Publicidade
Botão de Assistente virtual
Opinião Opinião

O adeus à grande dama da galáxia

Uma homenagem a Nichelle Nichols, a Uhura de Star Trek

Por Gilson Luis da Cunha
Publicado em: 05.08.2022 às 16:03 Última atualização: 05.08.2022 às 18:13

(data estelar 05082022)


Gilson Cunha
Gilson Cunha Foto: Jornal NH
Nascida Grace Nichols, em 28/12/1932, Nichelle Nichols era atriz, cantora e dançarina. Começou a carreira como cantora de jazz, acompanhada da orquestra de Duke Ellington e de Lionel Hampton. Sua primeira grande chance no show business veio, na verdade, de um fracasso, o musical da Broadway Kics and Co, de Oscar Brown. Na peça ela fazia o papel de Hazel Sharpe, uma sensual rainha do campus tentada pelo diabo. Apesar de uma curta temporada em Chicago, Nichols chamou a atenção de Hugh Hefner, o editor da Playboy, que a contratou como cantora para o Chicago Playboy Club , em 1961. Ela chegou atuar no papel de Carmen, no musical Carmen Jones, uma adaptação da famosa opera de Bizet para os Estados Unidos dos anos 40. Nichelle também atuaria em Porgy and Bess, de George Gershwin. Entre atuações no teatro e shows como cantora ela também trabalhava ocasionalmente como modelo.

Em 1963 ela atuou no seriado The Liutenant, criado por Gene Roddenberry, que futuramente lançaria Jornada Nas Estrelas (Star Trek), um seriado que marcaria a história da ficção científica na TV. The Liutenant teve uma única temporada, de 1963 a 1964. No entanto, acabou se tornando uma “peneira” através da qual Roddenberry encontrou alguns dos futuros astros de Jornada : Leonard Nimoy (Spock) , Walter Koenig (Checov), e a própria Nichelle Nichols (Uhura).

Na época, Majel Barret, a futura enfermeira Christine Chapel, também participou de The Liutenant. Roddenberry, que já era casado, teve um romance com ambas. Nichelle disse em uma entrevista, décadas depois, que resolveu encerrar aquela relação porque não queria ser “a outra da outra”. No final, Roddenberry se divorciou da esposa e Majel se tornaria Majel Barret Roddenberry. O que poderia ter contribuído para afastá-los profissionalmente acabou tendo o efeito contrário. Após o segundo piloto de Jornada nas estrelas ser aceito, Roddenberry convidou Nichelle para viver a tenente Uhura, oficial de comunicações da Enterprise.

A atriz passou por maus momentos. Desde tratamento discriminado por parte de executivos de estúdio até frustração com seu limitado tempo de falas nos episódios. Para piorar, William Shatner, que interpretava o capitão Kirk, tinha um comportamento bastante arrogante durante as filmagens, fazendo de tudo para ter o maior número de falas possível, o que reduzia as oportunidades dela e dos outros atores que não pertenciam ao trio central de protagonistas. Ela considerava seriamente a possibilidade de deixar o seriado e voltar para a Broadway, até ser apresentada a seu maior fã: Martin Luther King Jr. um dos líderes do movimento pelos direitos civis nos anos 60.

Tributo a Nichelle Nichols
Tributo a Nichelle Nichols Foto: Reprodução

King teria dito a ela que ficasse, dado que aquela foi, provavelmente, a primeira vez em que uma mulher negra era mostrada na TV como uma figura positiva, inspiradora, uma oficial a bordo de uma nave estelar. Aquela representação de um futuro de igualdade onde alguém poderia conquistar seus sonhos sem que seu sexo ou cor da pele fossem obstáculos, fascinava King.

E ela ficou. Essa decisão afetou a vida de muita gente, principalmente de jovens afro-americanas. Uma dessas meninas assistia a TV, “zapeando” casualmente entre os canais quando se deparou com Nichelle, em seu posto de comunicações na ponte da Enterprise e começou a gritar para a mãe, que estava em outra parte da casa “Mãe! Venha cá, rápido! Tem uma mulher negra na TV e não é empregada doméstica!” Essa menina se chamava Caryn Elaine Johnson, e, décadas depois, seria conhecida como a atriz vencedora do Oscar Whoopi Goldberg. No final dos anos 80 Goldberg pediu, e ganhou, um papel recorrente em Jornada Nas Estrelas, A Nova Geração: Guinan, amiga e confidente do capitão Jean-Luc Picard (Patrick Stewart), comandante da Enterprise-D.

Apesar do racismo que reinava na sociedade americana dos anos 60, Nichelle conseguiu fazer grandes amizades com seus colegas de elenco. Mesmo Shatner, que era abertamente detestado por James Doohan (o engenheiro Scotty), George Takei (o tenente Sulu) e Walter Koenig (o alferes Checov), teve seus momentos de redenção. Durante as filmagens de um episódio, Nichelle foi trabalhar estando bastante resfriada. A combinação de luzes fortes e ar-condicionado gélido a fizeram desmaiar. Shatner percebeu o momento exato no qual ela ia despencar da cadeira e, incorporado pelo espírito de seu personagem, pulou a mureta que separava a cadeira do capitão e os consoles de navegador e piloto do resto do cenário da ponte. Ele conseguiu segurá-la a tempo, evitando que ela se ferisse.

Anos depois, já na década de 70, quando começou a produção da série animada de Jornada nas Estrelas, Nichelle e George Takei não foram chamados para emprestar suas vozes aos personagens a quem ambos tinham dado vida. Foi aí que Leonard Nimoy se manifestou e disse que, se eles não fossem chamados, ele também não participaria. Nichelle e Takei foram integrados ao resto do elenco. A animação daria a atriz uma oportunidade de destaque: Há um episódio em que todos os membros masculinos da tripulação acabam seduzidos e capturados por fêmeas de uma espécie alienígena com poderes hipnóticos. Cabe à Tenente Uhura assumir o comando da nave e, junto com uma equipe de segurança exclusivamente feminina, descer ao planeta para resgatar os homens.

Muitos acreditam que o episódio de Jornada nas Estrelas “Os Enteados de Platão” marcaria o primeiro beijo inter-racial na TV americana. Nele, forçados pelos poderes psíquicos de um grupo de alienígenas sádicos, o capitão Kirk (Shatner) e a tenente Uhura (Nichols) acabam se beijando. Na verdade, o primeiro beijo inter-racial da TV americana aconteceu alguns anos antes, também protagonizado por William Shatner, mas com uma atriz franco-vietnamita, em outro seriado. O famoso beijo foi, na verdade, o primeiro beijo entre um homem branco e uma mulher negra na TV americana, o que não deixa de ser um feito histórico: quando o episódio foi exibido, muitos estados do sul dos EUA se recusaram a exibir a cena.

A campanha de Martin Luther King Jr. teve um grande impacto na vida de Nichelle Nichols. No fim dos anos 70, ela começou a trabalhar com a NASA, como uma espécie de relações públicas. O programa Apolo havia sido encerrado e o pouco interesse do público pela exploração espacial eram uma fonte de desânimo para a agência. Ela desafiou a NASA a se tornar mais receptiva a homens e mulheres de outras etnias que desejassem entrar para o programa espacial. E funcionou. Em poucos anos, homens e mulheres de todas as origens começaram a se candidatar ao programa espacial. Uma dessas astronautas foi a Dra. Mae Jemison (na foto, com Nichelle Nichols), que disse ter sido diretamente influenciada pela personagem Uhura. Médica e engenheira, Jemison foi a primeira mulher negra a ir ao espaço, como especialista da missão na tripulação do ônibus espacial Endeavour. Após sua carreira como astronauta Jemison fez uma participação especial em um episódio de Jornada Nas Estrelas, A Nova Geração como uma oficial servindo na Enterprise-D.

Em paralelo com suas turnês como cantora, suas participações nos filmes de Jornada Nas Estrelas para o cinema, e participações especiais em seriados de TV, Nichelle era muito ativa nas convenções de fãs, desde meados dos anos setenta até dezembro de 2021, quando participou daquela que seria sua turnê de despedida. Seu sorriso encantador e seu jeito brincalhão conquistavam fãs de todas as idades. Um deles, Wesley Willison (foto), em 1995, então com seis anos, disse a ela que “a achava linda e que casaria com ela quando crescesse”. Ela o abraçou e lhe deu um inocente beijo na bochecha, sendo, nas palavras dele “a primeira mulher fora de sua família a beijá-lo”.

Outra história de convenção, um pouco menos inocente, mas igualmente ilustrativa, aconteceu numa edição da Dragon Com, no fim dos anos 80. O, então, jovem quadrinista da Marvel, Bill Sienkiewicz estava no Lobby do hotel e , de repente, sente uma mão no ombro.

Nas palavras dele mesmo:

“Eu estava vestindo uma jaqueta cinza e jeans. A jaqueta era de algodão leve, sem lapelas (porque eram os anos 80 e, CLARO, não tinha lapelas).”

A conversa: Nichelle: "Posso ficar com ela?"

Eu: "Desculpe?"

Nichelle: "Posso ficar com ela? Por favor! Eu amei! É tão incomum!"

“Aqueles olhos grandes de cachorrinho, as mãos cruzadas na frente dela como se estivesse em oração. O Guarda-costas que a acompanha permanece mudo, me encarando.”

“Eu ri. as pessoas com quem estou riem, Nichelle ri. O guarda-costas, não.”

“Eu gaguejando: "Bem .. eu não posso dar para você. Comprei, em Londres. Se você me der seu endereço na próxima vez que eu for eu compro um para você. Eu vou a Londres a cada poucos meses ou posso dar a você o nome da loja ou ...”
“Mas eu quero agora. Por favor, posso ficar com ela?”

“O guarda-costas dá um passo mais perto. Nichelle está a centímetros do meu rosto, uma gatinha embriagada, brincalhona e suplicante.”

“Eu: Ok.”

“Antes de continuar, DEVO esclarecer que Nichelle não estava de forma alguma sendo ‘metida’ ou bancando a ‘estrela’ mimada. Era o exato oposto. Ela era absolutamente encantadora, eu enfatizo que ela era brincalhona (e estava levemente embriagada) e, aparentemente, ela realmente amava minha jaqueta.”

“Se eu tivesse a chance de fazer tudo de novo, eu teria dado a jaqueta a ela sem fazer perguntas porque era Nichelle Nichols, caramba! E eu era um jovem homem hetero e um tremendo fã de Jornada Nas Estrelas. E, para dizer o óbvio, Nichelle Nichols é um dos mais seres humanos mais lindos, talentosos e sensuais que já andou por esse planeta.”

“Para todos os fins, devo apontar o fato ainda mais óbvio de que eu também era um idiota totalmente ignorante, ligeiramente teimoso e completamente sóbrio (eu tinha parado de beber na época), um idiota sem noção.”

“Devo também salientar que Nichelle estava vestindo uma linda jaqueta de estampa de leopardo selvagem (porque, é claro, ela era uma gata).”

Nichelle: "Posso, por favor, experimentá-la?" Ela está passando as mãos na jaqueta, realmente sentindo o tecido.

Eu: “claro! Mas só se você me deixar experimentar a SUA jaqueta"

“Imediatamente tiramos nossas jaquetas e as trocamos, deslizamos para dentro delas e ambos realizamos um desfile de moda improvisado no saguão para o pequeno grupo de espectadores incrédulos e sorridentes, exceto o guarda-costas, cuja expressão era 90% "vocês estão brincando comigo?” E 10% “sim, vocês estão brincando comigo”.

“Nichelle e eu estamos nos abraçando, fazendo pose, rindo e as pessoas ao nosso redor estão tirando fotos (eu não conhecia essas pessoas. Eu nunca consegui suas informações e nem saberia onde começar a procurar, mas eis a coisa: em algum lugar neste planeta - talvez trancado em uma unidade de armazenamento ou algo assim, REALMENTE existem fotos desse interlúdio. Devo dizer que as fotos foram tiradas com câmeras de verdade (isso foi antes dos smartphones).”
“Nichelle e eu paramos o desfile, ela abraça a jaqueta e diz "POR FAVOR, posso ficar com ela? eu realmente quero. Você pode ficar com a minha jaqueta”.

“eu...”

Ela olha para o guarda-costas: "Eu quero muito essa jaqueta".

“Olho para o guarda-costas. Estou ferrado, obviamente.”

“O Guarda-costas parece farto daquilo. Revira os olhos. “Dê ao homem a jaqueta dele, Nichelle”, diz ele, como se ele estivesse falando com uma criança.”

“Nichelle abraça a jaqueta, faz beicinho por uma fração de segundo e então sorri seu enorme sorriso lindo e diz "Ah, ok"

Antes de tirar a jaqueta, ela caminha até mim e diz "Isso foi muito divertido . Você... Você é completamente adorável!”

“Ela começa a jogar seus braços em volta de mim em um grande abraço longo e...Me beija firmemente na boca. Firmemente. Nos lábios.”

“E não, isso não foi um beijinho. Isso foi um BEIJO. (e NÃO, sem língua, seus indecentes!)”

“O resto da troca é uma espécie de borrão. Suponho que todos nos despedimos e depois lembro que estou no meu quarto de hotel e a TV do hotel está passando Jornada nas estrelas II, A Ira de Khan. Estou olhando para a tenente Uhura na TV e ainda posso sentir seus lábios nos meus. Estou piscando em um silêncio e um choque surreais, atordoado (e eufórico, claro) e estou tocando meus lábios com os dedos e pensando “cara, você vai se lembrar disso para sempre. E vou mesmo.”

“Adendo: Eu guardei a jaqueta e a usei com frequência e pensei em Nichelle Nichols toda vez que a usei até que, como tudo nos anos 80, saiu de moda. Ficou no meu armário do corredor por anos até que eu a limpei a seco e, em algum lugar ao longo dos meus trinta e quarenta anos, ela desapareceu.”

“Eu vi Nichelle algumas vezes depois disso na Dragon Com, com meu amigo David Spurlock, e ela sempre foi muito doce comigo. Ela não deu nenhuma indicação de que se lembrava daquela noite, ou mesmo de quem eu era, mas novamente ela era gentil e doce e adorável e inspiradora e eu nunca pressionei, nunca falei sobre isso ou lembrei a ela, por quê? Foi uma memória incrivelmente especial e é exatamente onde deve ficar.”

“Vá com Deus, minha querida Sra. Nichols.”

“Você foi única.”

Essa era Nichelle Nichols, atriz, cantora, dançarina, ativista pelos direitos civis, um marco na história da TV americana e, como se não bastasse, uma das mulheres mais lindas a ter sua imagem capturada por uma câmera. Nichelle Nichols se foi. Sei que ela estava frágil, doente, e que finalmente descansou. Mas isso não diminui o imenso vazio que ela deixou em pelo menos duas gerações de fãs. Fui incapaz de escrever algo sobre ela no mesmo dia, por mais que desejasse lhe prestar uma homenagem. Não me sentia à altura da tarefa. Ainda não me sinto.

Sua estrela na calçada da fama, acompanhada de flores e de uma mensagem de seu filho, foram a primeira nota que vi sobre seu falecimento, no último sábado, 30/07. Mais do que uma lenda do panteão geek que se despede, Nichelle foi o símbolo de uma época, por diversas razões. Barack Obama disse à atriz, durante uma visita dela à casa Branca, que tinha “uma queda por ela” quando era jovem. Posso dizer que ele não estava sozinho. Numa era em que elogiar a beleza de uma mulher está quase virando crime, lembrar da atriz nos dias gloriosos de sua juventude pode parecer anacrônico, absurdo, cafona até. Eu não ligo. Quem quiser discordar, por favor, pegue uma máquina do tempo e vá se queixar ao pré-adolescente embasbacado que eu era nos anos 70. Tudo que ele poderá responder é: “de repente eu liguei a TV, vi a tenente Uhura na ponte da USS Enterprise e me perguntei como podia tanta beleza caber em uma única mulher”. Era desse jeito que eu, e milhões de outros pelo mundo, nos sentíamos. Hoje eu acrescentaria: “Bill Sienkiewicz, pouco me importa se você é um dos maiores ilustradores da história da Marvel. Não estou nem aí. Mas, cara, você zerou a vida. Você beijou uma DEUSA! Cretino sortudo...

Vá em paz, Nichelle. E muito obrigado por tudo. Você nos encantou com seu charme e seu talento. Você ajudou a construir uma lenda. Você trabalhou por um ideal. Você foi realmente única. Sua estrela brilhará para sempre em nossos corações e mentes.

Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês.

 




O artigo publicado neste espaço é opinião pessoal e de inteira responsabilidade de seu autor. Por razões de clareza ou espaço poderão ser publicados resumidamente. Artigos podem ser enviados para opiniao@gruposinos.com.br
Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.