ao manter a cogestão, contrariou o próprio comitê científico que criou e que no domingo manifestou-se em comunicado “fortemente” (este foi o termo usado) pela suspensão da cogestão e adoção das regras reais da bandeira preta.

Leite foi incapaz de fazer valer o que ele próprio acredita, que o momento de gravidade extrema exigia a suspensão da cogestão. Mostrou fraqueza em um momento crítico, o que é inaceitável para quem escolheu ser líder e não súdito. Liderar significa adotar ações que são impopulares se objetivando o bem comum. Liderar significa contrariar grupos de interesses. Liderar significa assumir responsabilidades.

O que se vê hoje no Rio Grande do Sul é puro cálculo político. Grande jogo de empurra-empurra e de transferência de responsabilidades. Uma enorme lavada de mãos dos nossos agentes públicos.

Nesta segunda-feira Porto Alegre bateu o recorde de internações em UTI deste o começo da epidemia. Os postos de saúde da Capital testemunham cenas de caos de doentes passando mal na rua à espera de atendimento e espera de muitas horas de doentes. Em Boqueirão do Leão já faltou oxigênio e um paciente morreu porque não havia leito.

Os principais hospitais de Porto Alegre lançaram manifesto conjunto em que advertem para o colapso iminente do sistema de saúde. Em tom dramático, alertam que a situação já crítica vai ficar muito pior. E pediam a suspensão da cogestão, hoje negada. Números do próprio governo do Estado estimam o colapso da saúde nos Vales em três dias e na Grande Porto Alegre em uma semana.

Se você adoecer e pegar o vírus, não vai ter hospital ou UTI para se tratar, mesmo o número de leitos tendo sido dobrado no Rio Grande do Sul nos últimos meses. O que se avizinha é dramático. O filme que os amazonenses testemunharam, os gaúchos agora verão em sua própria sessão de terror ao vivo.

Desafiar a ciência e os apelos dos especialistas custará caro. Em poucos dias os que nesta segunda-feira são contra o fechamento vão anunciar o fechamento porque serão atropelados pelos fatos e nada mais forte que cenas na televisão de gente morrendo sem atendimento e sem ar para respirar. Aí já será tarde, se já não seria tarde hoje.


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