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Os militares e as eleições

Por Sergio Etchegoyen
Publicado em: 14.05.2022 às 03:00

As Forças Armadas (FFAA) participam desde sempre do processo eleitoral brasileiro. A cada pleito, nacional ou local, por requisição do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), elas transportam e guardam urnas e proveem segurança aos locais de votação quando os meios policiais locais são considerados insuficientes. Nestes tempos digitais que correm elas foram convidadas, importante frisar, pelo então presidente daquela corte, ministro Luís Roberto Barroso, a integrar a Comissão de Transparência das Eleições em função da elevada capacidade que detêm no campo da defesa cibernética (no pleito de 2018 a ministra Rosa Weber criou o Gabinete Estratégico, do qual tive a honra de participar). Instado pelo mesmo magistrado a analisar a segurança do processo eleitoral, o Ministério da Defesa organizou grupo de trabalho da mais elevada competência, integrado por organizações como Comando de Defesa Cibernética, Instituto Militar de Engenharia, Instituto Tecnológico da Aeronáutica e Centro de Análise de Sistemas Navais, todas com inegável prestígio nacional e internacional. O relatório produzido, técnico e isento, trouxe as sugestões das melhorias julgadas necessárias.

O atrevimento de apresentar o que deveria ao invés do que desejavam algumas autoridades deflagrou uma campanha de questionamentos das Forças Armadas. De um lado, as sistemáticas acusações do presidente da República ao processo eleitoral sem apresentar uma prova sequer. Do outro, ministros do TSE que, na falta de respostas consistentes, escolheram desqualificar o resultado do trabalho que eles mesmos requisitaram, com respostas vagas e superficiais. Um trágico show de horrores, um triste choque de egos no qual candidatos e juízes, num acesso descabido de vaidade, posicionam-se acima das instituições que representam, arrastando-as para o ringue do vale-tudo eleitoral.

Não há crise entre instituições, mas um confronto entre agentes públicos que se escudam ou instrumentalizam outras instituições para justificar ambições e querelas pessoais. Enquanto escrevo este artigo, noticia-se que o presidente do TSE teria afirmado que "quem trata de eleições no Brasil são as forças desarmadas", a ser verdade, teremos um ministro lacrador à frente da Justiça Eleitoral.

No mundo real, distante do universo paralelo onde se desenvolvem as campanhas eleitorais, as FFAA e as estruturas regionais da Justiça Eleitoral seguem cumprindo suas missões com tranquilidade, inclusive cooperando mutuamente, e não se ouve qualquer ruído. Enquanto isso, discute-se com paixão a confiabilidade das urnas, eu desconheço qualquer prova contrária. Centrar o debate nelas é reduzir toda uma sequência de eventos de alta tecnologia e complexidade a um único, as próprias urnas. Negar a discussão é imaginar que exista sistema inviolável ou isento de aperfeiçoamento.

Não há risco maior à nossa democracia do que duvidar da sua solidez. Bancar o super-herói na sua defesa é arrogância que menospreza o eleitor, em particular, e a cidadania, como um todo, além de estimular, aí sim, candidatos a tiranetes travestidos de salvadores-da-pátria.


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